Uma folha de papel-manteiga comum, comprada em qualquer supermercado, pode se tornar a base para a próxima geração de dispositivos médicos e monitores ambientais descartáveis. Cientistas do Laboratório de Bioeletrônica e Microssistemas da Universidade de Binghamton desenvolveram um método inovador que utiliza lasers comuns de dióxido de carbono (CO) para desenhar circuitos eletrônicos diretamente sobre o papel de cozinha.

Todo esse universo invisível de microengenharia está detalhado na revista científica ACS Applied Materials & Interfaces, mostrando desde a concepção do projeto até a sua construção na escala dos micrômetros. A técnica surge como uma alternativa barata e ecológica para a produção de sensores que, hoje, dependem de plásticos e componentes eletrônicos caros.

Na eletrônica baseada em papel, a chamada papertronic, a grande chave para o sucesso é a precisão. Tentativas anteriores utilizavam papel de cromatografia e trilhas de cera para delimitar onde as tintas condutoras deveriam passar. Porém, o calor necessário no processo derretia a cera, borrando as trilhas e limitando o tamanho dos componentes a cerca de um milímetro, o que gerava circuitos grandes demais para aplicações práticas.  

Diante desse impasse, os cientistas descobriram no papel-manteiga a oportunidade ideal para fazer suas pesquisas avançarem, explorando uma inversão total no modo de fabricação, como o papel-manteiga é revestido de silicone, ele é naturalmente impermeável e repelente à água.

A inovação consiste em usar o laser para queimar e remover seletivamente esse revestimento de silicone em padrões milimétricos. Ao fazer isso, o laser expõe as fibras de celulose que ficam por baixo, as quais absorvem líquidos. 

O professor Seokheun “Sean” Choi, pesquisador da Universidade de Binghamton, explica que, quando o laser toca no papel, a superfície torna-se receptiva às tintas condutoras à base de água. Esses canais gravados funcionam como micro-rodovias que guiam as tintas para formar componentes eletrônicos completos, como resistores, capacitores e circuitos de filtragem de sinal, em uma única folha de papel.

Ao inverter o processo tradicional, os pesquisadores conseguiram reduzir o tamanho dos componentes para espaços minúsculos, equivalentes a um fio de cabelo. Isso representa uma melhoria de duas a três vezes na precisão, permitindo espremer circuitos complexos em espaços muito menores. 

Além do ganho técnico, o projeto se destaca pelo apelo sustentável, já que todas as tintas utilizadas são feitas à base de água, sem metais pesados ou solventes químicos tóxicos. O descarte também é seguro: os circuitos são totalmente biodegradáveis, decompondo-se no solo em poucas semanas, ou podem ser queimados em segundos, transformando-se em cinzas de maneira limpa.

O avanço abre portas para novos dispositivos de uso rápido no nosso cotidiano. Na medicina, a tecnologia pode viabilizar curativos inteligentes que monitoram infecções em feridas e enviam alertas para o celular. Já nos setores de logística e agricultura, a descoberta pode dar origem a etiquetas de envio biodegradáveis que rastreiam a temperatura de alimentos e cargas antes de irem para o lixo, evitando o desperdício de forma ecológica.

 

 A nova placa de papel manteiga após a remoção da camada de cera, recebem a tinta condutora -  Crédito : Binghamton University



Fontes: https://www.binghamton.edu/news/story/6199/lasers-turn-ordinary-parchment-paper-into-high-performance-electronic-circuits 

 


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Luiza Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, Brasil. Movida pela curiosidade, está sempre atenta às novidades e às transformações no mundo das diversas comunicações, mantendo sempre o compromisso do jornalismo com a verdade.

 

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