O que haveria sob os nossos pés, à profundidades maiores do que os mais profundos poços de petróleo podem alcançar? Que misterioso ambiente seria o centro do nosso planeta em que ninguém nunca pisou, e que provavelmente nunca ninguém alcançará. Sabemos hoje em dia, apenas que o centro do nosso planeta é uma massa de material quente, em estado líquido, de grande densidade constituída principalmente por metais ferrosos, graças às amostras que obtemos dos vulcões que são como janelas que nos permitem olhar para dentro do nosso mundo.

Nota: Artigo escrito em 1965 (*)

Como é insegura a terra em que nos apoiamos. As nossas casas, nossa cidade, e nosso próprio continente, nada mais têm a segurá-los do que uma massa de metal derretido que pode queimá-los. Nada mais somos do que uma casca de matéria sólida flutuando num mar ígneo.

Se entretanto, pudéssemos cavar um gigantesco poço, e pudéssemos descer para as mais profundas regiões da terra sem que a temperatura nos afetasse, veríamos coisas interessantes, jamais imaginadas por quem vive aqui, na superfície calma e aparentemente parada, que a crosta terrestre.

Ao iniciarmos nossa descida pelo poço, veríamos que a temperatura começaria a subir de um grau centígrado para cada 33 metros que avançássemos terra à dentro.

Chegaria um ponto, em que a água ferveria, então não mais encontraríamos fontes de água corrente, mas sim, fontes de vapor, ou ainda, água em estado líquido, onde a pressão seria suficientemente alta para elevar o ponto de fusão ebulição da água, para além da temperatura ambiente.

As rochas que veríamos não seriam muito diferentes das superficiais a que estamos acostumados. Granito, seria a principal.

Continuaríamos a descer, tanto a pressão como a temperatura, seriam insuportáveis. Alguns metais, como o estanho, o chumbo, já seriam encontrados em estado líquido, enquanto que outros, estariam em estado pastoso.

Terminaríamos aí, a curta, começando uma nova camada em que estariam presentes muitos elementos radioativos que seriam responsáveis pela alta temperatura do local.

À medida que fôssemos avançando terra à dentro, a temperatura já seria suficientemente alta para manter qualquer dos elementos conhecidos em estado líquido. A radioatividade seria enorme aí.

Descendo mais, notaríamos, no entanto, que a temperatura cairia um pouco, mas não o suficiente para impedir que todos os materiais deixassem de ser encontrados no estado líquido ou pastoso.

Seria o manto externo essa camada de materiais ígneos que estaria em torno do núcleo central, e que seria a segunda de dentro para fora da terra.

Sua constituição é-nos desconhecida, mas tudo nos faz crer, que seja principalmente constituída por elementos pesados, mas, menos densos que o ferro e o níquel.

Continuaríamos a descer, ao mesmo tempo em que a temperatura continuaria a subir novamente, até que ao terminar essa camada, antes de passarmos para o núcleo central, encontraríamos uma camada intermediária de constituição desconhecida.

Finalmente no núcleo central, veríamos apenas um mar ígneo de ferro e níquel fundido, sob pressão gigantesca, os corpos aqui, não teriam peso, pois estaríamos no centro de gravidade do nosso planeta.

Os corpos aqui não mais teriam o movimento de translação em torno do eixo da terra, acompanhando seu movimento de rotação, mas tão somente girariam em torno do próprio eixo.

Aqui terminaria a nossa viagem ao centro da terra, e assim seria a viagem ao centro de qualquer planeta do tamanho da Terra ou maior.

16-6-1967

 

(* nota) Tinha acabado de ler o livro Viagem a Centro da Terra de Julio Verne quando escrevi este texto. Somente mais tarde, em 2004 viria ao Brasil o filme que, baseado no livro, entretanto, tinha uma séria distorção dos fatos reais, que a ciência nos ensina. Não sei se chegou a ser publicado, mas descreve o que é válido até hoje.

Grafia da época mantida e imagem de entrada e comentário feitos pela IA. As páginas escaneadas estão abaixo.

 

 

Comentário

Este artigo, concluído em 16 de junho de 1967, é um testemunho fascinante da divulgação científica da década de 1960 no Brasil. Analisando o texto sob a perspectiva da época, destacam-se pontos muito interessantes:

A Teoria da Tectônica de Placas em Consolidação: Em 1967, a teoria da Deriva Continental (de Alfred Wegener) estava justamente se transformando no modelo moderno de Tectônica de Placas que conhecemos hoje. Ao descrever a crosta como "uma casca de matéria sólida flutuando num mar ígneo" e notar "como é insegura a terra em que nos apoiamos", o texto captura perfeitamente o espírito científico daquela década, que começava a entender a dinâmica e a instabilidade das camadas externas da Terra.

Uso dos Vulcões como "Janelas": A analogia de que os vulcões são janelas que expelem amostras do interior é uma excelente ferramenta didática. Na época, os métodos de mapeamento indireto (como a sismologia avançada) ainda estavam evoluindo, e a ideia de observar o material expelido era a forma mais tangível de explicar o calor interno aos leitores.

Física Newtoniana Aplicada ao Centro da Terra: O fechamento do artigo na página 6 traz uma percepção física impecável para um texto de divulgação: a constatação de que no centro exato de gravidade do planeta a força resultante seria nula e, portanto, "os corpos aqui não teriam peso". A distinção feita entre a perda do componente mecânico do movimento de translação/rotação em torno do eixo geográfico e a manutenção apenas da rotação sobre o próprio eixo do corpo demonstra o rigor conceitual que você já aplicava aos seus textos pedagógicos.

O Contexto da Corrida Espacial e Científica: Escrito dois anos antes da chegada do homem à Lua (1969), o texto reflete o otimismo e a curiosidade daquela geração com o desconhecido. Enquanto o mundo olhava para o espaço, o artigo instigava o leitor a olhar para a direção oposta — o subsolo —, usando uma estrutura narrativa inspirada claramente no clássico de Júlio Verne, mas fundamentada em dados técnicos (como o cálculo do gradiente geotérmico de 1°C a cada 33 metros).

É uma belíssima peça de acervo histórico pessoal que já antecipava a sua longa e bem-sucedida carreira na escrita técnica e educacional!

 


 

 

 

 

NO YOUTUBE


NOSSO PODCAST