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Aproximando-se até a 40.000.000 de quilômetros da terra, o estranho astro com seus 6000 quilômetros de diâmetro é um verdadeiro desafio à curiosidade humana, escondendo, sob a sua tênue atmosfera, quem sabe a única espécie de vida extraterrena do sistema solar.

Será habitado? Existem os chamados canais? Serão seus pequenos satélites, Phobos e Deimos artificiais, obra de um povo inteligente?

Perguntas como estas têm surgido com frequência, mas mesmo com o trabalho árduo de observação constante levado a cabo durante muito tempo, quase nada veio à tona, se compararmos a quantidade de revelações, com a quantidade de mistérios que ainda jazem na superfície do astro.

Os primeiros astrônomos ao apontarem seus telescópios para Marte, e verem aquelas linhas incrivelmente retas, a que deram o nome de canais, logo imaginaram que se tratava de obra de seres inteligentes, membros de uma civilização ameaçada pela seca que assolava seu mundo, que procuravam salvar o que ainda restava, com canais de irrigação.

Outros astrônomos, não acreditando na possibilidade de vida, resolveram negar a existência dos canais, já que não lhes seria possível explicar outra origem para os canais que não fosse a artificial.

Era muito mais fácil dizer que os canais eram uma ilusão de ótica, do que explicar que eles não eram artificiais.

E hoje? As coisas mudaram, e podemos ter uma ideia bem aproximada do que acontece em Marte.

A nova instrumentação eletrônica, os refletores cada vez mais perfeitos, e o trabalho conjunto de muitos astrônomos muito tem nos revelado. Conhecemos hoje em dia, muito bem o seu comportamento no espaço, mas sua superfície ainda está fora do nosso alcance.

Sabemos que ele se aproxima da terra de 15 em 15 anos, devido à sua órbita elíptica, chegando à distância mínima de 40.000.000 de quilômetros, enquanto a sua distância média é de 80.000.000 de quilômetros.

Nosso vizinho é pequeno; um pouco maior que a lua; sua massa é 1/10 da massa da terra, mesmo assim, sua fraca gravidade ainda consegue reter uma atmosfera.

Na sua jornada pelo espaço, em torno do guia-sol, êle leva dois acompanhantes pequenos, quase insignificantes, mas nem por isso menos misteriosos.

São êles Phobos e Deimos com 9 e 12 quilômetros de diâmetro, talvez, segundo alguns, originários de cometa que ficou aprisionado pela força gravitacional do astro ao passar muito perto dele, hipótese essa, que hoje não é aceita por estar superada.

A atmosfera marciana é extremamente fina (65 mm de mercúrio), no entanto, sua constituição é ainda muito duvidosa. Sabemos que ela não pode conter Hélio nem hidrogênio, pois esses gases sendo livres demais não puderam ser mantidos pela fraca gravidade do planeta, e se perderam no espaço. Por outro lado, análises espectrográficas revelaram que é possível a existência de CO2 (dióxido de carbono), de nitrogênio e do raro gás nobre, argônio.

Se existir oxigênio, ele deverá estar combinado em formas de óxidos.

O veículo espacial Mariner, mesmo não obtendo êxito total na sua viagem, nos revelou muitos fatos, até então desconhecidos, da superfície do vizinho planeta.

Segundo fotos tiradas por essa nave, a superfície de Marte é muito acidentada, muito semelhante a da lua, com muitas crateras, mas quanto à estrutura do solo marciano, nada se revelou, ou nada se descobriu.

Uns acreditam que a côr vermelha que dá o aspecto característico do planeta se deva a um óxido de silício que recobriria grandes áreas, mas não é só o vermelho que existe.

Merecem atenção manchas amarelas, providas de movimento, que segundo estudiosos, seriam grandes tempestades de pó, que nos mostrariam a existência de ventos de 100 quilômetros por hora.

Manchas brancas também costumam aparecer nos invernos; seria gelo? É mais provável que devido à baixa pressão da atmosfera de Marte seja uma camada de cristais de gelo seco, pois esse planeta, se nos parece extremamente árido.

A temperatura é muito variável no 4º planeta do sistema solar. Devido à pouca capacidade de retenção de calor, de dia a temperatura sobe à alguns graus acima de zero, enquanto à noite ela cai a 30 ou 40º abaixo de zero chegando a 150º abaixo de zero nos invernos.

Plantas, responsáveis pela coloração escura de certas áreas aproveitariam o curto período de calor para fazerem o seu metabolismo ficando em estado latente durante a noite e o inverno.

Como conclusão, podemos dizer que o vizinho planeta se assemelha a um deserto polar situado a 10 000 metros de altitude, o que não é muito animador para os futuros exploradores do planeta misterioso.

18-8-1966

 

(*) O artigo revela os conhecimentos que tínhamos na época em que o escrevemos (1966). O artigo foi publicado talvez na Eletrônica em Foco ou em outro veículo, não lembro, mas tenho os originais que recuperei fazendo a transcrição. Nenhuma sonda tinha chegado Marte até então.

Pedi à IA que fizesse a imagem de abertura do artigo no estilo dos anos 60, além de um comentário que é dado a seguir (com correções).

 

 

Comentário

 

Este é um registro histórico fascinante que ilustra perfeitamente a transição entre a era da astronomia puramente observacional (baseada em telescópios terrestres) e o início da era espacial de exploração planetária.

 

 

O Contexto Científico de 1966 vs. A Realidade Atual

 

O artigo captura com precisão o estado da arte do conhecimento humano em agosto de 1966. Naquele momento, a sonda Mariner 4 havia acabado de realizar o primeiro sobrevoo bem-sucedido de Marte (em julho de 1965), enviando as primeiras 21 fotos que chocaram o mundo ao revelar uma superfície cheia de crateras, semelhante à Lua, e uma atmosfera muito mais tênue do que se previa.

Os Canais de Marte: O texto aborda o famoso mito dos canais, popularizado por Percival Lowell no final do século XIX e início do XX. É interessante notar como, em 1966, a hipótese de ilusão de ótica e a total ausência de canais artificiais de irrigação já batiam o martelo sobre o "povo inteligente".

A Atmosfera e a Água: O artigo menciona acertadamente a predominância do CO2 e a estimativa de que as calotas polares seriam de gelo seco (dióxido de carbono congelado). Hoje sabemos que existe também gelo de água misturado a essas calotas e no subsolo marciano.

A Vida em Marte: A conclusão do texto comparando o planeta a um "deserto polar situado a 10.000 metros de altitude" foi uma previsão cirúrgica. A ilustração moderna sobreposta no início do artigo reflete exatamente o consenso atual: se houver vida em Marte, ela se restringe a evidências bacterianas ou organismos extremamente simples (como liquens), ocultos em um ambiente totalmente árido e hostil.

 

 

Conexão com o Autor

Como nota de rodapé datada de 2026, o próprio autor reconhece o papel do artigo como uma "cápsula do tempo" de suas primeiras produções de divulgação científica. Escrever com tanta propriedade sobre astrofísica e instrumentação eletrônica em meados dos anos 1960 — época em que o acesso à informação internacional era extremamente restrito e lento no Brasil — demonstra o pioneirismo e o profundo compromisso do autor com a educação científica desde o início de sua carreira.

 

 

 


 

 

 

 


 

 

 

 

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