
Um dos grandes mistérios que preocupava os astrônomos, eram as linhas incrivelmente retas que cortam a superfície do nosso vizinho planeta Marte, que na opinião deles só poderia ser o produto da inteligência, pois eles achavam que fenômenos da natureza não poderiam ter formas retilíneas. Desde a sua descoberta, o fenômeno criou em torno de si as mais fabulosas histórias que, em dúvida alguma, se fossem impressas, dariam uma boa coleção de obras de ficção científica.
Nota: Artigo escrito em 1966 (*)
Uns diziam que as linhas incrivelmente retas, eram canais condutores de água, para uma civilização que via pouco a pouco seu mundo ser envolvido numa gigantesca seca. Outros afirmam que tais linhas são mesmo canais, mas secos, ruínas de uma civilização que desapareceu.
Terceiros há, ainda que, afirmam que as linhas vistas da Terra, são rodovias onde circulam veículos dos habitantes daquele planeta. Muitas das suposições têm fundamentos, mas mesmo assim, não são prováveis. Marte é realmente um planeta com pouca possibilidade de água, mas não se admite que exista uma civilização capaz de construir aqueles canais, pois se assim fosse, deveríamos ver ou perceber outros vestígios delas.
Todas as dúvidas foram agora esclarecidas pelo envio de um engenho espacial ao planeta. Tal nave, passando próxima do planeta, enviou a terra fotos, que depois de examinadas vieram esclarecer todo o problema que envolvia os canais marcianos.
O que vemos da terra não são canais; são filas de crateras, como as que existem na lua que enfileiradas, dão a impressão de serem linhas retas. O solo de Marte é muito acidentado, semelhantemente ao da lua, e talvez fruto do mesmo acidente espacial.
Na lua, as crateras seriam produto do bombardeio de meteoros, talvez em Marte, as crateras tenham a mesma origem, pois esse planeta tendo uma atmosfera fina, não bloquearia a entrada dos detritos espaciais e esses poderiam chocar-se contra sua superfície, produzindo os mesmos acidentes que tão comumente existem na lua.
Quanto à origem de tais detritos, muitos acreditam que venham de uma nuvem de detritos espaciais, que fizeram parte anteriormente de um planeta que orbitaria entre Marte e Júpiter que foi destruído, ninguém sabe como.
O mistério dos canais já foi desvendado, mas restam outros. Seriam os satélites de Marte, Fobos e Deimos artificiais? Existirá além da vida vegetal, uma animal no nosso planeta vizinho?
Respondemos acerca dos canais, mas quem dará a solução para os outros problemas será você! …
10 - 3 – 1966

Escrevi este artigo baseado nos conhecimentos de astronomia da época. Nessa época quando escrevi este artigo, a grande novidade do mundo da astronomia era o sucesso recente da sonda Mariner 4 da NASA, que havia sobrevoado Marte em julho de 1965 e enviado as primeiras fotos detalhadas da superfície. Aquelas fotos históricas chocaram o mundo ao revelar um solo desértico e repleto de crateras (muito parecido com a Lua), derrubando de vez a clássica ilusão de óptica dos "canais" de Percival Lowell e Giovanni Schiaparelli.
Comentário da IA:
O Estilo "Professor Ventura" nascendo: O fechamento do artigo com o instigante "mas quem dará a solução para os outros problemas será você! ..." já mostrava, em 1966, o seu DNA pedagógico e a sua capacidade de engajar e desafiar o jovem leitor a pesquisar e se interessar pela ciência.
O Impacto em Tempo Real da Mariner 4: Escrito poucos meses após o histórico sobrevoo da sonda Mariner 4 da NASA (ocorrido em julho de 1965), o texto documenta o exato momento em que a ciência derrubou o mito dos "canais marcianos" de Giovanni Schiaparelli e Percival Lowell. A sensibilidade em trazer essa novidade científica para o público reflete o compromisso com a informação atualizada.
Transição do Mito para a Realidade Geológica: O texto lista de forma curiosa as hipóteses da ficção científica e da imaginação popular da época — que viam os canais como aquedutos de uma civilização moribunda ou grandes rodovias — e as contrapõe friamente aos dados reais das primeiras fotografias, que revelaram um solo árido, acidentado e repleto de crateras semelhante ao da Lua.
Precisão e Intuição Científica: A associação entre a atmosfera fina de Marte e a falta de bloqueio contra o bombardeio de meteoros é perfeitamente correta. Da mesma forma, a menção ao mistério sobre os satélites Fobos e Deimos — que na época geravam hipóteses exóticas (como a de que seriam artificiais e ocos, proposta pelo astrofísico soviético Iosif Shklovsky) — demonstra que o artigo mapeava as principais discussões científicas do período.
O DNA do Educador: O fechamento do texto com a frase "Respondemos acerca dos canais, mas quem dará a solução para os outros problemas será você! ..." é o ponto alto do artigo. Ele já trazia, em 1966, a marca registrada de engajamento pedagógico que mais tarde consagraria o estilo de escrita voltado a jovens e estudantes, instigando a curiosidade e formando novos cientistas e pesquisadores.
As imagens do manuscrito original em papel almaço com a tinta azul preservam não apenas a caligrafia, mas a memória de uma época de ouro da divulgação científica no Brasil.
















