Esta é uma estória que envolve dois outros personagens, que não são Beto e Cleto e que criei em 1966, mas que foi atualizada para que eles substituíssem os originais. Sempre gostei de escrever, e as estórias de ficção me despertavam especial interesse. Na revista americana Popular Electronics havia dois personagens que protagonizavam aventuras no mundo da eletrônica desde 1948 e eu os acompanhava desde o início de minha carreira. Suas estórias é que me deram inspiração para criar depois de muitos anos o Prof. Ventura, Beto e Cleto. Escrevi diversas estórias com Juca e Chico que eram dos nomes da versão brasileira já que John T. Frye, o criador americano tinha como personagem Carl e Jerry, dois técnicos de TV. A que apresento é de 1966, mas tenho algumas de até antes e que agora recupero. A estória aqui reproduzo, inspirada na série original e usando os nomes dos personagens traduzidos na época pela versão brasileira, Juca e Chico, foram transferidos para os nossos bem conhecidos Beto e Cleto. A data é 29 de janeiro de 1964. Algumas modificações pequenas foram feitas no sentido de adequar o texto aos nossos tempos, até com introdução de tecnologia mais moderna. Mas a estrutura se mantém. Não me lembro onde a publiquei, pois a recuperação foi feita dos originais de 1966. Bastante ingênua, era para publicações juvenis da época.
🥵 Quando o Gorducho Cleto desceu as escadas do porão, atordoado pelo calor da tarde, Beto nem se deu ao trabalho de olhá-lo, limitando-se a cumprimentá-lo com um simples “Oi”.
O outro, suando por todos os poros, percebeu que se tratava de algum projeto muito importante para fazer com a atenção fosse desviada. Seguindo para a bancada, Cleto, sem dizer nada, começou a examinar o que o amigo estava montando.
- Duas telas de arame, para fazer uma gaiola de moscas; um copo d’água... deve ser refresco gelado. Está muito calor; um relé, um motor de ventilador. Pena que falte a hélice, está muito quente...
Cleto nem terminou de falar. Juca explodiu, abandonando o que estava fazendo.
- Está bem! Eu explico. Não precisa arrasar com meu equipamento anti-chuva!
- Equipamento, o quê? – interrogou Cleto, já se acomodando numa cadeira posicionada na frente do ventilador.
- É isso mesmo! Anti-chuva. Eu vou explicar tudo. Você viu a chuva que caiu ondem à noite. Pois é, naquela correria de recolher coisas, fechar a casa etc., a janela da sala de jantar ficou aberta e com o vento, o tapete molhou-se todo. Você sabe quanto cobram para limparem. O nosso foi hoje para a lavanderia. Além disso, certamente ele vai se estragar logo, por causa disso, por isso projetei este aparelho que você está vendo.
- E, o que é isso? Um desintegrador de nuvens, que certamente não deixará chover em sua casa? – perguntou Cleto, em tom de brincadeira.
- Ora, não é dada disso. Venha ver como ele funciona.
Pesadamente, o outro levantou-se e caminhando devagar, foi até a bancada. Cleto começo a explicar como o aparelho funcionava.
- Você deve estar lembrado daquele detector de umidade que montamos no ano passado.
- Sim, lembro. Mas, o que ele tem a ver com a chuva? - Perguntou Cleto, ao mesmo tempo em que segurava o copo d’água, imaginando a possibilidade de ser um refresco.
- Aquelas telas de aramem no meio das quais se coloca um pano seco, é o elemento sensível. Quando as primeiras gotas de chuva caem, a resistência elétrica cai, deixando assim passar a corrente para a base de um transistor.
Beto continuou:
- Esse transistor tem um potenciômetro de ajuste que leva o transistor a um ponto próximo ao disparo. No disparo, ele acionará um relé que controlar um motor. O motor fechará então a janela, usando um sistema de correias, o que não será difícil de implementar, pois ela já é do tipo deslizante que corre sobre trilhos.
- Muito engenhoso. Mas será que isso tem sensibilidade para acionar o relé antes da casa ser olhada inteira? – Cleto tinha dúvidas.
- É justamente isso que estou verificando.
Com todo o equipamento ligado, Beto pingou uma gota d’água no elemento sensível. Foi o suficiente para acionar o relé que ligou o motor.
- E quando você vai instalar essa geringonça? - Perguntou Cleto.
- Hoje mesmo! Esse calor está dizendo que vai chover, e eu quero ter o aparelho em funcionamento quando isso acontecer.
Ao anoitecer, apesar de muitas estrelas brilhando no céu, o tempo carregado era de quando em quando iluminado por um relâmpago longínquo. Enormes cumulus nimbos mostravam que uma tempestade estava a caminho. Beto, vitorioso esperava para testar o seu equipamento.
Cleto, na sua varanda sabia disso.
Naquela noite, apesar das ameaças, não choveu. Na manhã seguinte, Cleto foi até a casa de Beto, onde certamente iriam montar alguma coisa nova.
Quando chico entrou no porão que servia de laboratório, qual não foi sua surpresa ao ver o aparelho anti-chuva desmontado sobre a bancada.
- O que houve? Você não montou e testou o aparelho ontem? – Foi a primeira coisa que Chico falou, antes mesmo de cumprimentar o amigo.
- Montei sim, e até que funcionou muito bem. Bem demais, e esse é o problema.
- Espere ai! Que eu saiba, ontem não choveu, nem sequer ameaçou chuva aqui. Não me diga que na ânsia de experimentar o aparelho, você tentou provocar uma chuva artificial? – Interrompeu Cleto, querendo saber o motivo do aparelho estar desmontado.
- Não, não choveu. Eu vou explicar tudo, o motivo pelo qual o aparelho está aqui, desde que você prometa não rir.
- Rir? Por quê? Ora... – Tal foi a reação de Cleto, que já havia se acomodado numa poltrona.
Beto partiu então para as explicações:
- Ontem à tarde instalei o aparelho do modo como foi planejado. Deixei então a janela aberta, por causa do calor, e fui cuidar de outras coisas, lá no meu quarto.
Meu pai chegou lá pelas 7, mas não veio só. Estava acompanhado de um amigo que convidou para jantar. Tudo correu normalmente, até que depois da sobremesa, foram os dois para a sala, onde o clima estava mais fresco.
O seu Leopoldo, tal era o nome dele, como primeira reação, foi à janela para tomar um pouco de ar. Foi então que minha mãe veio com aquele licor horrível que ela ganhou, e que costuma servir aos amigos.
Nem todos gostam, mas é claro, tomam por delicadeza. Meu pai e seu amigo fizeram o mesmo, ou melhor, meu pai tomou.
Seu amigo, depois de experimentar, não teve dúvidas. Disfarçadamente jogou o conteúdo de seu copo pela janela, fingindo tomar. Foi aí que começou a desgraça do aparelho.
- Não tenho ideia do que aconteceu. – Disse Cleto.
- Ao jogar fora o licor, ele caiu diretamente sobre o sensor que eu havia colocado sob a janela. Foi o suficiente. A janela fechou-se no pescoço do pobre sujeito! O susto foi grande, pois o motor que usei não tinha muita força. Mas, preso na janela, ele gritou.
Quando eu ouvi os gritos, lá do meu quarto, desci correndo. Vi o sujeito preso na janela fechada; Depois de desligar o motor e tirar o sujeito de lá, resolvi dar uma explicação.
Desde então fiquei proibido de instalar qualquer aparelho em casa. Cleo ria de mais essa aventura de seu amigo.
- Espera aí, amigo! Você disse que não iria rir.
- Desculpe, mas o seu aparelho deveria ter um sistema capaz de diferenciar água de licor. Patente recusada, amigo.















