
Devido ao sensacionalismo dos jornais, nos comentários científicos, muitas pessoas talvez pensem que a pilha atômica está prestes a sair no mercado substituindo as pilhas comuns de curta duração.
Nota: artigo escrito em 1966 e recuperado na forma original (*)
De fato, será uma maravilha quando isso acontecer; os rádios virão com pilhas permanentes que durarão mais que o próprio dono do rádio; corações artificiais implantados em seres humanos serão alimentados por pilhas atômicas. Mas, não se iluda, se alguém lhe quiser vender uma pilha atômica; um rádio com bateria eterna, não compre, pois ainda haverá muito tempo até que sejam desenvolvidos tipos populares de baterias radioativas. De maneira alguma, pilhas contendo elementos radioativos seriam lançados no mercado sem um curto estudo, uma precaução contra os curiosos, que poderiam abrir o invólucro protetor, e receber diretamente as perigosas radiações.
Esse, e outros problemas precisarão ser levados em conta, antes do lançamento da tão aguardada novidade científica. E isso não é só; os problemas de segurança são pequenos e de importância secundária, levando-se em consideração que só devemos nos preocupar com eles depois de conseguirmos um meio verdadeiramente pratico de transformarmos a radiação atômica em eletricidade; e esse, por sinal, está muito longe de ser desenvolvido.
Depois desses esclarecimentos, na certa, o leitor pensará comigo mesmo que então não existe a pilha atômica. A pilha atômica existe, mas não funciona de maneira direta, transformando a radiação em eletricidade, o que existe é equipamento capaz de transformar a mesma radiação em outras formas de energia que depois são transformadas em eletricidade. A transformação direta da radiação não existe; o atual modelo de aproveitados de energia atômica que mais se aproxima da transformação direta, é a pilha de promécio radioativo.
Mesmo assim, essa pilha ainda não é atômica, mas sim uma fotocélula, pois o promécio é fosforescente, e a sua luz é que é transformada em eletricidade por meio de um semicondutor. Sendo assim, existem estágios intermediários de transformação de energia. Primeiro a radiação é transformada em luz, em seguida a luz é transformada em eletricidade.
É claro que a quantidade de energia libertada é pouca, o que não compensa, principalmente levando-se em consideração os perigos de carregarmos um material radioativo no bolso, no rádio, ou na lanterna, e que o custo desses materiais também não é dos mais animadores. Agora o leitor nos perguntaria: “E as usinas atômicas em funcionamento na Inglaterra e Estados Unidos? Como eles conseguem energia elétrica em tais quantidades.
É aí que entra a versatilidade da pilha atômica. Vejam o submarino atômico Triton, por exemplo. Os seus motores são alimentados com eletricidade de uma pilha atômica. Além de não existir o problema da combustão, com alguns quilos de urânio, ele pode ficar muitos meses sem reabastecimento. Agora os materiais radioativos são caros e difíceis de sem obtidos, mas vai chegar o dia em que poderemos, por alguns cruzeiros, comprar uma bateria atômica para novo rádio que o fará funcionar por 100 anos.
O carro do futuro, não usará gasolina, mas sim, um bloco de material atômico. Não haverá ruído, nem o incômodo das vibrações dos cilindros, e o barulho do escapamento. O que resta, é esperarmos que a mente humana se convença que a autodestruição é coisa de seres inferiores e use a energia do átomo, antes para a construção, e não para a destruição.
(*) Escrevia textos como este no início de minha carreira em 1966 para diversas publicações que me solicitavam. Evidentemente muita coisa está mudando desde então.
O texto preserva a grafia original do manuscrito de 1966. A imagem de abertura foi criada pela IA assim como o texto abaixo que é um comentário. Imagens do original escaneado no final do artigo.
Comentário:
Este artigo, intitulado "Pilhas Atômicas" e escrito por Newton C. Braga em 24 de abril de 1966, é um documento histórico fascinante que ilustra perfeitamente o papel do autor como educador e divulgador científico, mesmo no início de sua prolífica carreira.
Abaixo, destaco os principais pontos e o impacto dessa leitura:
Combate ao Sensacionalismo e Lucidez Técnica
Em meados da década de 1960, o mundo vivia o auge da Era Espacial e o deslumbramento com a Era Atômica. A mídia da época frequentemente alimentava expectativas irreais no público. Com enorme lucidez e responsabilidade técnica, o jovem Newton C. Braga assume o papel de desmistificar a promessa de uma "bateria eterna" comercial imediata, alertando o leitor contra golpistas ("o enganador de pilhas eternas", como ilustrado na imagem). Ele explica de forma didática que a conversão direta de radiação em eletricidade em larga escala era inviável na época e que os perigos da radiação e os custos tornavam o uso doméstico impossível.
Visão de Futuro e Precisão Científica
Apesar do tom cauteloso para o consumo imediato, o artigo demonstra uma visão de futuro impressionante:
Previsão de Marcapassos: O autor menciona que "corações artificiais implantados em seres humanos serão alimentados por pilhas atômicas". Essa previsão se concretizou anos mais tarde (nos anos 1970, marcapassos cardíacos utilizando baterias baseadas em Plutônio-238 foram de fato desenvolvidos e implantados com sucesso).
Explicação do Promécio: Ao detalhar o funcionamento da pilha de promécio radioativo através de estágios intermediários (radiação luz eletricidade através de semicondutor), ele descreve com precisão o conceito das células betavoltáicas que utilizam trítio ou promécio, uma tecnologia real utilizada hoje em nichos espaciais e militares onde a durabilidade extrema é necessária.
O Apelo Humanitário e Pacifista
O fechamento do artigo traz uma reflexão ética profunda e muito comum entre os cientistas e pensadores que viveram a Guerra Fria. Ao clamar para que a mente humana compreenda que "a autodestruição é coisa de seres inferiores" e que use a energia do átomo para a construção, o texto transcende a eletrônica e toca na filosofia e na sobrevivência da humanidade.
A Ilustração e o Valor Histórico da Grafia
A arte que acompanha o artigo traduz visualmente a essência do texto de forma brilhante, dividindo o átomo entre o idealismo tecnológico (o carro do futuro, a energia para a construção), os riscos reais (a destruição e os perigos da radiação) e a ingenuidade do consumidor diante de charlatões.
Conclusão: É um registro histórico precioso que mostra como o foco de Newton C. Braga na educação, na clareza científica e no desenvolvimento tecnológico ético já estava solidamente consolidado desde o primeiro ano de sua trajetória profissional.
















