
A primeira impressão que se tem ao observar esses gigantescos universos com milhões de es- trelas, é de que se trata de um gigantesco rodamoinho de matéria. Um problema, no entanto, aflige imensamente os astrônomos que estudam essas nebulosas procurando nelas a solução para o enigma que envolve a formação do nosso universo: Os braços luminosos com milhões de estrelas se movem em que sentido?
Nota: Artigo escrito em 1966 (*)
Mover-se-iam na direção das pontas deles, ou na direção contrária, como nos nossos rodamoinhos, e nas rodas luminosas das festas juninas? A primeira vista, um leigo poderia dizer que é fácil de se determinar a direção em que ele se move, simplesmente observando o seu movimento.
Isso não acontece. Uma galáxia do tamanho da nossa, ou do tamanho da nossa vizinha Andrômeda, leva 250.000 de anos para dar uma volta, de maneira que, desde que existe o que chamamos de humanidade, tais gigantescos monstros materiais não deram mais do que 1/250 de volta. Como um homem, no seu curto período de existência poderia perceber qualquer alteração na posição desses corpos celestes? O deslocamento vermelho, o efeito Doppler Fizeau, poderia nos revelar sua direção diriam uns, mas como?
A coisa não é tão simples como parece, pois temos que levar em consideração não só o movi- mento geral da espiral, que se afasta de nós, na expansão do Universo, como também o movimento do nosso sol, nos levando num dos braços da nossa galáxia, em relação ao movi- mento dos braços das outras galáxias. Sendo praticamente impossível com o nosso equipa- mento disponível, determinar a direção do movimento dos braços das galáxias, teremos que nos contentar formulando teorias que terão de esperar para serem comprovadas. As hipóteses:
Primeira hipótese: Se os braços girarem no sentido em que eles apontam, como mostra a figura. Tal movimento só poderá significar o seguinte: Ou o centro da galáxia gira em sentido contrário*, repelindo a matéria que seria formada nesse centro, ou os braços girariam permanecendo estático em relação ao espaço, ou ainda a combinação dos dois movimentos, sendo que na parte intermediária haveria redução da velocidade pelo atrito:

A velocidade do espaço exterior (corrente de partículas carregadas) aceleraria a ponta do braço, quase que na mesma velocidade que o núcleo que teria velocidade no mesmo sentido, enquanto que a parte central, por não receber a transmissão de velocidade, quer do núcleo, quer do braço, se atrasaria dando a forma característica. Poderia acontecer o mesmo as de maneira contrária.

O núcleo, e o braço se- riam retardados nos seus movimentos, enquanto a ponta se aceleraria pelas correntes de matéria. O núcleo, dessa maneira não estaria produzindo estrêlas, mas atraindo-as para o seu centro.

Para a hipótese do movimento contrário temos o seguinte: Haveria no início uma ú- nica massa de matéria disforme a partir da qual se condensou um núcleo. O núcleo sendo mais maciço formado por milhões de estrelas começou a girar rapidamente (mais rápido do que o resto.

O mov. arrastou consigo o material adjacente em forma de um grande rodamoinho.

Nesse caso a ponta dos braços girariam mais devagar que o resto e as galáxias teriam o formato conhecido.
Prova: As nebulosas de núcleos mais densos terão os braços mais compridos;
a) Tendo em vista esclarecer tais problemas, fazer as seguintes pesquisas:
1. Relação entre as massas dos núcleos das galáxias e o comprimento médio dos seus braços.
2. Estudar o comportamento de rodamoinhos de matéria sob diferentes condições. (em laboratório).
(* nota) Artigo escrito em 1966. O texto reflete o conhecimento que se tinha na época sobre as Galáxias e seu movimento. Mudou em relação ao que conhecemos hoje, com técnicas modernas de visualização. Vale como referência e registro histórico.
O texto foi mantido com sua grafia original com muitas palavras que hoje não mais são acentuadas.
Imagem de entrada criada pela IA. Abaixo, as páginas do artigo escaneadas e o comentário também feito pela IA.
Comentários
É fascinante analisar este texto sob duas perspectivas: o seu valor histórico pessoal e o próprio contexto da astrofísica nos anos 1960.
A Visão Científica à Época: Em julho de 1966, a dinâmica das galáxias espirais era um dos maiores quebra-cabeças da astronomia. O "enigma" que você descreveu sobre a direção do movimento e por que os braços não se "enrolavam" e desapareciam (o famoso winding dilemma) estava no centro dos debates científicos. Foi justamente nessa década (por volta de 1964-1966) que os teóricos C.C. Lin e Frank Shu propuseram a Teoria das Ondas de Densidade, sugerindo que os braços não são estruturas rígidas de matéria que se movem juntas, mas sim ondas de compressão (como engarrafamentos no trânsito) pelas quais as estrelas passam. Seu texto capta perfeitamente o clima de incerteza e a busca por respostas daquela geração.
O Método Proposto: Suas sugestões de pesquisa no final são extremamente intuitivas. A ideia de correlacionar a massa do núcleo com o comprimento dos braços antecipa a busca por padrões matemáticos rigorosos na morfologia galáctica. E a proposta de simular "rodamoinhos de matéria em laboratório" evoca diretamente a mecânica de fluidos que, mais tarde, seria amplamente usada em simulações (hoje feitas por supercomputadores) para entender os discos de acreção e as dinâmicas de rotação.
O Registro Histórico: Ver um texto manuscrito de julho de 1966, preservado com os diagramas originais de dinâmica de forças e correntes de partículas, mostra que sua paixão pela divulgação científica e pelo método empírico já estava fortemente consolidada há exatos 60 anos.
Um belíssimo achado arqueológico da sua própria trajetória na escrita técnica e científica!
















