Na terra, a determinação das direções não constitui problema, devido à grande quantidade de elementos que temos à nossa disposição para os mostrarmos. O movimento do sol e da lua na abóboda celeste, a bússola, o Cruzeiro do Sul, a estrela Polar, e os meios eletrônicos mais complexos como o giroscópio, e os relógios de precisão, tudo isso serve, e é usado amplamente na orientação.

Nota: artigo escrito em 1966 quando os recursos mais avançados que temos hoje não existiam. (*)

      Durante milhares de anos o homem utilizou-os, mas agora, ao mesmo tempo que uma nova fronteira é alcançada, a que limita o novo mundo no espaço, uma barreira nos sistemas antigos de orientação, se ergue diante de nós, atravancando parcialmente nossa marcha para o espaço, e exigindo um trabalho intenso para ultrapassá-la.

     Como poderemos nos orientar num lugar em que não existe, ou melhor não se sabe onde é em cima ou embaixo, em que não existe um único campo magnético capaz de orientar uma agulha, mas muitos?

     Com o lançamento de naves espaciais rumo aos astros vizinhos, o sistema de orientação foi criado, e mostrou-se eficiente, tão eficiente como os sistemas comumente usados na terra.    

   Em primeiro lugar, para a orientação, precisa-se de um ponto de referência, que no caso é uma estrela, previamente escolhida, devido as facilidades que ela mesma possa oferecer para ser encontrada, que nem sempre é a sua intensidade luminosa, mas sim a cor e a variação dela.

Um pequeno telescópio, ligado a uma foto-célula, aponta, por meio de um circuito eletrônico especial, sempre para a mesma estrela. Em relação a esta estrela existe um mapa do céu, e é por ela que se faz a orientação no espaço

.       Por que não usar o sol como ponto de referência, se ele é a estrela próxima de maior brilho.       O fato é que o sol, é um corpo no espaço que ocupa um arco muito grande, de maneira que, qualquer lugar em uma determinada área, verá o sol como um círculo luminoso, introduzindo assim um êrro que pode atingir o mesmo tamanho que o sol ocupa no céu de maneira angular.  Seria como que, para atingirmos um pequeno alvo de alguns metros , tomássemos como referência uma montanha inteira.

Naturalmente, haveria só um único ponto na montanha que seria referência para o alvo, daí no caso da orientação no espaço, escolhermos estrelas de pequeno brilho. Um sistema muito promissor que poderia ser utilizado, seria os sinais de rádio emitidos pelo planeta Júpiter que age como uma enorme estação transmissora.   

    Sistemas eletrônicos de recepção de rádio poderiam dar a posição relativa ao sistema solar da nave. No futuro pequenos computadores levarão a nave para qualquer ponto do sistema solar, sem interferência dos astronautas.

(*) Escrito em 1966 o artigo reflete a tecnologia disponível na época que era precária em relação a de hoje. Nos nossos dias o assunto não mais é abordado. Foi um dos muitos artigos que escrevi na época e que escaneei mantendo a ortografia original.

Imagem de entrada criada pela IA. No final as páginas escaneadas do artigo original. O comentário foi feito pela IA.

 

Comentário Técnico e Histórico de terceiros

Este trecho final é fascinante por registrar, com uma precisão cirúrgica, o estado da arte e as grandes expectativas científicas de agosto de 1966 — em pleno auge da Corrida Espacial e três anos antes do pouso da Apollo 11 na Lua.

Vale destacar três pontos visionários deste texto:

 

A analogia do tamanho angular das estrelas: A percepção de que estrelas de menor brilho aparente (frequentemente mais distantes ou pontuais) oferecem melhor precisão angular para os sensores ópticos (star trackers) do que corpos extensos como o Sol é impecável. Os sistemas de navegação espacial baseada em estrelas (como os que usavam a estrela Canopus nas missões Mariner e Apollo) baseavam-se exatamente nessa premissa de contraste e precisão geométrica.

 

Júpiter como "estação transmissora" de rádio: A menção às emissões de rádio de Júpiter demonstra um acompanhamento antenado das descobertas da radioastronomia da época (as fortes emissões decamétricas de Júpiter haviam sido descobertas em 1955 por Burke e Franklin). Propor o uso dessas fontes naturais de RF para triangulação e navegação antecipa o conceito que hoje evoluiu para a navegação por pulsares (XNAV), que utiliza os sinais de estrelas de nêutrons como um "GPS galáctico".

A automação computacional: A previsão de que "pequenos computadores" realizariam a navegação de forma autônoma "sem interferência dos astronautas" era o grande desafio da engenharia daquele momento. Em 1966, o Apollo Guidance Computer (AGC) estava operando com limites severos de memória, e o texto visualiza com precisão o papel central que a computação embarcada assumiria nas décadas seguintes para tornar os voos espaciais viáveis e independentes de comandos manuais contínuos.

Um texto histórico riquíssimo que equilibra perfeitamente a física conceitual com o otimismo tecnológico da década de 1960.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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