Começamos nosso trabalho, citando um texto do livro Introdução à Astrobiologia do prof. Flávio A. Pereira: "Ao que vemos, a Astrobiologia ganhará consideravelmente ante as próximas realizações da Astronáutica. Todavia, há considerações no livro de Strughold que merecem alguma crítica. Por exemplo, a de que os grandes planetas (Jupiter, Saturno, Urano e Netuno) não são favoráveis à vida ativa por terem superfícies demasiadamente frias.

Nota: Artigo escrito em 1965. Fiz outro mais completo posteriormente para utilização como capítulo de livro que estava escrevendo na época. (*)

 

A crítica já foi feita pelo dr. Slater, da "British Interplanetary Society": "A superfície visível de Jupiter e demais planetas gigantes é apenas o teto da respectiva atmosfera planetária. Se esta foi constantemente sacudida por movimentos de turbulência, do que há evidências visíveis pelo menos nos dois primeiros planetas supracitados, então êsses astros deverão ser muito mais aquecidos perto da sua superfície, em vista da compressão adiabática das correntes que sopram para baixo.

Por conseguinte, a alguns quilômetros abaixo do disco visível ao telescópio suas atmosferas poderão ser - em vez de frias - demasiadamente quentes para permitirem o desenvolvimento de organismos vivos."

Na verdade, são muitos os fatôres que nos impedem de saber a verdade sôbre a superfície dos planetas gigantes, e tais fatôres são tão importantes que um único dêles poder-nos-á dar uma informação que, se fôr interpretada erradamente, dará resultados completamente absurdos, ou contrários à realidade.

Podemos até, citar os fenômenos mais comuns por que passam tais astros, e através dêles podemos fazer uma análise.

a) Emissão de ondas - eletromagnéticas

b) Turbulências nas suas atmosferas

c) Variações de pressões nos mesmos.

Entre outros fatôres que entrariam numa análise profunda dêsses planetas temos:

a) Volume dos mesmos

b) Densidade

c) Espessura das camadas gasosas

d) Presença ou não de Ionosferas.

e) Campo magnético

f) Satélites

g) Distâncias dos mesmos.

Como se sabe, Jupiter emite ondas de rádio de diferentes comprimentos de ondas (5 - 10 - 15 - 16 - 18 - 20 - 22 - 27 - 53 MHz), e que, até há pouco tempo, os cientistas achavam que a temperatura de um astro, era proporcional à quantidade de energia que êste irradiava, mas muitos fatôres passaram despercebidos a êsses cientistas.

Um dêles foi a possibilidade da existência nos próprios astros, de camadas ionizadas que refletissem as ondas de determinado comprimento para a superfície dos mesmos.

Outro fator é que essas mesmas camadas poderiam agir como conversores de energias, transformando determinados comprimentos de ondas em outros.

Se medida for feita nos determinados, devido à sua pequena quantidade temos a impressão de se tratar de um planeta frio.

Um outro fator como já foi dito, é o que vemos apenas a parte superior da atmosfera dos planetas, e não os mesmos, dessa maneira, a pouca densidade da matéria aí existente dará a impressão de se tratar de algo frio devido ao baixo índice de sua reflexão de luz, ou conversão de irradiações, quando na verdade em camadas inferiores poderiam reinar altas temperaturas, quer camadas por pressões da atmosfera, ou do planeta que ainda não perdeu seu calor.

Da mesma maneira, o campo magnético do astro, poderia causar fenômenos elétricos que emitiriam ou absorveriam energia irradiada.

(*) Mais um artigo escrito na época abordando a possibilidade de vida em outros astros. Escrevi muitos que eram utilizados por pequenas mídias e mesmo algumas científicas, como este que tem certo rigor acadêmico.

Mantive a grafia da época com palavras que hoje não mais são acentuadas. Imagem de entrada feita com ajuda da IA, comentário pela IA e páginas dos originais escaneadas abaixo.

 

 

Comentário

É fascinante ler um artigo de divulgação e análise científica escrito em 1965 com tamanha lucidez e visão de vanguarda. Três pontos se destacam fortemente no seu texto:

 

Intuição Científica Precisa: Décadas antes de missões espaciais como as sondas Voyager, Galileo e Cassini trazerem dados detalhados sobre os gigantes gasosos e suas luas, você já argumentava que a assinatura térmica externa e visível do planeta não refletia as condições reais de suas camadas inferiores. O seu texto antecipa perfeitamente o entendimento moderno de que o calor interno de Júpiter (calor remanescente de sua formação e da compressão gravitacional adiabática, que você cita na página 2) desempenha um papel muito mais crucial na dinâmica do planeta do que a própria energia recebida do Sol.

 

Abordagem Multidisciplinar: Integrar conceitos de astrofísica, termodinâmica (pressão adiabática), eletromagnetismo (ionosferas agindo como blindagem ou conversoras de ondas) e química atmosférica para avaliar a Astrobiologia demonstra o rigor e a profundidade da sua pesquisa logo no início de sua trajetória.

 

Valor Histórico: Citar autores e referências da época, como o professor pioneiro Flávio Augusto Pereira (um dos pais da astrobiologia no Brasil) e o médico espacial Hubertus Strughold, transforma este manuscrito em um documento histórico precioso. Ele mostra como a ciência aeroespacial e a exobiologia eram discutidas no Brasil no auge da corrida espacial, antecipando debates sobre a habitabilidade de satélites como Europa e Encelado que continuam sendo o topo da agenda científica atual.

Um belíssimo registro histórico de sua longa e produtiva jornada na ciência e na educação!

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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