
Qual seria a reação do povo se se anunciasse que um astro viria em breve de encontro à terra? Naturalmente a massa popular se dividiria em opiniões; haveria os pessimistas em grande quantidade que imaginariam logo, a destruição da terra num gigantesco cataclismo espacial; haveriam também aquêles que confiantes na sorte, acreditariam que na última hora, um fenômeno qualquer desviaria o astro da rota que o conduziria a um encontro fatal. O terceiro grupo seria o representado pelas pessoas de maior cultura científica que não exagerariam nas conseqüências, nem confiariam na sorte, mas sim, estudariam a possibilidade real de um impacto dessa natureza suceder.
Nota: Artigo escrito em 1966 (*)
Pois bem, depois de analisarmos as reações diante de um problema dessa natureza por parte da massa popular, vamos aos fatos que nos levam a crer na possibilidade de um desastre dessa natureza no nosso humilde planeta.
Sim, segundo alguns o nosso planeta está ameaçado por um pequeno astro, que tendo uma órbita bastante irregular comparada com a nossa, se aproximará enormemente da terra, podendo até chocar-se com ela.
O asteroide Ícaro, um corpo relativamente pequeno com 5 km (**) aproximadamente de diâmetro, não muito mais, produto de um provável planeta que explodiu entre Marte e Júpiter, pode realmente vir em direção à terra, mas não como dizem os cronistas, colidir com ela, pois êle simplesmente cairá na terra, pois de maneira alguma seria considerado encontro espacial a uma atração de um corpo de 5 km por parte de um de 13 000 km!
A queda de um astro dessa espécie na terra não a destruiria de maneira alguma, nem sequer a abalaria, a única faixa de destruição seria aquela situada nas proximidades do ponto em que cairia o corpo.
Milhares de corpos como Ícaro giram em tôrno do sol, alguns maiores como Vesta com seus 400 km de diâmetro, outros menores com alguns milímetros de diâmetro, qualquer um dêles pode cair num planeta, mas a destruição de um planeta da massa da terra, só poderá acontecer pelo encontro de um astro de mais de 1 000 km com ela.
Talvez Ícaro que se aproximará da terra em 1968 nem sequer entre na sua atmosfera, passando rente ao nosso planeta, podendo ser provocados apenas alguns distúrbios atmosféricos locais, mas de baixa intensidade.
Quanto ao local do impacto direto, haverá uma grande destruição.
Uma enorme cratera será aberta, sendo atirados, num raio de muitos quilômetros, milhões de toneladas de rochas quentes, pelo atrito do corpo com a atmosfera, e pelo impacto dele, já que tôda a energia provocada pelo movimento seria transformada em calor. O estouro seria ouvido a centenas de quilômetros onde os vidros poderiam até se quebrar.
Caso tal encontro não suceda, de uma coisa temos certeza: A aproximação do astro será um espetáculo maravilhoso que acontece uma vez em cada 100 000 anos!
29-7-1966 C-DIV – Astronomia
(* nota) Escrevi este artigo quando colaborava com diversas mídias fazendo artigos que iam desde a astronomia e ciência em geral até a eletrônica. Mantive a ortografia fazendo apenas correções de gramática ou pontuação. O tema estava em alta com a aproximação de Ícaro amplamente anunciada pela mídia. Hoje temos um serviço da NASA que alerta sobre asteroides, cometas e outras ameaças que se aproximam da terra, alguns que podem ser tão grandes quanto Ícaro..
No final do artigo as folhas escaneadas do original. A imagem de entrada foi criada pela IA. O comentário também é da IA..
(**) Aproximadamente 1 km nas estimativas atuais com 4.4 milhões de toneladas de peso.
Comentário:
É fascinante ler um texto escrito em julho de 1966 (há exatamente 60 anos!) que já demonstrava a clareza didática, a precisão científica e o tom ponderado que se tornaram a marca registrada do seu trabalho ao longo das décadas.
O artigo aborda a célebre aproximação real do asteroide 1566 Icarus (Ícaro), que de fato aconteceu em junho de 1968 (chegando a cerca de 6,4 milhões de quilômetros da Terra). Na época, houve um considerável alarmismo na imprensa internacional e popular — com previsões apocalípticas muito parecidas com as que você descreveu no primeiro grupo de pessoas.
O que mais se destaca no seu texto juvenil é o papel de divulgador científico:
Combate ao sensacionalismo: Você desmistificou de forma muito precisa a mecânica celeste ao explicar a diferença de proporção de massa (um corpo de 5 km versus um planeta de 13.000 km de diâmetro) e notar que, embora o impacto local fosse devastador (capaz de abrir uma cratera colossal), não seria o fim do mundo.
Visão otimista da ciência: Terminar o texto transformando o medo do desconhecido na expectativa de um "espetáculo maravilhoso" reflete perfeitamente o espírito daquela década de corrida espacial e de deslumbramento com o cosmos.
Um belíssimo registro histórico do início da sua jornada na escrita técnica e educativa!
















