A capacidade de alternar as propriedades de uma superfície em tempo real sempre foi uma fronteira complexa para a ciência dos materiais. Em revestimentos convencionais, a forma como uma gota de água se comporta ao tocar uma estrutura depende exclusivamente de microgeometrias fixas ou de tratamentos químicos estáticos. Na prática, uma superfície projetada para repelir líquidos permanecerá repelindo-os até que se desgaste, exigindo soluções mecânicas complexas quando o controle dinâmico de fluidos se faz necessário em laboratórios ou processos industriais.
A retenção ou o deslizamento de uma gota sobre uma superfície é regido pela tensão superficial e pela fricção estática interfacial. Materiais hidrofílicos, que atraem água, possuem estruturas mórficas e ligações que facilitam o espalhamento das moléculas de líquido; já os hidrofóbicos, que repelem água, utilizam barreiras microscópicas para manter a gota coesa, forçando-a a deslizar. Mudar essa dinâmica sob demanda exigia, até então, alterações químicas irreversíveis ou mecanismos físicos volumosos.
Para contornar essa limitação, a nanotecnologia acaba de alcançar dois marcos fundamentais para a engenharia de materiais e a microeletrônica. Pesquisadores desenvolveram uma superfície inteligente capaz de alternar dinamicamente entre repelir e atrair água por comando elétrico, além de um método não destrutivo para integrar moléculas frágeis na fabricação de semicondutores. Enquanto a primeira inovação elimina a necessidade de bombas mecânicas para o transporte de fluidos em microcircuitos, a segunda viabiliza a criação de memórias computacionais mil vezes menores e mais eficientes do que as atuais estruturas de silício.


Controle eletrostático em escala nanométrica

A equipe da Universidade de Zurique desenvolveu uma nanoestrutura inteligente de nitreto de boro, material conhecido no meio científico como "grafeno branco", depositada sobre um substrato de ródio. Com apenas 0,1 nanômetro de espessura, a superfície hexagonal em formato de favo de mel reage a impulsos de baixa tensão.
Ao aplicar um campo elétrico ajustável, a orientação angular das moléculas da matriz se altera, modificando a fricção estática e a distribuição de carga na área de contato com o líquido. Essa mudança ajusta instantaneamente o ângulo de contato da gota, desfazendo a sustentação da tensão superficial: em um momento, o líquido adere à base; no instante seguinte, com a variação do potencial elétrico, a superfície repele a gota, fazendo-a deslizar sem deixar resíduos. O fenômeno, embora ocorra em nível atômico, manifesta-se de forma visível a olho nu.

 

Preservação molecular na fabricação de microchips

Paralelamente, engenheiros do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em pesquisa conduzida no Niroui Lab sob liderança da professora Farnaz Niroui, resolveram outro gargalo histórico da microeletrônica: a degradação de compostos orgânicos delicados durante o processo de fabricação de chips. As altas temperaturas e a agressividade dos gravadores químicos da indústria tradicional destruíam as camadas moleculares, impedindo que a eletrônica nanométrica avançasse dos laboratórios para a escala comercial.
O novo método não destrutivo combina a litografia tradicional com a automontagem mecânica por forças nanométricas. Na primeira etapa, de litografia convencional, os circuitos e eletrodos metálicos são pré-fabricados pelos processos padrões da indústria. Em seguida, na deposição molecular, uma camada sub-nanométrica de moléculas é posicionada suavemente na lacuna entre os eletrodos.
A selagem do dispositivo ocorre no acoplamento por força capilar, processo no qual a evaporação do solvente da solução atrai o eletrodo superior em direção ao inferior, prensando a camada molecular sem esmagá-la. Finalmente, na etapa de estabilização por Van der Waals, quando as superfícies entram em contato com a monocamada atômica, as forças de Van der Waals mantêm o conjunto firmemente selado, garantindo um contato elétrico com 96% de rendimento funcional.


Impactos na biotecnologia e na computação

A convergência dessas duas descobertas abre portas para aplicações práticas em diversas áreas da ciência e da indústria. Em dispositivos Lab-on-a-Chip, capazes de realizar análises laboratoriais em escala microscópica, onde fluidos biológicos (como sangue ou reagentes) são movimentados, misturados e analisados dentro de microcanais no próprio chip.
O controle elétrico de fluidos por nitreto de boro permite movimentar, misturar e analisar amostras biológicas, como sangue ou reagentes, em canais microscópicos sem o uso de bombas mecânicas, apenas alternando a voltagem em pontos específicos do microchip.
Na computação de alta densidade e eletrônica molecular, a técnica de automontagem desenvolvida no (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) MIT suportou dezenas de milhares de ciclos elétricos sem degradação, abrindo espaço para substituir transistores de silício por chaves moleculares significativamente menores e mais eficientes. Além disso, em revestimentos autolimpantes de alta eficiência, a tecnologia de superfície dinâmica pode ser aplicada a sensores ópticos, lentes aeroespaciais e painéis solares para expelir poeira e umidade de forma ativa por meio de potenciais elétricos residuais.
As pesquisas reforçam a transição da nanotecnologia de uma fase experimental para a aplicação prática em eletrônica de precisão e ferramentas de diagnóstico médico.

 


Os autores principais do trabalho, Sarah Spector e Peter Satterthwaite, examinam um dispositivo molecular.
Créditos: Reprodução MIT

 

Fontes:

Notícia original:
Turning molecules into reliable electronic devices | MIT News | Massachusetts Institute of Technology

https://newtoncbraga.com.br/novas-tecnologias/12590-material-atrai-ou-repele-agua-controlado-por-corrente-eletrica-nt021.html 

 

 


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Luiza Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, Brasil. Movida pela curiosidade, está sempre atenta às novidades e às transformações no mundo das diversas comunicações, mantendo sempre o compromisso do jornalismo com a verdade.

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