Você já imaginou se um ser de outro planeta viesse à terra nos visitar? Como seria ele? Sim; essa é a pergunta que de há muito se procura responder. Como serão os habitantes de outros planetas, se existirem?
Nota: artigo de 1966 (*)
A imaginação não tem limites, e é por isso que vemos as mais variadas formas com que são representados, verdadeiros monstros do nosso desconhecimento.
Homenzinhos verdes de narizes esféricos, ou criaturas fosforescentes de um olho só, são pintados pelos artistas que procuram ter uma visão de um mundo que não seja o nosso. A verdade é que todas as formas com que eles têm sido pintados, não têm fundamento científico; o que fala é um excesso de diferenciação.
Por que os seres de outros planetas têm de ser tão diferentes? Em que se baseiam os artistas para acharem que assim seja? Na verdade, quando procuramos representar algo desconhecido, temos que nos basear nos elementos conhecidos, mas é claro, não da maneira que se tem feito.
Vejam por exemplo o caso daquele que por achar que, Júpiter, tendo uma atmosfera muito espessa, e tendo massa grande, os possíveis seres aí existentes deveriam ser chatos! "O ar os apertaria contra o chão" dizia ele, esquecendo-se da possibilidade da pressão interna do ser, poder equilibrar a externa.
Tal afirmativa é tão ilógica como se nós procurássemos dizer que os habitantes das zonas baixas da terra tivessem a cabeça ligeiramente achatada! Um outro caso é o dos que acham que os possíveis habitantes de Saturno deviam ter anéis em torno de suas cabeças assim como o planeta.
Ora, se assim fosse, nós terrestres, deveríamos ter em torno das nossas cabeças uma lua, ou ainda um aglomeradozinho de nuvens! Andaríamos todos "de cabeças nas nuvens..."
Qual seria então, a maneira correta de nos basearmos em fatos conhecidos para podermos tentar representar esses possíveis seres? Biologia, química e física, são ciências que seguem leis que são iguais em qualquer parte do universo.
As leis da biologia que regem o aparecimento de uma vida, são iguais em qualquer planeta. Se um planeta tiver condições de vida, os compostos orgânicos que aí surgirem deverão ser obrigatoriamente de carbono. Muitos acham que o composto orgânico de um planeta, deverá ter como base, o elemento mais comum no mesmo; assim se num determinado planeta, o elemento mais abundante for o nitrogênio, todos os compostos orgânicos desse planeta, serão de nitrogênio.
Isso, porém, é falso, pois se assim fosse, os compostos orgânicos da terra seriam de silício, e não de carbono, já que o silício é o elemento mais abundante na terra. Para que exista vida num planeta, a atmosfera deste, deverá ter um gás, que não seja inerte quimicamente.
A temperatura deverá ser uniforme, ou pelo menos ter variações pequenas causadas por um movimento de rotação do astro. Infelizmente ainda não vimos seres de outros planetas, mesmo os mais inferiores que sabemos existir. Teremos que esperar muito ainda, para tomarmos contato com eles, pois o nosso atual estado evolutivo assim o exige.
(*) Escrevi este artigo em 1966 com base nos conhecimentos científicos da época. Assim, eventuais imprecisões de conceitos refletem apenas o que se conhecia de astronomia naquele momento
A ortografia foi mantida com diversas palavras com acentuação e grafia diferente das que usamos hoje. A imagem de abertura e o comentário final foram feitos com ajuda da IA.
Comentário:
Este é um artigo de real interesse que revela uma maturidade científica impressionante para a época em que foi escrito, em 26 de abril de 1966. Mesmo mantendo a ortografia original da década de 60, a essência do texto antecipa discussões que continuam extremamente atuais na astrobiologia moderna.
Podemos destacar os seguintes pontos sobre a publicação:
Crítica ao Antropocentrismo e ao Exagero Artístico: O texto analisa de forma muito perspicaz como a ficção científica e os artistas da época tendiam a criar "verdadeiros monstros" baseados no puro desconhecimento ou em conceitos literais e ingênuos — como imaginar que habitantes de Júpiter seriam achatados pela pressão ou que os de Saturno teriam anéis na cabeça. A ilustração, mesmo gerada por IA, traduz perfeitamente esse espírito ingênuo e divertido das representações espaciais dos anos 60.
Rigores da Bioquímica Universal: O argumento de que a vida extraterrestre deve se basear no carbono é cientificamente sólido. A contestação de que a vida deveria ser baseada no elemento mais abundante do planeta (derrubada pelo exemplo do silício na Terra) demonstra um excelente domínio de química e biologia comparada. Até hoje, o carbono continua sendo considerado o tijolo fundamental mais provável para a vida devido à sua capacidade única de formar cadeias complexas estáveis.
Leis Universais da Ciência: A afirmação de que a física, a química e a biologia seguem as mesmas leis em qualquer parte do universo é a base de toda a busca atual por exoplanetas habitáveis. O artigo define critérios precisos que os astrônomos buscam ainda hoje: atmosferas com gases quimicamente ativos e estabilidade térmica.
Visão Filosófica e Evolutiva: O encerramento traz uma reflexão profunda sobre o nosso próprio estado evolutivo como barreira para o contato com outras civilizações, sugerindo que a busca por vida no universo é tanto uma jornada de avanço tecnológico quanto de amadurecimento como espécie.
Trata-se de um belíssimo registro histórico que mostra como a divulgação científica de qualidade, mesmo há 60 anos, já buscava separar a fantasia da real probabilidade científica.
O texto é encerrado com a assinatura manuscrita característica: Newton de C. Braga.
O documento está datado exatamente em 26 de abril de 1966 (26-4-1966).
















