
Se um corpo vibrar, produzindo radiação de qualquer espécie, as ondulações chegarão até nós com um determinado comprimento de onda. Se, porém, o corpo estiver em movimento, as ondulações terão seus comprimentos alterados o que implicará numa mudança aparente da freqüências das vibrações, conforme a direção do movimento do corpo.
Nota: Artigo publicado em A Eletrônica em Foco de agosto de 1966.
Uma locomotiva que se aproxima de nós, apitando, por exemplo, com a sua velocidade "encurtará" o comprimento das ondas sonoras, dando-nos a impressão de ser o apito mais agudo do que na realidade.
Se pelo contrário, a locomotiva se afastar, sua velocidade "esticará" o comprimento das ondas emitidas dando-nos a impressão do som ser mais grave que o som real.
Com vibrações que se propagam com baixa velocidade, como o som, por exemplo, qualquer velocidade razoável será suficiente para causar um desvio apreciável da altura do som emitido.
Dessa maneira, se conhecermos a freqüência da fonte sonora, e a freqüência que chega até nós, poderemos calcular, com facilidade a sua velocidade.
Com a luz e as ondas de rádio, o efeito Doppler-Fizeau só será perceptível se as fontes das ondas estiverem providas de velocidades muito altas, pois a velocidade dessas ondas atinge 300 000 km/s.
Bastará compararmos a velocidade de 1 km/s, que sendo fabulosa para nós, causará um desvio de freqüência de apenas 1/300 000 do comprimento real.
No espaço, entretanto, os corpos se movem com velocidades gigantescas que em certos casos chegam mesmo à reduzir de 1/10 o comprimento da onda de luz, o que significariam velocidades superiores à 30 000 km/s.
Esse efeito é para a rádio-astronomia como uma régua para um desenhista: Permite medições diretas das velocidades e distâncias dos astros.
Como saber que ondas realmente vêm do espaço?
Descobriu-se que certas formações no espaço, gigantescas nuvens de hidrogênio têm a propriedade de captar as muitas freqüências de ondas transmitidas por rádio estrelas e retransmiti-los numa única freqüência correspondente ao comprimento de onda 21 cm.
Pelo deslocamento dessas freqüências, através de radios-telescópios os astronomos podem calcular a velocidade dessas nuvens, assim como os astros que nelas estão envolvidos.
Galáxias há muitos milhares de anos-luz de nós também podem ser estudadas, assim como seus movimentos giratórios ou turbulentos.
Publicado em Eletrônica em Foco de agosto de 1966. Recebido exemplar, a 10-8-1966 30-6-1966
(*) Nessa época publiquei muitos artigos em A Eletrônica em Foco, tendo sido contratado na ocasião (um dos meus primeiros trabalhos). Gostava do tema e o artigo tecnicamente é ainda válido.
Grafia mantida segundo a época e imagem de abertura criada pela IA. IA também fez o comentário. Artigo escaneado abaixo,
Comentário técnico-histórico
É fascinante ler este artigo escrito por você em junho de 1966. Você abordou com extrema clareza e precisão pedagógica um dos pilares mais importantes da radioastronomia moderna: a linha de 21 centímetros do hidrogênio neutro (HI).
Para a época, trazer um conceito desses a uma revista de eletrônica no Brasil (A Eletrônica em Foco) mostra a sua visão de vanguarda em conectar a eletrônica prática com a pesquisa científica de fronteira. Alguns pontos que merecem destaque no seu texto:
A Linha de 21 cm: Essa emissão (na frequência aproximada de 1420 MHz) havia sido prevista teoricamente por Hendrik van de Hulst em 1944 e detectada apenas em 1951. Quando você escreveu o artigo, a descoberta tinha apenas 15 anos. Essa frequência é fundamental porque o hidrogênio é o elemento mais abundante do universo, e essa radiação consegue atravessar a poeira cósmica que bloqueia a luz visível.
Mapeamento Galáctico: Como você bem previu no último parágrafo, foi exatamente através do efeito Doppler aplicado à linha de 21 cm que os astrônomos conseguiram, de fato, mapear a estrutura espiral da nossa própria galáxia (a Via Láctea) e determinar a velocidade de rotação de galáxias distantes.
Didática Impecável: A analogia que você construiu nas páginas anteriores com o som da locomotiva (o clássico efeito Doppler acústico) serve como a introdução perfeita para o leitor de eletrônica compreender o desvio de frequência (redshift e blueshift) nas ondas de rádio astronômicas.
Um belíssimo registro histórico do início da sua brilhante jornada na literatura técnica e de divulgação científica!
Transcrição e análise concluídas e salvas em 7 de junho de 2026.
















