Uma aposta entre o Professor Ventura, Beto e Cleto novamente leva muita confusão à pacata cidade em que eles residem. Desafiando princípios da física, entrando no campo místico e até de muitas interpretações capazes de deixar qualquer um confuso. Veja nesta estória como o Professor Ventura consegue provar que é possível armazenar energia num picolé e como isso pode revolucionar as fontes de energia alternativas do futuro.
Poderíamos até mudar o nome da aventura para “Carregue seu celular chupando sorvete”, mas, vamos em frente.
Começamos esta estória no ponto em que a anterior (NVENT023), em que o Professor Ventura ganhava uma aposta, armazenando energia num buraco terminava, com os três tomando sorvete na sorveteria local.
Olhando para seu picolé atentamente, o Professor Ventura propunha que seria possível armazenar energia nele, segundo os mesmos princípios físicos usados para armazenar energia num buraco e que havia levado a aposta anterior.
- Sim, é possível armazenar energia num picolé. O suficiente para carregar seu celular!
Beto e Cleto, incrédulos, mas muito desconfiados, pois o Professor Ventura não falava nada que não tivesse uma boa fundamentação, arriscaram duvidar do fato.
- Sem essa, Professor. Você nos enganou com a energia armazenada em buracos. Era tudo real, um artifício na interpretação de princípios físicos bem conhecidos. Mas, agora, acho que não é possível.
- Querem apostar! Outra rodada de sorvetes.
Beto e Cleto não tiveram como escapar. Mesmo porque, seria a chance de devolver a aposta perdida anteriormente, tomando agora sorvete de graça.
- Apostado! Mas, temos de tomar cuidado desta vez. – Alertava Beto.
O Professor Ventura logo percebeu o ponto.
- Sim, não vamos espalhar isso pela cidade, e depois ter um monte de problemas com as más interpretações das pessoas, principalmente as que não sabem nada de ciência.
- Principalmente o Epaminondas. – Completou Cleto, lembrando que foi o barbeiro gordinho que espalhou a notícia de que o Professor Ventura queria armazenar energia em buracos e com isso causou pânico em muitas pessoas. Buracos negros na cidade, energia saindo dos bueiros e muitas coisas semelhantes levaram a cidade a um rebuliço total.
- Mas e as regras? Seriam as mesmas da nossa aposta anterior? – Perguntou Cleto.
- Acho que podemos adotá-las. Dou uma semana para que vocês descubram um modo de descobrir como isso pode ser feito. Caso contrário eu é que tenho de provar. Se vocês conseguirem, pago a rodada de sorvete, e não conseguirem e eu provar que é possível, vocês pagam.
- Trato feito! Apostado! – Os três terminaram seus sorvetes e foram para suas casas.
Mas, é claro, numa cidade pequena ninguém consegue ficar de boca fechada por muito tempo e, mais cedo ou mais tarde, as notícias se espalham. Principalmente as ruins, e desta vez foi cedo demais. Cleto não conseguiu ficar de boca fechada.
Achando que se falasse alguma coisa com seu pai, não iria muito longe, pois o “velho” não era pessoa de ficar espalhando notícias, mas havia um pequeno detalhe que mudaria tudo. No dia seguinte ele foi ao barbeiro. Não é preciso dizer que, muito mais importante que o jornal local e a pequena rádio, para se espalhar as novidades que todos gostariam de saber (e de não saber, também) era a barbearia do Epaminondas.
- Sim, parece que o Professor Ventura continua fazendo seus experimentos estranhos. Às vezes me preocupo com meu filho, que gosta do que ele faz e às vezes de uma forma preocupante.
Epaminondas, que era sempre a principal vítima do Professor com seus experimentos, às vezes mal sucedidos ou bem sucedidos demais, logo arregalou os olhos, percebendo que “vinha alguma bomba”.
- Tem ideia do que ele está fazendo agora?
- Maluquice. Cleto disse que parece que ele está tentando armazenar energia em sorvetes.
- ? – Epaminondas parou com a tesoura e o pente em riste e um olhar incógnito para o infinito. Incógnito mesmo, pois o músico e barbeiro era levemente vesgo.
- Sei lá o que ele está pretendendo. O problema é que ele está muito à frente de todos nós quando se fala de ciência, e às vezes a gente, por não entender, se preocupa demais ou fica mesmo apavorado. Já aconteceu outras vezes.
- Sim. Esperamos que não seja nada perigoso. – Concordou Epaminondas, que terminando de cortar o cabelo do pai de Cleto, recebeu o pagamento, despedindo-se do cliente.
- Energia em sorvetes! O próximo! (Pelo menos não é em tubas) –
Epaminondas não se preocupou, mas ficou a “coisa” em sua cabeça.
- Pode ser golpe publicitário. – Comentou o Sr. Agnaldo, cliente seguinte.
- Como assim?
- Você sabe. Com a abertura de nova sorveteria do outro lado da praça, o Carlinhos da sorveteria mais antiga vive inventando novos sabores para seus picolés para atrair clientes. – Ele parecia ter razão.
- Sim, é isso mesmo. Sorvetes com nomes e fórmulas estranhas. Lembra-se do sorvete de pedra que ele lançou. – comentou Epaminondas.
- Sorvete de pedra. Essa eu não me lembro.
- Acho que foi no tempo que você esteve fora. Foi muito interessante. Até deu brigas na ocasião.
O Agnaldo queria saber mais.
- Muito esperto, o Beto fazia um sorvete com diversos ingredientes, muito saboroso, por sinal, e que servia numa taça com uma pedra no fundo. – Epaminondas explicou a ideia do sorveteiro que até provocou atritos com quem se sentiu enganado pela publicidade.
- A pedra está aí. Não há por que reclamar. – Justificava o sorveteiro.
- Sorvete de pedra! Mas a pedra não fazia nada. Ideia engenhosa. Pode ser que ele esteja envolvido na ideia do Professor Ventura que está sempre lá tomando sorvete.
- Pode ser que estejam trabalhando num sorvete de energético. – Concordou Epaminondas.
- Sim, talvez comecem a circular as notícias pela cidade. Até vejo a faixa que ele vai colocar na sorveteria. “Picolé de energia – Venha provar nosso picolé de energético”.
- Puff. Mas, pensando bem, acho que tem mais coisa por trás de tudo isso. O Professor Ventura não costuma se envolver com projetos simples. Vou ver se descubro alguma coisa mais – Epaminondas tinha razão.
Mais um cliente deixava a barbearia levando notícias que ajudaria a espalhar, e causar confusão.
- O próximo.
E assim foi o dia inteiro na Barbearia do Epaminondas e o assunto foi sempre o mesmo: o Professor Ventura estaria trabalhando num projeto para armazenar energia em sorvetes.
Mas, quem conta um conto acrescenta um ponto, a cada pessoa para quem era passada a estória, algo era alterado ou acrescentado e pouco a pouco, e estória ia mudando.
- Está querendo trazer icebergs para Brederópolis.
- Vai montar uma incubadora de pinguins na praça.
- Vai colocar uma geladeira quântica na sorveteria do Carlinhos.
- Vai mudar o clima do mundo. Vai inverter o efeito estufa.
Esses eram apenas alguns dos comentários que começaram a correr pela cidade, e isso poucas horas depois que Cleto conversou com seu pai.
Mas, o mais preocupante não eram os comentários “inocentes”. O mais preocupante estava nos comentários de catastrofistas, pessimistas e outros que logo imaginavam o pior e coloque pior nisso.
- Vai congelar a cidade.
- Dentro da geladeira estará mais agradável
- Morreremos de frio.
- Nunca mais teremos sol.
Alheios a tudo isso, o Professor Ventura, Beto e Cleto continuavam suas vidas normais. Beto e Cleto tentavam obter uma solução sobre o problema de armazenar energia num picolé.
- Frasco de Dewar. Arriscou Cleto. Beto pensou em outra coisa.
- Ciclo de Carnot.
- Sim, se tem algo a ver com movimento de frio e calor, certamente tem algo a ver com o ciclo de Carnot. Pode ser o ponto de partida. Vamos sondar o professor Ventura.
- Primeira pista! – Foi apenas o que disse o Professor Ventura quando interrogado sobre a possibilidade de a solução ter algo a ver com o Ciclo de Carnot.
Para quem não sabe, o frasco de Dewar nada mais é do que a conhecida garrafa térmica. Ela é formada por um frasco duplo hermético de tal forma que entre eles seja feito o vácuo. O frasco interno é espelhado.
Assim, quando colocamos um líquido quente nesse frasco, o calor não pode escapar. Lembrando que temos três formas possíveis para um corpo perder calor: contato, irradiação e convecção, no frasco impedimos as três.
Por contato ele não escapa, pois entre as paredes dos dois frascos existe o vácuo. Por irradiação, também não escapa, pois o frasco interno é espelhado. A radiação reflete.
E, por convecção não é possível, pois o frasco é fechado não podendo se formar correntes de ar que carreguem o calor. Da mesma forma, se colocarmos um líquido frio no frasco, ele se mantém, pois o calor externo não pode entrar.
Mas, voltando ao problema do Prof. Ventura.
- Ciclo de Carnot. Como se enquadra isso na possibilidade de armazenarmos energia num sorvete. Precisamos saber mais sobre isso. Vamos dar uma olhada na internet assim como nos livros de física do ensino médio.
Beto e Cleto partiram para uma pesquisa.
Enquanto isso, na cidade, as notícias sobre os experimentos do Professor Ventura se espalhavam, com gente acrescentando coisas sem fundamento, preocupantes e até alarmantes que se tornavam realidade e se espalhavam.
É a técnica das fakenews, tão odiada em nossos dias e usada como ferramenta de doutrinação ou intimidação por grupos mal intencionados.
Um bom estudo poderia ser feito em Brederópolis para demonstrar como, de uma simples informação correta, sem segundas intenções, pode-se chegar a uma sequência de notícias falsas que até pode comprometer a segurança das pessoas.
E, é claro, nos nossos dias, como não poderia deixar de ocorrer, as notícias também se espalharam pelas redes sociais e isso se tornou um assunto mundial.
Nas redes vídeos foram feitos para mostrar que era possível colocar uma gigantesca placa sensora de frio na Groenlândia ou no Polo Sul e gerar energia derretendo todo o gelo existente. Isso não era muito preocupante. O Preocupante estava no fato de que isso faria com que o gelo derretido elevasse em 15 metros o nível do mar inundando todas as cidades do mundo.
Nova Iorque, por exemplo, teria Manhattan totalmente encoberta pela água até o terceiro andar de seus prédios. Nessa ilha, o ponto mais alto está apenas a 7 metros acima do nível do mar!
- Apavorante!
E muitas outras informações geravam confusão e até tornavam o pacato Prof. Ventura num vilão que deseja destruir a humanidade. O Bill Gates é um exemplo disso.
- Precisamos fazer alguma coisa! – Dizia o prefeito ao presidente da câmara municipal quando soube do assunto. É claro, já bem deformado.
- Ele pretende congelar a cidade para poder tirar energia do gelo que vai se formar. – Era o que dizia o vereador.
- Nossas plantações de limões, fontes de receita para a cidade vão desaparecer. Mudanças climáticas!
É claro que o problema cresceu e, novamente, pelo que se espalhou nas mídias, o professor teria de se manifestar. Não teve saída. Quando o professor soube o que estava acontecendo, decidiu que precisava novamente dar explicações. Uma nova live foi marcada.
Mas, neste ponto da estória, o personagem de sempre, que nada tem a ver com a tecnologia, começava a se envolver em confusões.
Novas ideias sobre gelo, frio e energia trocadas durante o dia todo na barbearia deixaram Epaminondas confuso e com medo.
Como costuma acontecer no meio estudantil, existem os chamados “espíritos de porco” que não perdem a oportunidade para fazer brincadeiras de mau-gosto com quem puderem. Marco e Zeca eram bem conhecidos na escola técnica, por ter feito coisas como colocar sapos nas bolsas das meninas, rapé na mesa dos professores e coisas semelhantes, não raro pegando suspensões e até ameaças de expulsão.
Não iriam deixar de se aproveitar do que estava ocorrendo, já que na disputa anterior não tiveram ideia do que fazer.
Sabendo que Epaminondas sempre se envolvia em problemas com sua tuba e o Prof. Ventura imaginaram uma brincadeira para “mexer” com os brios e certamente a tuba do barbeiro.
Um deles, indo ao barbeiro, sob o pretexto de cortar o cabelo, comentou:
- Vi uma notícia na internet de que pesquisadores russos estariam verificando a possibilidade de ser congelar tubos de metal em forma de cone cheios de gelo agitados por potentes vibradores seriam ligados a eletrodos, de onde poderiam obter energia elétrica.
- Tubos em forma de cone! Minha tuba!
O engraçadinho sorriu. Tinha de mexer com a tuba, mas ele ainda não estava muito certo do que faria em seguida.
- Daria uma ótima fonte de energia. O professor Ventura não conversou ainda com o senhor?
- ?!!!!
A conversa parou por aí, mas o Epaminondas ficou preocupado. Muito preocupado.
- Você se preocupa demais. Foi apenas coincidência! – Acalmava Dona Pafúncia. – Por que não relaxa, assistindo um bom filme depois do jantar?
E foi isso que Epaminondas fez, mas não foi muito feliz no filme escolhido. Epaminondas gostava dos desenhos da Disney e não podia dar outra: Frozen.
Gelo do Professor Ventura, Energia armazenada numa tuba congelada, um mundo totalmente gelado e uma “Bruxa do Inverno” apavorando todos.
Epaminondas sonhou com uma bruxa de longos cabelos azuis cercando-o e querendo arrematar sua tuba para colocar um “feitiço” capaz de congelar o mundo. Ele corria, corria e ela atrás... Acordou gritando e suando...
Sua esposa o acalmou, mas isso não foi suficiente. Carregando sua tuba, lá se foi o músico para a cidade no final da tarde onde tocaria na banda. Não abriu a barbearia nesse dia. Estava muito abalado com o sonho. Poderia machucar algum cliente com a navalha ao fazer a barba.
Mas, era sábado e dia das bruxas, o Halloween, comemorado no dia 31 de outubro, dia da véspera de todos os santos tinha caído justamente nesse sábado.
Se bem que mais comemorado nos países de língua inglesa, havia uma tradição principalmente para as crianças de fazer brincadeiras e até mesmo festas.
E isso ocorreu na escola de Brederópolis, principalmente sob o comando da professora Rosita de ensinava espanhol e que adorava se fantasiar nessa época, pois era originária de país em que se comemorava essa data de forma intensa. Chamada de “Noche de Brujas” a festa foi levada para a Espanha por imigrantes irlandeses e se espalhou depois pelo mundo latino da américa do sul trazida pelas empresas americanas que exploravam o petróleo venezuelano. Até hoje na Venezuela, nas escolas o Halloween é dia de festa e foi isso o que ocorreu em Brederópolis.
A festa correu às mil maravilhas com as crianças se divertindo muito: máscaras, fantasias, esqueletos, fantasmas e a famosa brincadeira “gostosuras ou travessuras” em que as crianças saiam pela cidade pedindo doces de casa em casa. As pessoas sabiam e reservavam algumas balas, pedaços de bolo ou biscoitos para esse dia. É claro que, mesmo que não dessem nada, as travessuras não ocorriam.
Rosita, fantasiada de bruxa com uma enorme peruca azul, chapéu pontudo e óculos proeminentes voltava para casa, carregando uma caixa de gelo a tiracolo com alguns refrigerantes que haviam sobrado. O caminho era justamente o oposto do que fazia Epaminondas.
E, Rosita parecia justamente a Bruxa do Inverno!
O encontro dos dois, numa curva da estrada foi muito interessante, para não dizer apavorante para o pobre Epaminondas!
Justamente no ponto em que a estrada faz uma curva, com um muro que impede que se veja quem vem do outro lado, Rosita se encontrou com o Epaminondas.
Foi nesse momento que, tropeçando num buraco, Rosita fez com que sua caixa de gelo abrisse e lançasse justamente na direção do Epaminondas uma porção de pedras de gelo.
O susto do músico foi imenso. Vendo a “Bruxa do Inverno” atacando-o com pedras de gelo, ele gritou.
- Uaaaaai! – E correu.
Rosita percebeu que tinha assustado o Epaminondas. Tentou correr para acalmá-lo. Mas, mesmo sendo baixinho e carregando uma tuba, quando assustado ninguém seria capaz de alcançá-lo.
Para chegar mais rápido, resolveu cortar caminho por um pasto, mas logo que passou a cerca deu de frente com a Beneplácida, a famosa vaca mais brava de toda a cidade.
Correu ainda mais! E, do outro lado do pasto, ao passar pela cerca de arame farpado fez um enorme rasgo no traseiro de suas calças.
Chegou em casa gritando, ofegante e com as caças rasgadas.
- Socorro, Pafúncia! A “Bruxa do Inverno” está atrás de mim.
Dona Pafúncia que sabia dela pelo sonho do Epaminondas tentou acalmá-lo.
- Calma, foi só um sonho.
- Sonho nada, ela existe! E tentou congelar minha tuba!
Nesse momento, Rosita chegou ofegante à casa do Epaminondas, batendo na porta de entrada. Dona Pafúncia foi atender, pois o músico apavorado correu para o quarto.
Abrindo a porta, viu uma criatura estranha saída de um conto de fadas. Chapéu de bruxa, cabelo azul e enorme óculos. Levou um susto, mas logo se acalmou, pois reconheceu na voz a Rosita, professora de Espanhol da escola local.
- Buenas tardes. Oh! Acho que assustei “seu” Epaminondas. Não deu tempo de falar que era eu, Rosita. Ele correu apavorado. Está tudo bem com ele?
Epaminondas, saindo do quarto meio temeroso, logo percebeu que era a Rosita e dadas as devidas explicações ele se acalmou.
Mas, foi um belo susto, que só serviu para aumentar ainda mais o medo dos experimentos do Professor Ventura.
Enquanto isso, Beto e Cleto, procuravam a solução nos livros de física e artigos da internet.
- Aqui está “Ciclo de Carnot”. Diz o seguinte: O ciclo de Carnot pode ser descrito pelas seguintes etapas. Beto leu o texto da Internet.
- Não entendi! – Cleto tinha dúvidas.
- Simples. Onde a movimentação de calor de ponto mais quente para um ponto mais frio pode-se obter energia. Assim funcionam as máquinas a vapor. Foi pela compreensão desse princípio que James Watt pode aperfeiçoar a máquina a vapor e Fulton fez a primeira locomotiva. – Explicou Beto
Cleto entendeu, mas não percebeu como isso poderia ser aplicado a um sorvete, ou ao gelo da Groenlândia, pois parecia contrariar esse princípio.
- Mas, um sorvete está mais frio que o meio ambiente, portanto ele não pode fornecer calor.
- Realmente. O calor, que é energia, só pode ser movimentar do mais quente para o mais frio e não ao contrário. O sorvete está frio e o calor que ele contém ainda, pois está acima do zero absoluto, só pode fluir para um corpo que esteja mais frio que ele.
Beto sabia que as leis da natureza não podem ser alteradas pelo homem.
- Entendi. Talvez o professor tenha na cabeça algo que não percebemos neste princípio. Ele sabe que as leis da física não podem ser violadas.
Resolveram fazer uma visita ao professor para ver se conseguiriam “descobrir alguma coisa”. Encontraram o mestre trabalhando na sua bancada com um dispositivo branco sobre um dissipador de calor e um multímetro.
O professor levou um susto quando os dois entraram, procurando logo esconder os componentes. Beto e Cleto se entreolharam. O professor tinha a solução do problema e ela estava naqueles componentes. Restavam ainda alguns dias para apresentar a solução, mas o problema havia crescido e, na verdade, o professor teria de mostrar a solução numa live.
O problema havia se espalhado de tal forma, e as confusões do Epaminondas, o burburinho que corria pela cidade e pelas redes sociais, exigia que ele desse uma explicação convincente e ao vivo. O mundo estava com medo!
Beto foi quem perguntou primeiro ao professor.
- Já tem a solução, professor. Nós ainda não. Sabemos que tem algo a ver com o ciclo de Carnot, mas também sabemos que ele não pode ser “invertido”.
Cleto deu prosseguimento.
- A não ser que o senhor tenha conseguido inverter o tempo quântico do sorvete e com isso fazer o calor se tornar negativo, fluindo do mais frio para o mais quente.
O professor sorriu.
- Hoje em dia, tudo que não se pode explicar na física, atribui-se à física quântica. É normal. Vemos tantas besteiras nas redes sociais sobre o assunto, que no dia que falarem algo sério, ninguém vai acreditar.
Fez uma passa, e prosseguiu:
- Não vou violar nenhuma lei da física e já tenho tudo pronto para a live, inclusive com um experimento prático. Vou acionar um motor elétrico com uma pedra de gelo e depois pretendo montar um carregador para o meu celular que vai funcionar com um sorvete.
Beto e Cleto não sabiam se sorriam por estarem incrédulos, ou ficavam sérios por concordarem.
O grande dia chegou. Não se comentava outra coisa na cidade e nas redes sociais. Epaminondas não saiu de casa, assustado com a possibilidade de ser arrebatado com sua tuba por algum “campo quântico” para um mundo gelado onde a bruxa do frio lhe congelasse.
Chegaram ao laboratório com a câmera de vídeo e luminárias, prontos para ouvir as explicações do professor ventura. Ele tinha preparado um pen drive com algumas imagens que pediu para Beto preparar na live, na medida que fosse solicitando.
Também pediu para conectar uma segunda câmera que focalizaria durante a live sua bancada, onde faria o experimento citado no dia anterior. Beto se encarregaria de trocar as imagens e os slides à medida que a live transcorresse. Tudo de uma maneira profissional. Usaria o canal do Youtube para que tudo ficasse gravado.
O professor tinha preparado um cenário com alguns componentes eletrônicos e um multímetro.
A apresentação começou exatamente no horário combinado. O anúncio nas redes tinha trazido uma enorme quantidade de inscritos que já apareciam no lado da tela de monitoramento com seus comentários. A tela principal estava compartilhada com o Professor Ventura e Beto que atuaria como apresentador. A “live” ficaria gravada no Youtube para quem desejasse vê-la depois.
- Boa tarde a todos. Conforme prometido, o Prof. Ventura nos brindará com uma apresentação técnica em que mostrará como é possível armazenar energia no gelo. Para os que não sabem, essa apresentação é produto de uma aposta em que o professor fez, dizendo que seria possível gerar energia a partir de um picolé. Com vocês, o Prof. Ventura, da Escola Técnica de Brederópolis.
De avental branco, ao lado da bancada, o professor iniciou sua apresentação.
- Boa tarde a todos. Na minha apresentação teremos uma série de slides que colocaremos no seu vídeo à medida que as explicações forem dadas. Alguns deles, para maior entendimento, até serão animações.
Ele fez uma pausa. Pretendia dar uma aula de física até recomendando que as pessoas que tivessem dúvidas consultassem seus velhos livros do ensino médio.
- Conforme vocês sabem da física, calor representa uma forma de energia. Energia contida na agitação das partículas de um corpo que se reflete em sua temperatura. Dois corpos podem de mesmas dimensões e mesmo material terão a mesma quantidade de energia armazenada na forma de calor, se estiverem na mesma temperatura.
- No entanto, dois corpos de dimensões e materiais diferentes, na mesma temperatura, podem conter energia térmicas armazenadas diferentes, ou seja, quantidade de calorias. Medimos a quantidade de energia térmica em calorias (Cal).
- A tendência na natureza é de que os corpos tenham suas temperaturas equilibradas. Assim, se colocarmos em contato um corpo mais quente com um mais frio, a agitação térmica das partículas do mais quente se transferirá para as do mais frio até que fiquem iguais, e com isso os corpos fiquem na mesma temperatura. Desta forma, o calor só pode passar do que tem mais energia ara o que tem menos, de forma natural. O calor sempre passa do corpo mais quente para o mais frio.
Depois de pequena pause o professor continuou.
- Foi entendendo o modo como essa passagem de calor de um corpo para outro que Carnot desenvolveu uma teoria, conhecida pelo Ciclo de Carnot e que depois, através de James Watts permitiu o aperfeiçoamento das máquinas a vapor e levou a criação da locomotiva a vapor.
- Ciclo de Carnot! – Comentou Beto. – Sabia que tinha algo a ver.
O professor continuou:
- Em suma, para termos energia de um corpo aquecido, é preciso que ele tenha um modo dele transferir essa energia para um corpo mais frio. No processo, podemos aproveitar parte dessa energia, Carnot nos diz que não podemos aproveitar 100%, para obter força mecânica, movimento ou... – Ele fez uma pausa:
- Eletricidade.
Olhando sério para a câmera, ele chegou ao ponto crítico.
- Sim. Agora vocês me perguntam: como obter energia de uma pedra de gelo, se ela está mais fria que o meio ambiente. Ela não tem como passar calor para ele, a não ser para um corpo mais frio.
Chegava-se então a um ponto em que muita gente não interpreta corretamente:
- Mas podemos fazer o inverso. Um corpo frio, representa uma reserva de energia “negativa”, pois corpos mais quentes podem passar para ele sua energia. Assim, o meio ambiente tem 0 de energia, pois todos os corpos que estão nele estão a mesma temperatura. Mas, os corpos mais frios, como uma pedra de gelo, representam uma reserva negativa de energia.
Uma nova pausa:
- Assim, se conseguirmos colher o calor que flui do meio ambiente para uma pedra de gelo, ao derretê-la, podemos usar esse fluxo para gerar energia. Energia que, no fundo, está armazenada na pedra na forma negativa (ou seja, faltando) e que pode ser convertida em eletricidade.
Muita gente não entendeu as explicações do professor. Ele sabia disso, e por isso criou um experimento. Indo à bancada, pegou um pequeno componente que explicou o que era:
- Isso é um transdutor de efeito Peltier. Vou explicar melhor.
Colocando-o sobre um dissipador de calor, o professor usou um slide para mostrar como ele funcionava.
- Descobriu-se que se tivermos uma junção semicondutora, um diodo, por exemplo, ao passarmos uma corrente elétrica, a energia dispendida no processo “carrega” o calor de um material para outro, P para N, por exemplo. Com isso, uma face do material esfria e a outra esquenta. O dispositivo assim formado, denominado de “efeito Peltier” pode transportar calor de uma face a outra. Um lado esquenta e o outro gela.
O professor mostrou uma aplicação para o dispositivo num slide:
- Podemos ter então “geladeiras” simples, em que colocamos um dispositivo desse tipo e, ao ligarmos a alimentação, ele gela no interior, passando o calor para o lado de fora. Geladeiras pequenas usadas em carros funcionam deste modo.
Uma nova pausa:
- Mas, o que nos interessa é que ele também funciona ao contrário! Se as suas faces estiverem em temperaturas diferentes, e o calor puder fluir entre elas, energia elétrica é gerada. Uma pequena tensão aparece nos terminais do dispositivo. Em outras palavras, podemos gerar energia elétrica a partir da diferença de temperatura entre dois corpos, usando este dispositivo ou qualquer outro que tenha uma junção semicondutora.
Mas, o que interessava ainda estava por vir. E o gelo? E o sorvete?
- Mas, e o gelo? Como fica? Não pode fornecer calor, certo? Mas, pode receber e de onde? Do meio ambiente.
Indo ao seu transdutor, ele o ligou a um multímetro, explicando:
- Vou ligar este multímetro ao dispositivo Peltier para indicar a energia elétrica que está sendo produzida pelo gelo através do dispositivo de conversão. Vou então colocar o dispositivo sobre um radiador de calor... – Pausa – Não, não vou dissipar o frio. O que vai ocorrer é que, quando eu colocar uma pedra de gelo sobre o dispositivo e a outra face estando sobre o dissipador, imediatamente o calor vai começar a fluir do lado mais quente, o dissipador, para o lado mais frio, onde está o gelo. Esse fluxo de calor gerará energia elétrica. Vejam!
- O professor colocou então a imagem da câmera que apontava para abancada.
E, foi o que ocorreu. No momento em que o Professor Ventura colocou a pequena pedra de gelo no seu dispositivo de 1,2 V, imediatamente a agulha do multímetro saltou e indicou mais de 200 mA.
- O fluxo de calor do meio ambiente para a pedra de gelo está gerando energia.
De onde vem essa energia? Na realidade, é energia armazenada na forma negativa na pedra de gelo. Energia que eu usei para gelá-la quando água foi colocada no meu congelador.
- Para cada grama de água que eu passo de 0 grau no estado líquido para 0 grau no estado sólido eu preciso de 80 calorias. É o que se denomina calor latente. 80 calorias significam 334 Joules ou convertido em energia elétrica 334 watts por segundo.
Com mais matemática o professor prosseguiu:
- Uma simples pedrinha de gelo de 10 gramas tem 3340 Joules disponível, ou se totalmente aproveitada esta energia, pode fornecer o suficiente para alimentar uma lâmpada de 10 W por 334 segundos ou mais de 5 minutos!
Percebendo que está indo longe demais com a matemática ele mudou um pouco de assunto:
- Sim, energia na forma negativa, ou seja, “falta energia” para derreter o gelo, a qual deve ser entregue pelo meio ambiente. Obtivemos esta energia pela nossa geladeira que a retirou da pedra. Percebam então por que a geladeira é um eletrodoméstico gastão. Quantos watts de energia para fazer gelo, e tudo fica armazenado nele.
Mas, um experimento final.
- Vou ligar esse pequeno motor ao meu dispositivo de conversão de energia e colocar esse pequeno picolé de limão sobre ele e vocês verão.
O experimento foi feito. Ao apoia o picolé sobre o dispositivo com o motor ligado a ele, imediatamente ele começou a girar movimentando a pequena hélice.
- Convertendo em eletricidade a energia armazenada no picolé! – O professor completou a demonstração sendo aplaudido pelos que estavam na sala.
Mais uma vez encontramos o Professor Ventura, Beto e Cleto, tomando sorvete na sorveteria do Carlinhos e, é claro, um picolé apoiado num dispositivo Peltier. com dois fios ligados a um pequeno inversor, carregando um celular.
- Quase fomos enganados desta vez. Certamente, basta pegar os princípios da física e trabalhar com eles sob um ponto de vista não convencional. – Falava Beto.
- Sim, já percebemos que coisas que podem parecer impossíveis ou contrariar os princípios da física, na realidade podem ser viáveis, dependendo da correta interpretação.
O professor Ventura dava razão aos rapazes.
- Veja que esse é um dos problemas que temos hoje em dia para criar coisas novas. Estamos tão apegados ao que conhecemos que não conseguimos visualizar coisas que não sejam convencionais. É a velha ideia do ovo de Colombo. Isso ainda ocorre.
Beto estava pensativo:
- Como poderíamos ensinar já nas escolas a trabalhar com a imaginação no sentido de podermos fugir as limitações que os conhecimentos convencionais nos são passados?
O professor Ventura sabia como:
- Heurística.
- ?
- Está bem, eu explico. A Heurística é um ramo da filosofia muito importante. Também chamada por alguns de “A ciência do pensamento criador”. Ela ensina como tratar a informação de modo a tirar dela coisas novas e coisas que realmente nos interessam na resolução de um problema. Beto usou a Heurística para resolver o problema de armazenar energia no sorvete.
Beto sorriu. O professor continuou.
- Vejam bem. Hoje somos bombardeados com uma quantidade de informações tão grande que não conseguimos processar se quisermos o que usar para resolver um problema.
- Digite “frio” e “armazenar energia” no Google e você terá centenas de milhares de documentos. Quais deles são relevantes para resolver o problema? A Heurística, ensina justamente isso: como escolher as informações relevantes para a resolução de um problema. Às vezes nos debatemos inutilmente sobre informações que não tem relevância alguma para resolução de nosso problema e até podem nos levar à conclusões erradas.
- Isso mesmo. Pensamos inicialmente apenas no fluxo de calor do mais quente para o meio ambiente e não do meio ambiente para o mais frio. E, justamente no inverso estava aí a solução.
- Fico imaginando a possibilidade de termos pequenos geradores em caixas de transporte de refrigerantes que produziriam a eletricidade para carregar um celular ou um aparelho de som num churrasco em local sem luz. – Cleto jogava com a imaginação.
- E, mais que isso. Nos países fios, poderiam ser usado o gelo formado na piscina no inverno para gerar energia para uma casa ao derreter na primavera.
Cleto começo a rir. Tinha imaginado uma aplicação cômica.
- Vestíveis. Fico imaginando a Gedeane, nossa amiga especialista em wearables, criando um chapéu com um transdutor desse que, em contato com alguém de “cabeça fresca” geraria energia para o celular.
Todos riram. Mas. o professor Ventura olhando o sorvete derretendo sobre o carregador, repentinamente totalmente inesperado.
- Se podemos armazenar energia num buraco, no frio por que não na escuridão?
- Essa não! Escuridão é falta de tudo. Falta luz, falta energia! Só falta querer fazer uma aposta. – comentou Cleto
Não deu tempo de Beto falar alguma coisa. Olhando para os dois, o professor Ventura exclamou:
- Aposta Feita!
Não vamos dizer como é possível armazenar energia na escuridão. Isso vai ficar para a terceira estória desta série.















