Esta é uma estória que envolve dois outros personagens, que não são Beto e Cleto e que criei em 1965, mas que foi atualizada para que eles substituíssem os originais. Sempre gostei de escrever, e as estórias de ficção me despertavam especial interesse. Na revista americana Popular Electronics havia dois personagens que protagonizavam aventuras no mundo da eletrônica desde 1948 e eu os acompanhava desde o início de minha carreira. Suas estórias é que me deram inspiração para criar depois de muitos anos o Prof. Ventura, Beto e Cleto. Escrevi diversas estórias com Juca e Chico que eram dos nomes da versão brasileira já que John T. Frye, o criador americano tinha como personagem Carl e Jerry, dois técnicos de TV. A que apresento é de 1965, mas tenho algumas de até antes e que agora recupero. A estória aqui reproduzo, inspirada na série original e usando os nomes dos personagens traduzidos na época pela versão brasileira, Juca e Chico, foram transferidos para os nossos bem conhecidos Beto e Cleto. Ela é uma verdadeira aula de eletrônica e eletricidade mostrando que eu já sabia como fazer muitas coisas que só depois com a série McGyver se tornaram populares. O prof. Ventura não aparece nesta estória que lembra a tecnologia da época que saiu com o nome “A adivinhação do pensamento”. A data é 18 de agosto de 1965.


 

🔍 Não era um dia como os outros para Beto e Cleto. Os dois amigos de projetos, companheiros de escola e de confusões, estavam preocupados e não se tratava de nenhuma encrenca com a vizinhança ou a polícia.

Cleto, impedido pela gordura, permanecia sentado enquanto Beto caminhava pelo porão de um lado a outro, imaginando um número para a festa de encerramento do ano letivo na escola em que estudavam.

- Temos de apresentar algo de “arrasar”! Você sabe que há uma certa rivalidade entre as turmas dos que vão para a área de ciências humanas, ciências exatas e biológicas (*).

É isso mesmo. – Concluiu Cleto – E eu aposto como o Zeca vai fazer um discurso exaltando a nobre carreira dos que defendem a justiça...”

- O Pedroca não poderá deixar de fazer uma defesa da habilidade de quem faz operações cirúrgicas, e isso no microfone... – interferiu Beto – O bisturi, a anestesia, .... Iaaau! E lá se vai mais um comer capim pela raiz....

- Sem poder evitar o riso, Cleto agitou suas banhas que entraram num MHS de baixa frequência.

Isso sem se falar nos tradicionais números de canto, instrumentais e dança clássica que sempre eram apresentados pelos alunos mais habilidosos.

Mas, Cleto lembrou que tinham o problema:

- E nós. O que faremos?

Beto continuou pensando, mas eis que repentinamente, uma luz o iluminou, com as características letras pintadas dos desenhos animados e das estórias em quadrinho: IDEIA! Com um pulo e um grito, assustou o amido que estava quase cochilando.

- Eureka! ... Tenho uma ideia para um número de abafar.

- Vamos! Diga logo meu caro Aristóteles. Qual é o plano?

- Nós vamos fazer um número de adivinhação do pensamento. – explicou Beto

- Telepatia? Mas como? Não tenho vocação para “mago”. – Interrompeu Cleto

Cleto resolveu então explicar melhor sua ideia:

- Ora, não há problema. Faremos um troque com base na eletrônica, que é justamente o nosso forte.

- Muito bem! – Cleto ainda não estava muito certo do que seria possível – Mas, como vai funcionar a coisa?

- Simples. Venha cá que eu explico melhor...

Cleo levantou-se com dificuldade, e sonolento acompanhou o amigo até um quadro negro sobre o qual Beto começou a rabiscar um diagrama, explicando então:

 

- Aqui, no palco, fica você sentado numa cadeira com os olhos vendados. Você será meu assistente. Mas, aí entra o detalhe eletrônico. Você levará no bolso um receptor miniatura com um fone (**), e quando eu vendar seus olhos, terei o cuidado de pôr de baixo do pano, o fone de ouvido. Terei o cuidado para que o fio fique oculto.

 

- Já começo a entender. – disse Cleto, que então continuou:

- Você ficará com um pequeno transmissor de telegrafia no bolso. Assim, você irá transmitir o “pensamento” ou pergunta das pessoas feitas num quadro, indo diretamente à plateia!

- Isso, colega. Eu mando a pessoa escrever um número ou uma palavra e lhe “telegrafo”, e você com os olhos vendados conseguirá repetir o que foi grafado no quadro.

Logo em seguida, começaram a montagem do equipamento. Beto encarregou-se do transmissor ao mesmo tempo em que Cleto preparava o receptor. Acostumados ao trabalho de bancada, não demoraram muito para ter todo o equipamento pronto.

Beto montou o transmissor do seguinte modo:

 

- Usou um transistor para oscilar controlando a frequência por um cristal de 1,6 MHz. Escolheu essa frequência para poder usar um radinho comum OM (***) com receptor, sintonizado no extremo superior da faixa, onde não havia nenhuma estação operando.

 

Além disso, ele acrescentou uma etapa amplificadora para obter mais potente e um circuito para modular em amplitude o sinal de áudio vindo de oscilador separado. Com a etapa de potência, conseguiram nos testes um alcance da ordem de 60 metros, mais do que o dobro do comprimento do anfiteatro da escola.

Cleto, por sua vez, apenas adaptou o receptor, colocando-lhe um pequeno jaque, pois o radinho usado não tinha saída para fone.

Não foi difícil convencer o diretor do espetáculo a colocá-los no show. O responsável ficou pasmado ao assistir à demonstração que fizeram com as portas fechadas. Beto e Cleto não se surpreenderam coma reação do professor responsável pelo espetáculo. Sendo da área de humanas, ele tinha um conhecimento bastante limitado sobre tecnologia.

Além disso, muitos dos entendidos na “magia” da transmissão do pensamento, não acreditavam na possibilidade de transmissão sem o truque da utilização de frases ou palavras decoradas. Por exemplo: O que é isso? (relógio), O que eu tenho não mão (Caneta). Isso é o que? (lenço), e assim por diante. Um vocabulário de frases era decorado pelos parceiros e assim, a adivinhação era feita.

Os que sabiam desse truque e assistiram o ensaio foram os que mais se admiraram com as perguntas de Juca, principalmente quando ele pegou um objeto que de maneira alguma alguém mostraria num teatro teatral. O dito faria um papel secundário numa cena humorística, contracenando com um par de chinelos sob uma cama. Ao ser perguntado, Cleto soletrou o nome do objeto: P-E-N-I-C-O.

Tudo ficou preparado para a festa de encerramento, e para os que tinham visto o ensaio dos dois amigos, eles certamente fariam sucesso.

O show começou às 19:00, mas bem antes, depois do meio dia já havia estudantes na escola preparando o palco. Beto e Cleto, como todos que iriam participar, estavam nervosos, e não era para menos. Além do diretor, homem de fazer as árvores saírem do lugar para lhe dar passagem, viria o inspetor geral, além de algumas figuras importantes da cidade.

Às 19 horas, o show começou com o ímpeto característico. Depois do discurso do diretor, houve a entrega dos prêmios aos alunos que se destacaram no ano. Depois, o show. A plateia estava gostando.

Cleto, ostentava um enorme turbante, tendo ao centro um vistoso brilhante de plástico. Quando chegou o momento de se apresentarem, ele cutucou o amigo, alertando-o com um desajeitado sotaque oriental:

- Chegou a horra professorrrr.

Beto colocou seu turbante, mas não pode esconder um tremorzinho traduzido por uma oscilação de baixa frequência das pernas, que ameaçavam envergar-se.

O animador do show, com um pouco de sensacionalismo, anunciou o número:

- E agora teremos, numa demonstração única no mundo, um número de verdadeira telepatia, feito pelo “professor” Beto e seu assistente Cleto.

Beto e Cleo entraram no palco timidamente, e diante dos aplausos cumprimentaram a plateia. Cleto parecia um velho e gordo sultão. O equipamento eletrônico estava funcionando.

Cleto se acomodou na cadeira, e conforme o combinado, teve os olhos vendados. Beto pediu silêncio para a concentração, e fingindo hipnotizar o parceiro, despertando mais curiosidade da plateia.

Beto começou o número com alguns objetos simples, tais como relógios, lenços, cor de uma roupa etc.

Cleto, imperturbável respondia tudo corretamente. Felizmente, ninguém reparou que o “professor” constantemente levava uma das mãos ao bolso.

Chegou então a hora mais difícil do número. Tomando um quadro negro, levou-o à plateia e pediu para alguém escrever um número de 3 algarismos. Depois, dando sequência, pediu para alguém escrever mais 3 algarismos, e finalmente uma última pessoa mais 4, formando assim um número enorme de 10 algarismos: 1835703185!

Um burburinho tomou conta da plateia. Ele jamais vai repetir esse número de olhos vendados. Beto pediu silêncio e concentração para o assistente. O diretor, observava a expressão de pasmo de todos.

- Qual é o primeiro algarismo deste número? – Perguntou Beto mostrando o quadro para a plateia.

Cleto não respondeu de imediato, simulando uma concentração maior.

- Um!

- Qual é o segundo algarismo?

- Oito!

Beto teve de pedir silêncio. Os rumores perturbavam a concentração. Quando, finalmente Cleto acertou o último algarismo, a plateia rompeu-se em um enorme aplauso.

Beto subiu ao palco, e tirando as vendas do assistente que se levantou, foram em direção a plateia onde cumprimentaram a todos e saíram sob forte aplauso. Sucesso.

Com uma risadinha íntima, os dois se cumprimentaram, principalmente sabendo que depois os professores exigiriam explicações sobre como tinham feito aquilo. Prometeram que não falariam a verdade.

 

Artigo publicado em 1965

 

(*) Na época em que o artigo foi escrito, estava no colégio, e naquela época as turmas do ensino médio eram divididas segundo a área que seguiriam no curso superior: engenharia, medicina, direito, letras etc.

(**) O artigo foi escrito numa época em que ainda não existia o telefone celular.

(***) Naquela época os radinhos FM de bolso ainda eram pouco comuns.

 

 

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