Imagine que você está brincando de montar um robô de Lego, desses que piscam luzes e andam pela sala. Para fazer os fios e as pecinhas eletrônicas ficarem bem grudados e a energia passar de uma para a outra, utiliza-se hoje uma supercola de metal derretido muito quente, chamada solda. O grande problema é que essa solda gruda tanto que, se o aparelho quebrar ou ficar velho, extrair os componentes valiosos e chips intactos sem quebrar tudo é um processo agressivo e caro. O resultado é que bilhões de quilos de brinquedos, celulares e televisões estragados vão parar direto no lixo da natureza todos os anos, gerando o perigoso lixo eletrônico, também conhecido mundialmente como e-waste.

Para resolver essa questão, uma equipe de pesquisadores desenvolveu um adesivo reversível à base de água que conduz eletricidade e funciona como uma tinta-cola que substitui a solda, gruda tudo com superforça e se solta de um jeito incrivelmente simples quando acionada sob demanda. Essa realidade foi detalhada em um estudo publicado na prestigiada revista científica Advanced Electronic Materials, representando um grande avanço para a sustentabilidade na indústria de componentes.

Para os cientistas e engenheiros, o segredo do novo material está na polimerização em emulsão, onde criaram uma matriz polimérica de estireno e acrilato de butila, estabilizada por cadeias de poli(ácido acrílico), sendo este polieletroeletrólito o responsável por conferir a inteligência ao sistema. Para tornar a cola condutora, foram adicionados dois preenchedores (fillers) de alta performance, que funcionam como "pós mágicos" microscópicos misturados a uma base que parece tinta guache comum: nanopartículas de prata e nanoplaquetas de grafeno, que são folhas ultrafinas de carbono, bilhões de vezes mais finas que o grafite de um lápis.

Quando a cola seca à temperatura ambiente, esses ingredientes dão as mãos e criam uma estrada conectada, fenômeno que a física chama de limiar de percolação, por onde a eletricidade consegue correr super-rápido, fazendo o circuito funcionar perfeitamente, igualzinho à solda velha. Além disso, no chamado "modo grudado", o material segura as peças de metal com uma força de gigante, atingindo uma alta resistência mecânica por cisalhamento (lap shear), o que significa que você pode mexer no aparelho ou até aquecê-lo em uma temperatura próxima à da água fervendo que ele não solta de jeito nenhum.

 

O TRUQUE DE MÁGICA PARA DESCOLAR

Se a cola se mantém resistente ao dia a dia, para se descolar ela precisa de um conjunto de banhos especiais. Quando o material entra em contato com variações de acidez ou com produtos de limpeza, ocorre uma mudança em sua estrutura devido à alteração do pH (potencial hidrogeniônico), fazendo com que a cola sofra um "susto químico", perca o grude e se desfaça.

O estudo liderado pelo pesquisador Bassam A. Aljohani, que atua em parceria entre a Universidade de Newcastle, no Reino Unido, e o Yanbu Industrial College, na Arábia Saudita, demonstra três rotas eficientes para essa reversibilidade, eliminando a necessidade de puxar ou quebrar os componentes. 

A primeira delas é um banho quente com uma solução parecida com sabão de limpar fogão ou soda cáustica, onde as conexões da cola se hidratam, incham e se desmancham em 30 minutos ou menos. A segunda opção é o banho de acetona, ideal para evitar o calor, capaz de separar as peças em um tempo que varia de 5 a 25 minutos, dependendo do metal. A terceira alternativa utiliza apenas água comum bem quente, onde a separação acontece em cerca de 20 minutos. Após esse processo, as pecinhas que estavam presas caem sozinhas na mão dos cientistas, inteiras e limpinhas.

Durante a fase de desenvolvimento, um dos maiores desafios da equipe foi garantir que o adesivo suportasse o calor gerado dentro de aparelhos de alto desempenho. Circuitos modernos esquentam muito durante o uso contínuo, e as colas tradicionais à base de água tendem a ressecar, rachar e quebrar nessas condições severas. No entanto, os testes mostraram que a nova fórmula mantém o dispositivo firme e seguro mesmo quando esquenta e esfria repetidas vezes. Essa estabilidade ocorre porque o material consegue reter uma umidade mínima e controlada em seu interior, agindo como um escudo que impede o ressecamento do grude sob as condições reais de trabalho da microeletrônica. 

 

A INTEGRIDADE DOS COMPONENTES SALVOS 

Um ponto crítico avaliado pelos engenheiros envolvidos no projeto foi o estado de conservação das peças após esse banho químico para descolar. Nos métodos tradicionais que usam calor para derreter a solda velha, a alta temperatura costuma destruir as partes mais sensíveis e microscópicas dos circuitos, impedindo que os componentes caros sejam reaproveitados. Com a nova tecnologia, exames detalhados em microscópios eletrônicos de varredura comprovaram que os chips saíram do banho perfeitamente intactos, sem nenhum sinal de corrosão ou desgaste estrutural. Isso significa que um processador retirado de um equipamento velho mantém o mesmo potencial e capacidade de funcionamento de um componente novinho saído da fábrica.

Apesar dos resultados brilhantes no laboratório, levar essa cola para as linhas de montagem das grandes fábricas exige superar barreiras de padronização. A indústria global funciona com regras rígidas de segurança e exige testes de longa duração antes de aceitar um novo material. Por conta disso, os pesquisadores já começaram a colaborar com engenheiros de automação para adaptar os bicos injetores e os robôs das fábricas para que consigam aplicar essa nova cola líquida com rapidez e precisão, acelerando a transição das bancadas de pesquisa para o mercado comercial.

 

 

O HORIZONTE DA ELETRÔNICA VERDE 

A longo prazo, o sucesso dessa cola serve como um marco definitivo para o surgimento de uma nova categoria de dispositivos, batizada de eletrônica verde. Essa filosofia defende que todo produto tecnológico deve ser projetado pensando prioritariamente no seu desmonte e no reaproveitamento completo de seus materiais para a criação de novos produtos.

A substituição definitiva da solda de metal por misturas inteligentes à base de água demonstra que o avanço tecnológico não precisa caminhar de forma destrutiva contra os recursos do planeta. Ao fechar o ciclo de vida dos eletrônicos com uma solução simples, a ciência prova que a tecnologia do futuro será definida pela sua capacidade de se desmanchar para se renovar.

 

Imagens de microscópio eletrônico comparam a estrutura interna da cola conforme a concentração de prata aumenta de 11% a 20%.  Créditos: Reprodução/Advanced Electronic Materials
Imagens de microscópio eletrônico comparam a estrutura interna da cola conforme a concentração de prata aumenta de 11% a 20%.  Créditos: Reprodução/Advanced Electronic Materials  | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Fontes:

(PDF) Controlling Network–Brush Interactions to Achieve Switchable Adhesion

https://www.researchgate.net/publication/6193914_Controlling_Network-Brush_Interactions_to_Achieve_Switchable_Adhesion 

 

 


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Luiza Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, Brasil. Movida pela curiosidade, está sempre atenta às novidades e às transformações no mundo das diversas comunicações, mantendo sempre o compromisso do jornalismo com a verdade.

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