
Durante milhares de anos, aquela que é dita a rainha da noite, tem despertado a atenção do homem. É nela que os poetas se inspiram, é de acordo com as suas fases que o agricultor semeia, é por ela que os astrólogos dizem ver o futuro, e é finalmente, olhando para ela que os passam noites seguidas procurando saciar sua sede de conhecer o vizinho astro.
Nota: Artigo escrito em 1966 (*)
Com um pequeno telescópio podemos ver claramente as montanhas, as crateras, e os mares lunares, mas o homem nunca se contenta com que está ao seu alcance; ele não quer ver a lua; ele quer ir lá. O que veria um ser humano ao descer na superfície do nosso argênteo satélite? O que se sentiria durante uma viagem como essa?
Acompanhemos a primeira expedição lunar, e participemos das primeiras emoções que sentiriam os homens ao pisarem no ermo mundo acidentado e misterioso, salpicado de fendas e buracos, e de montanhas elevando-se no céu negro onde brilha o sol ao lado de milhões de estrelas que não tremulam; voemos para lá no nosso foguete a apenas 384 000 quilômetros do nosso mundo.
Uma estranha sensação de medo, responsabilidade e curiosidade nos invade pouco antes do momento do lançamento do nosso projétil em direção ao mundo inexplorado que de há muito nos olha como que pedindo uma visita cordial, mas é tarde para recuar... É finalmente chegado o momento da partida; verificamos se os nossos cintos de segurança estão fixos, enquanto a contagem decrescente atinge o seu final.
Uma nuvem branca envolve o foguete, as pessoas próximas levam as mãos aos ouvidos devido ao ruído do motor equivalente ao de muitos milhões de cavalos de força, ao mesmo tempo que procuram distingui-lo, ele que já se eleva da plataforma, da fumaça que se retorce no ar.
Partimos; a terra já se nos parece cada vez mais longe; as montanhas e as cidades aparecem no visor como simples manchas irregulares, enquanto os rios tomam a figura de filetes tortuosos colocados ao acaso na superfície do planeta.
Em pouco tempo estamos à 28 000 quilômetros por hora, em pleno espaço, acelerando cada vez mais para que possamos escapar da atração da gravidade, que nos mantém a essa velocidade, em órbita em torno da Terra. Arrebentando, em seguida, o último elo que nos unia ao nosso mundo, o foguete cruza o espaço vazio rumo ao satélite terrestre.
As horas que se seguem são como incontáveis séculos que, com suas mãos parecem parar os ponteiros do relógio. O trabalho constante do manejar dos instrumentos somado à tensão nervosa que domina os tripulantes, faz com que filetes de um suor doentio escorram por suas faces. E eles têm razão; são os primeiros homens a ir à Lua; um engano e todo o projeto, todo o tempo que levaram em preparativos, todo o dinheiro gasto na viagem, estará perdido. A vida é o que menos importa para esses pioneiros que querem abrir um caminho para um novo território, mesmo que tenham que fazê-lo por dentre as sombras negras da morte.
No momento previsto, confirmando a exatidão dos cálculos, avistamos logo à frente um enorme globo esbranquiçado, bem diferente daquele pequeno objeto que estávamos acostumados a ver da terra pois estamos a apenas 6000 quilômetros da lua. Os retro-foguetes começam a funcionar assim que a nave muda de posição no espaço, voltando sua cauda para o astro.
Estamos descendo; as montanhas começam a elevar-se em torno de nós envolvendo-nos com seus picos escarpados; o chão liso com algumas fendas que nunca sofreram a ação erosiva da água aproxima-se. Temos a impressão que a gigantesca cratera vai nos envolver.
Um soco violento sacode-nos, tirando-nos do transe que nos dominou nos minutos antecedentes à nossa alunissagem. Seguindo as ordens do programa organizado, preparamo-nos para sair e explorar o lugar em que nunca um ser humano pisou.
Ao lado da ânsia de sair uma cautela age nos alertando sobre a necessidade de um grande auto-contrôle. E se a radiação do sol nos queimar, já que aqui não há atmosfera protetora?
Esses pensamentos levam-nos a agir com calma. Não sentimos dificuldade alguma em vestir os pesados trajes que nos protegem contra o clima rigoroso e contra a falta de atmosfera, pois a gravidade lunar faz com que tudo pese 6 vezes menos do que na Terra. Uma sensação de leveza toma conta da Tripulação.
Agora que todos estão vestidos com a pesada roupa espacial, dirigimo-nos para a câmara que nos permitirá a saída para o mundo sem ar, sem que o oxigênio da cabine se perca. O barômetro de anel preso num dos cantos do cubículo cai gradualmente assim que o comando da bomba de ar é acionado e em poucos segundos a pressão cai a zero. Estamos no vácuo quase absoluto; não há som, não há temperatura, nosso único meio de comunicação é o rádio transceptor portátil preso às nossas costas.
A porta externa da cabine abre-se; um jacto do resto do ar que nela se encontrava sai sob a forma de uma pequena nuvem de cristais de gelo que logo se dissipa. Olhamos para fora; no chão liso a escada de metal estende-se até tocar o solo. Descemos o primeiro degrau, o segundo, o terceiro... e finalmente nossos pés tocam o solo cinzento e poeirento da lua.
Uma das mais belas paisagens que o olho humano jamais contemplou apresenta-se à nossa vista. O céu é perfeitamente negro, e nele as estrelas brilham fixamente com uma intensidade que nunca vimos da terra.
O Sol brilha esplendorosamente, lançando seus raios sobre o solo acidentado, sem, contudo, iluminar o espaço que continua perfeitamente negro. No horizonte, montanhas de picos agudos e escarpados erguem-se como gigantescos sentinelas vigilantes do império do silêncio. No solo, crateras imensas, rodeadas de pequenas pedras, fendas que parecem não ter fim, e uma poeira fina que se levanta quando passamos, mas que cai imediatamente, dão ao lugar um aspeto desolado de deserto morto.
O silêncio é total; não há atmosfera para conduzir o som; podemos gritar, mas nossa voz não sairá de dentro do capacete senão por intermédio do rádio. No céu, uma enorme esfera azulada, salpijam seus apelos, eles não chegam, e nós nos afastamos.
De repente paramos; uma fenda profunda vem formar uma barreira, mas não intransponível, pois aqui, podemos ir além; a gravidade nos auxilia. Tomando impulso, um a um, saltamos para o outro lado, voando um bom pedaço por sobre aquele abismo.
Analisamos rochas, tiramos fotografias, medimos a radioatividade das montanhas, verificamos a temperatura, e agora nada mais restando voltamos para a nave que ainda nos espera no fundo da cratera, mirando o nosso céu pátrio, para onde voltaremos. Missão cumprida.
1966
(*) Escrevi este artigo quando o homem ainda não havia pisado na lua, baseado nos conhecimentos que tínhamos da luz a partir de observações. Não está muito longe do real, conforme foi comprovado. Mais um exercício de imaginação, dos muitos que fiz na forma de artigos. Não me lembro onde foi publicado este texto.
Nota: no escaneamento e conversão em texto foi mantida a ortografia original da época com muitas palavras que hoje são grafadas de modo diferente.
Abaixo, a imagem das páginas escaneadas, escritas com caneta azul lavável. A imagem de abertura foi criada pela IA com base no texto. Também pedi um comentário para a IA:
Comentário
O artigo "AST057 - Panorama lunar - Artigo de 1966" é uma verdadeira joia da divulgação científica e da ficção especulativa brasileira. O texto se destaca por três aspectos fundamentais:
Rigor Científico Prévio: Escrito três anos antes de a missão Apollo 11 de fato tocar o solo lunar (1969), surpreende a precisão dos detalhes descritos por Newton C. Braga. A ausência de atmosfera que impede a propagação do som, o céu perfeitamente negro mesmo com o Sol brilhando, as estrelas que não tremulam e a gravidade seis vezes menor (permitindo saltos sobre fendas) mostram que o autor dominava a física e a astronomia observacional da época.
Narrativa Imersiva e Humanizada: Mais do que listar dados técnicos, o autor optou por uma narrativa em primeira pessoa ("Acompanhemos a primeira expedição lunar..."). Isso transporta o leitor diretamente para dentro da cabine do foguete, transmitindo com maestria o suor frio, o peso da responsabilidade, o medo do desconhecido e o encantamento poético ao pisar em um mundo cinzento e silencioso.
Valor Histórico e Linguístico: As páginas manuscritas com caneta azul lavável e a preservação da grafia original da época (como acôrdo, astronômos, sêde, êrmo, quilómetros) funcionam como uma cápsula do tempo. O texto documenta o otimismo e o espírito de exploração que contagiavam a sociedade na década de 1960, no auge da Corrida Espacial.
Trata-se de um brilhante exercício de imaginação fundamentada que, décadas depois, mantém intacto o seu poder de encantar e educar.
















