Um DC3 daquela empresa havia se acidentado na Amazônia. Esse tipo de avião era muito comum na época. Milhões deles foram produzidos durante a segunda guerra e depois vendidos para empresas, pois eram um pequeno ônibus com capacidade até 40 pessoas e podiam operar em pistas curtas de terra. Eram ideais para regiões isoladas.
O dito avião havia batido sua asa numa árvore ao sair da pisca e danificado principalmente a asa, com perdas totais. O avião foi desmontado, suas partes foram trazidas para São Paulo e colocadas à venda como “descarte”.
Amplificadores Meu amigo me ligou então, avisando que ele tinha o receptor completo do DC3, um BC238 que estava em pleno funcionamento pois não tinha sofrido dano algum. Perguntou se eu queria o rádio. Ele iria me dar como “sucata”.
Não tive dúvidas. Não tinha carro na época. Assim, pedi para o pai de um amigo me levar para buscar o receptor e fui até o depósito da VASP na Rua Santa Catarina, ao lado do Aeroporto de Congonhas, onde peguei o rádio, o dinamotor e como presente adicional um poderoso imã de magnetron.
É claro que chegando em casa com informações sobre o funcionamento, vi que era preciso montar a fonte de alimentação. Na versão original, p radio tinha um dinamotor de 28 V para a alimentação. 28 V era a tensão dos sistemas elétricos dos aviões da época. Assim, o dinamotor, um conjunto que funcionava como um motor de 28 V e bobinas de alta tensão e de 12 V para a válvula gerava essa tensão. Como ia alimentar pela rede, tive de anular este gerador e montar a fonte. Na figura abaixo o dinamotor.

Fui justamente na loja de meu amigo da penha onde consegui um enorme transformador de televisor Philco da época e partir dele montei a fonte. Funcionou e tenho o receptor até hoje funcionando.

Link para os vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=B1JKUfeMNg8&t=23s
https://www.youtube.com/watch?v=xJT6JRj-nI4&t=37s
O receptor era uma maravilha da engenharia das válvulas da época. Uma caixa robusta (era um avião de guerra) e uma mecânica precisa, ele sintonizava de 200 kHz a 15 MHz em diversas faixas selecionadas por uma chave de onda e indicadas por um mostrador acionado por uma manivela.

O pessoal ficava admirado quando eu girava rapidamente a manivela levando o rádio a sintonizar uma estação da América do Norte, Europa ou mesmo Ásia. A sensibilidade era extraordinária. Para que vocês tenham uma ideia consegui o QSL de uma estação de 1530 kHz na Alemanha (Ondas Médias). E outro de ondas médias nos Estados Unidos. O cartão QSL que recebi depois de enviar o relatório de escuta pelo correio como se fazia, prova isso.

O circuito operava com uma FI de 915 kHz e tinha 4 etapas de RF com um enorme capacitor variável acionado por um mecanismo de precisão. Veja os vídeos nos links da figura abaixo. Um problema inicial que deixaria qualquer um que não conhecesse maluco foi o ajuste. Colocar todas a faixas afinadas par se obter a melhor recepção. Eu não tinha gerador de sinais na época, pois era um instrumento caro. Assim, fiz isso tudo de ouvido.

Conheça este receptor através do artigo em que descrevo os seus circuitos.
Link para Analisando meu receptor da Segunda Grande Guerra (TEL281)
Nessa época cheguei a comprar um chassi na Rua Santa Ifigênia e tentei montar um receptor mais sensível da minha própria criação. Desenhei um esquema com dupla conversão e várias etapas de RF, mas tudo era muito crítico que acabei por desistir. Já não tinha mais tanto tempo para esse tipo de diversão.
Foi nessa época que o Gilberto Affonso Penna da revista Eletrônica Popular soube da minha existência. Ele vinha com frequência a São Paulo para ver seus negócios relacionados com sua loja e com a publicidade nas suas revistas, Antenna e Eletrônica Popular.
Dona Nauá falou então de um jovem que ia sempre à loja em busca de conhecimento, comprando livros e revistas e que ele tinha um “caderninho” que achei fabuloso, mesmo não entendendo nada, onde ele descrevia suas montagens e experiências. Ela disse que da próxima vez que viesse marcaria um encontro meu com ele para que ele visse esse caderninho de anotações.
Foi o que ocorre. Lá por volta de 1965 levei o meu caderno de anotações, já com vários anos de projetos descritos para que ele visse. Não deu outra. Ele “confiscou” meu caderno.
Disse que aquilo poderia ser transformador, não apenas em artigos ensinando eletrônica, mas numa série ou Curso. Foi o meu primeiro curso.
Chamou de Eletrônica Para Juventude. Entregou o caderno para um jovem engenheiro, Ronaldo Valente o qual ficou encarregado de processar o meu material para a nova seção. Eletrônica Para Juventude.
Montei muitos outros circuitos valvulados até essa época, mas já não tinha tanto tempo. No início dos anos 70 iniciei uma nova fase na moinha carreira, mas ainda com envolvimento com as válvulas.
Fui chamado para trabalha no Instituto Radiotécnico Monitor. Já tinha colaborado com artigos para a revista Monitor de Rádio e Televisão e já era bem conhecido. O que eles me propuseram foi atualizara o curso de eletrônica por correspondência que ainda se baseava totalmente em montagens valvuladas. Muito boas, por sinal. O aluno recebia as peças aos poucos e no final tinha um poderoso receptor de várias faixas.
Numa primeira fase eram montados receptores de diversas complexidades e depois o receptor final. Na figura um dos receptores montados com duas válvulas .

Veja na figura abaixo os detalhes da montagem do receptor de 3 válvulas da etapa seguinte.

Queriam tirar completamente as válvulas do curso e manter apenas os transistores. Os fiz ver que não deveriam retirar as válvulas, pois elas ainda seriam usadas por muito tempo e conhecer seu funcionamento era fundamental. Apenas precisaríamos fazer algumas atualizações.
Na figura abaixo o anúncio do instituto com uma ilustração sobre o rádio que o aluno montaria durante o curso. Esse anúncio e da própria revista Monitor de uma edição de abril de 1965.

Demorei quase 2 anos para refazer mais de 50 apostilas, criando novos projetos para a parte de transistores e muito mais. Aprendi muito nessa transição da válvula para o transistor, tendo de trabalhar com os dois tipos de componentes. Numa edição comemorativa publicada em 2005 fui homenageado pelo meu trabalho. Nessa época dei aulas no Colégio Objetivo com o Léo (Luiz Ferraz Netto) criador do site Feiras de Ciências (link). Na nossa eletiva os alunos montavam um amplificador valvulado bem interessante, aprendendo sobre essa tecnologia.
Eles recebiam o chassi que furavam para os soquetes das válvulas e depois as instalavam em etapas de modo a ter versões diferentes para o mesmo circuito. Na figura abaixo um circuito valvulado completo que montamos naquela época.

Não fiquei muito tempo no Objetivo e no Instituto Monitor pois em 75, depois de reuniões diversas com um funcionário da Monitor, Savério Fittipaldi, Hélio Fittipaldi e Hélio Mendes de Oliveira, fui convidado a ser o primeiro diretor da Revista Saber Eletrônica. Começamos a trabalhar no primeiro número que só saiu em abril de 1976.
Veja a história no link:
https://www.newtoncbraga.com.br/memoria-historica/11914-primeira-saber-eletronica-hist049.html
Na figura abaixo a capa da primeira edição,(que começa na numeração 45, por motivos que vocês pode descobrir no artigo do link.

Os artigos eram de todos os tipos e depois nas revistas que vieram fiz muitos projetos valvulados que fizeram sucesso. Era um pouco difícil convencer que as válvulas ainda eram usadas quando tínhamos as reuniões de pauta com os responsáveis da editora. Eles achavam que ninguém queria mais saber desses componentes. Mas, mesmo assim, publiquei diversos projetos que marcaram época como o super transmissor de ondas curtas, o transmissor de FM, e diversos outros. As válvulas estavam se tornando cada vez mais difíceis, mas tínhamos indicações de lojas e os montadores gostavam.
O transmissor de FM com uma 6C4 foi um projeto especial onde reunimos a válvula à técnica de montagem em placa de circuito impresso. Muitos montaram esse circuito como trabalho de formatura. Veja a figura abaixo.
Link para o artigo completo:
https://www.newtoncbraga.com.br/mundo-das-valvulas/16145-transmissor-de-fm-valvulado-v616.html

Era um simples tríodo oscilando (e gerando muita interferência) mas, como projeto experimental funcionava. Explicamos que para reduzir as espúrias era preciso usar um bom filtro.
Na figura abaixo temos o circuito desse transmissor. Observe a fonte sem transformador, para tornar o circuito bem simples.

O transmissor telegráfico de ondas curtas, cujo link aparece abaixo foi outro bom projeto desse tipo.
Era um potente transmissor com uma válvula 6V6 que opera na faixa dos 40 metros e cuja montagem tinha a bonita ilustração do chapeado, conforme a abaixo
O aspecto da montagem e dado na figura abaixo.

Um problema que tínhamos na época era alertar que esses transmissores deveriam ser usados sem as antenas, a não ser por radioamadores licenciados. Não era permitido usar transmissores sem a devida licença, mas nossos leitores ignoravam esse fato. Até hoje tenho placas e restos das montagens dos aparelhos valvulados que criei e montai. Devem ter montado que falo pouco dos amplificadores valvulados que fora e são a sensação de muitos. Finalmente um transmissor que até hoje tenho e que tem a descrição no site que é o Transmissor Valvulado Experimental AM que aparece na foto da abaixo.

A foto é do protótipo que até hoje tenho comigo, um dos que sobrou de uma enchente que afetou o laboratório da Editora Saber e nos fez perder muitas coisas. O link para o artigo que descreve a montagem é:
Como falei eu gostava mais de RF e circuitos diferentes. Assim, pouco montei de amplificadores potentes, mas tinha muitos amigos que faziam isso e me procuravam para pedir sugestões. enho ainda muitos livros que tratam de válvulas como manuais, esquemários e livros de teoria que usei no passado para meus projetos, minhas montagens e para a produção de artigos.
Finalizando, atualmente ainda mantenho os capítulos sobre válvulas do primeiro curso de eletrônica que publiquei na Revista Saber Eletrônica e que se tornou livro de grande sucesso. Os capítulos estão sob a forma de artigos no nosso site, na seção Mundo da Válvulas.














