O que tem a ver formigas com informática? Nesta estória o leitor vai ficar sabendo de que o modo uma solução técnica para um problema de hardware pode ter consequências ecológicas bastante interessantes. Se bem que a maioria dos especialistas em computadores tenha dificuldades em associar algum tipo de software à organização social das formigas, ou seus hábitos alimentares, será interessante saber exatamente que tipo de confusão o Professor Ventura causou na Escola Técnica de Brederópolis.

 

Nota: esta estória foi publicada em 1992

 

Nos dias muito úmidos de verão, problemas de funcionamento de computadores e outros equipamentos eletrônicos, são comuns. Beto e Cleto entraram no laboratório bem a tempo de encontrar o Professor Ventura entretido no exame das "entranhas" de um monitor de vídeo.

 

- O que há? Queimou? - perguntou Beto, já pensando na possibilidade de ajudar, pois gostava, como ninguém, de eletrônica, principalmente envolvendo computadores. Além disso, seria interessante estar perto do professor neste tipo de trabalho, pois certamente aprenderia muito.

 

O professor, sem deixar de lado o que estava fazendo, explicou:

 

- Sim! Problemas de fugas de alta tensão que são comuns nesta época do ano. Vocês sabem, no verão existem dias muito úmidos e quentes, e a umidade penetra nos pontos mais sensíveis dos equipamentos causando estragos.

 

- E o que foi desta vez? - perguntou Cleto, interessado.

 

O professor, percebendo que o rapaz era ainda inexperiente em termos de hardware, resolveu dar explicações mais profundas:

 

- A umidade é uma grande inimiga dos computadores e periféricos. Absorvendo umidade, a sujeira que se acumula nas placas e componentes, torna-se condutora de correntes elétricas. Ocorrem então "fugas" de corrente que podem causar diversos tipos de estragos. Nos circuitos mais sensíveis, como, por exemplo, nas placas mãe, uma fuga pode desviar os sinais ou modificar o modo como um circuito interpreta níveis lógicos, gerando erros ou mesmo instabilidades...

 

O professor deu uma paradinha para ajustar o componente que estava trocando, antes de continuar:

 

- Mas, é nos circuitos de alta tensão que temos os problemas maiores, como no caso deste monitor. (Esta estória foi escrita quando eram usados os monitores de vídeo com cinescópios, que exigiam fontes de alta tensão para funcionar.)

 

- Sim! Os monitores possuem circuitos de tensões muito altas ou "MAT", diferentemente das unidades de sistema que operam apenas com 5 e 12 Volts. - Beto estava mais "por dentro" do hardware do PC, e demonstrou isso.

 

O professor foi em frente com suas explicações:

 

- Os monitores de vídeo comuns possuem cinescópios semelhantes aos televisores comuns. Nestes cinescópios, os elétrons que geram a imagem quando incidem numa tela recoberta de fósforo, são acelerados por campos elétricos muito fortes. Esses campos são gerados com altíssimas tensões que podem passar dos 20 000 volts, dependendo do tamanho da tela do monitor.

 

• Caramba! Mais de 20 000 volts! É por isso que existe a recomendação de não

mexer no interior destes aparelhos quando ligados, ou tentar repará-los sem conhecimentos técnicos apropriados! - Cleto não tinha uma idéia de que as tensões eram tão altas.

 

• Pois é! Os 20 000 volts de um monitor podem perfeitamente "fulminá-lo" se você

tocar no ponto errado quando ele estiver funcionando! - o professor advertia o aluno - Mas, o que interessa no caso, é que tensões muito altas são difíceis de isolar. Quando qualquer sujeira se acumula nos circuitos de alta tensão, ou mesmo a umidade aumenta, essa alta tensão não consegue mais ser isolada, ocorrendo os faiscamentos ou centelhamentos.

 

- Faiscamentos?

 

- Sim! Imagine dois fios próximos que estejam isolados pelo ar. Se a umidade aumenta, e as impurezas do ar também, ele não consegue mais isolar a tensão elétrica entre estes fios. Se esta tensão for suficientemente elevada, as cargas elétricas conseguem "saltar" entre os fios, na forma de uma faísca elétrica!

 

- Como um raio! - Cleto fez uma boa comparação.

 

O professor aproveitou a "deixa":

 

- O raio é um exemplo, em maior escala, do que ocorre. As nuvens estão carregadas de eletricidade, ou seja, manifestam uma elevada tensão que é isolada pelo ar, enquanto ele estiver suficientemente seco. As cargas "ficam quietas" nas nuvens. Quando começa a chover, e consequentemente aumenta a umidade, o ar não isola mais a eletricidade acumulada e, por isso ela pode fluir na forma de uma enorme descarga.

 

- Mas, o que tem a ver isso com os monitores de vídeo? - Cleto ainda não tinha relacionado as coisas, por não entender o funcionamento dos monitores.

 

O professor precisou detalhar melhor isso:

 

- Para gerar as altas tensões dos cinescópios dos monitores, são usados circuitos que convertem os 110 volts ou 220 volts da rede de energia em uma altíssima tensão. O componente mais crítico desse circuito é um transformador, que também encontramos nos televisores comuns, e que é denominado popularmente "flyback". Na verdade, seu nome correto é "transformador de saída horizontal", pois ele também é responsável pelo sinal que faz o feixe de elétrons "varrer" a tela no sentido horizontal, num vai e vem que gera as linhas da imagem.

 

- A chamada varredura horizontal? - interrompeu Beto.

 

- Exatamente! Mas, o problema é que este componente é especialmente sensível à umidade, dependendo de sua origem e modo de fabricação. E é exatamente isso que ocorreu neste monitor.

 

Mostrando o flyback retirado do monitor, o professor explicou aos seus alunos:

 

- Neste monitor, de qualidade não muito boa, foi usado um flyback sem blindagem plástica hermética, o que facilitou a penetração de umidade e acúmulo de sujeira. O resultado é que, quando esta umidade aumentou o suficiente para não isolar mais a alta tensão, começaram a "saltar faíscas" entre seus enrolamentos. O monitor começou a "dar estalos" de vez em quando, e a imagem a "sumir" por uns instantes, quando isso ocorria.

 

- Já vi isso acontecer em televisores também! - interrompeu Beto.

 

- E acontece mesmo! Os televisores também usam os flybacks! Mas, o que é ruim é que, quando ocorrem estes estalos devido a uma faísca, essa faísca pode ir queimando os isolamentos do componente até o ponto em que ele "entra" em curto e o aparelho não funciona mais!

 

- Puxa!

 

- O processo de deterioração é simples. Tudo começa com uns estalos que, normalmente acontecem quando o aparelho é ligado, pois está frio e úmido. Depois de algum tempo de funcionamento, os estalos desaparecem quando o aparelho esquenta e a umidade é expulsa. No entanto, depois do ciclo de ligar e esperar para sumir os estalos, se repetir algumas vezes, o componente acaba sendo definitivamente danificado e o monitor deixa de funcionar!

 

- Mas, nos monitores modernos isso não ocorre, não é verdade?

 

O professor explicou então:

 

- Sim, este problema de flyback é mais raro, mas podem ocorrer faiscamentos e fugas em outras partes importantes, com consequências igualmente perigosas.

 

- E o que devemos fazer para evitar isso? Se não fizermos nada, vamos precisar de uma enorme coleção de flybacks para atender a todos os computadores da escola!...

Cleto estava preocupado com a extensão do problema.

 

- Ah, sim! É claro que devemos levar em conta possibilidade de que os computadores funcionem em qualquer clima, sem problemas. Para isso temos uma solução ‚ simples.

 

Pegando um saquinho que estava na mesa o professor explicou:

 

- Isso é sílica-gel! Trata-se de uma substância higroscópica!...

 

- Higro-o-quê? - perguntou, surpreso, Cleto.

 

- Higroscópica! Uma substância que absorve umidade. A sílica-gel vem em saquinhos nas caixas de aparelhos sensíveis a umidade. Ela absorve toda a umidade que possa ameaçar o aparelho na armazenagem e transporte, evitando que cause problemas.

 

- Já vi! Parece areia! - Beto era mais bem informado.

 

- Na verdade, existem dois tipos de sílica-gel. Uma é branca em grãos pequenos, como a areia, e quando está seca fica azulada quando está saturada e não consegue mais absorver a umidade. A outra é azul quando seca e adquire uma cor rosada quando saturada.

 

- E o que acontece quando ela fica saturada?

 

- Ela não consegue absorver mais a umidade! Ah! Mas não significa que ela precise ser jogada fora. Basta colocá-la num forno quente que a umidade é expulsa e, com isso, ela pode ser usada novamente.

 

Beto já tinha percebido a utilidade da substância:

 

- Basta então colocar saquinhos de sílica-gel nos computadores que eles ficam protegidos!...

 

- E, por um bom tempo! Um saquinho em cada unidade de sistema, monitor e periféricos sensíveis pode absorver a umidade durante meses, evitando os problemas que vocês viram! Quando cobrimos o equipamento com a capa, depois de desligado, evitamos que a umidade externa penetre e deixamos que a sílica-gel absorva a umidade interna. E, quando em funcionamento, o próprio calor dos componentes, expulsa a umidade evitando problemas...

 

Dizendo isso o professor pegou uma folha de papel e pediu um favor para Beto e Cleto:

 

- Não estou querendo interromper a troca do flyback agora. Corram até o Cipriano e entreguem-lhe este papel. Ele vai a capital fazer compras. Estou pedindo uns 2 quilos de sílica-gel para proteger todos os computadores da escola. Aproveitem e peçam para a zeladora, Dona Maria, que faça uns 100 saquinhos de pano do tamanho que vocês viram aqui para que a gente depois encha com a sílica-gel. Levem este como amostra...

Beto e Cleto, que entenderam bem o que o professor pretendia, correram até o Cipriano com o pedido. Chegaram bem a tempo, pois ele estava se preparando para sair, com a perua da escola, rumo a capital.

 

Outras pessoas tinham também tinham suas listas de coisas para pedir:

 

- O diabo dessa nossa cidade é que ela não tem todas as coisas que preciso! Na próxima semana é o aniversário do professor Salgado e não temos o principal para o bolo! Traga o que está nessa lista! - comentava a cozinheira.

 

Seu Joaquim, o servente, também tinha sua lista de coisas.

 

- Preciso de pregos e também de uma junção de 3/4 para a canalização. Preciso acabar com o vazamento do banheiro, de uma vez por todas!

 

O monitor que o professor Ventura reparou estava perfeito. Bastou ajustar os circuitos de varredura, para se adaptar às características do novo flyback, para que a imagem voltasse ao normal.

 

- Perfeito! Mas, e se o problema voltar? Na verdade acho que temos outros computadores com o mesmo sintoma!

 

- Não se preocupe! - informava o professor - Já estamos providenciando uma solução definitiva para o problema!...

 

De fato, logo que o Cipriano chegou da cidade, um pacote com uns 2 quilos da substância semelhante à areia foi deixado no laboratório. O professor, que nem olhou para o pacote, pediu para Beto e Cleto levarem a sílica-gel ao laboratório de química e encherem os saquinhos, grampeando-os depois, para não deixá-la cair. Se bem que a sílica-gel seja inofensiva, não apresentando propriedades tóxicas, o fato de dois estudantes pretenderem "manejar produtos químicos", no laboratório não agradou o auxiliar de ensino, que não a conhecia.

 

Vendo os dois rapazes entrar no laboratório e sendo informado do que deveriam fazer foi enfático:

 

- Nada disso! Deixe isso para quem sabe mexer com substâncias químicas e não adianta dizer que é inofensiva! Todas são perigosas!

 

Dizendo isso, "tomou conta" do material e dispensou os rapazes.

 

- Vocês dizem que o professor Ventura mandou encher todos os saquinhos com esta substância e depois fechar! Pois bem, podem ir! Quando terminar levo para o professor, fiquem tranquilos...Beto e Cleto, que ficariam livres da tarefa para acompanhar o professor, até que gostaram da ideia. Quem ainda resmungou um pouco foi o auxiliar verificando o conteúdo do pacote:

 

- Por que ser que o "velhote" deseja saquinhos com este negócio? Será mais alguma experiência maluca que ele está tramando?

 

No final da tarde, uma caixa contendo os 100 saquinhos da substância foi entregue ao professor que agradeceu.

 

No dia seguinte o velho mestre chamou Beto e Cleto, informando-os que teriam um "belo" trabalho pela frente: abririam todas as unidades de sistema, monitores e periféricos da escola e colocariam no interior de cada computador um saquinho, devidamente posicionado de modo a não afetar a ventilação de qualquer componente. Dividindo a tarefa, cada um empunhando uma chave Philips e um "estoque" de saquinhos, os três se separaram.

 

- Mãos à obra!

 

No final do dia a tarefa estava completa, com todos os computadores protegidos. O Professor Ventura, Beto e Cleto foram para suas casas, para o merecido descanso. Era um fim de semana prolongado (a sexta feira seria feriado) e eles só voltariam à escola 3 dias depois!

 

E foi neste intervalo de três dias que muitas coisas interessantes aconteceram envolvendo. Evidentemente, a "velha" informática esteve envolvida, e por motivos bastante interessantes.

 

Como muitas escolas técnicas do interior, a de Brederópolis ficava num enorme terreno nos limites da cidade e, portanto, cercada por rica vegetação, muitos animais e sobretudo insetos. Ah! Os insetos. Naquela época, tanto pelo calor e umidade favoráveis, como pelas ricas culturas das proximidades, as formigas proliferavam. Estavam em toda a parte, invadindo despensas e silos. No entanto, repentinamente, por algum motivo desconhecido, decidiram que a escola seria um ótimo lugar para se estabelecerem.

 

Na verdade, não era bem a escola que estava sendo visada. O "alvo" real da invasão estava bem definido: os computadores e seus periféricos!

 

Durante três dias e três noites os pequenos insetos, farejando os seus objetivos com as suas sensíveis antenas, formaram extensas filas. E, sem se preocupar com qualquer obstáculo, os insetos alcançaram e ocuparam seus alvos, transferindo seus ninhos, formando colônias secundárias com milhares de indivíduos... na verdade, milhões de indivíduos! A descoberta da invasão foi uma mistura de sustos, picadas e expressões de nojo, indignação e medo.

 

- Que interessante este seu novo "screen-saver"! - comentou o João, da secretaria, que

com seus grossos óculos, não era lá grande coisa "das vistas", ao observar a tela do monitor do computador do Josias.

 

- Novo screen-saver? Não mudei nada?

 

- Como não! - replicou João - O anterior era mais interessante que este. Janelinhas voadoras são mais alegres do que formiguinhas caminhando!

 

- Formiguinhas?

 

Indo rapidamente ao computador, que não estava sequer ligado ainda, o funcionário levou um susto:

 

- Screen-saver que nada! São formigas de verdade!

 

A segunda foi Dona Maria, uma digitadora que, ao enfiar um disquete no drive, recebeu uma mensagem preocupante:

 

Data error reading drive A:

Abort, Retry, Fail?

 

Depois de tentar algumas vezes acessar os arquivos do disquete, ela retirou-o do drive para exame e o que encontrou foi o início a confusão:

 

- Ai! Formigas!... Está cheio de formigas!...

 

Levantando-se rapidamente, ela descobriu então que não era apenas o drive o afetado: todo o computador estava cheio de formigas!

 

- Saiam do drive, dos furos de ventilação e de todas as partes!

 

O Argemiro também estava com problemas. Ligando o computador, ele não funcionou. Precisou colocar um disquete de boot para acessar o sistema operacional, mas:

 

- Estava tudo "bagunçado"! O teclado não funcionava.

 

Quando foi examinar o cabo do teclado, se estava bem conectado, teve uma surpresa desagradável:

 

- Formigas! Milhares delas entrando e saindo do computador! Vinham por uma fresta da janela numa densa fila!

 

A coisa não parou por aí. Logo os outros funcionários, não sem levar algumas picadas, descobriram que todos os computadores, tinham sido invadidos! Milhares, milhões de formigas entravam e saiam das unidades de sistema, monitores, impressoras, etc.!...

 

- Evacuem a escola! Fomos invadidos!

 

- Precisaremos dedetizar todos os computadores! - informou preocupado o Diretor.

O professor Ventura que chegava à escola correndo, pois tinha recebido a notícia do ocorrido, foi mais cauteloso.

 

• Espere! Se jogar inseticida nos computadores acaba com eles!

 

- Mata os vermes, inclusive - comentou Cleto, com uma piada inoportuna, referindo-se aos "worms" ou vermes de computadores.

 

Mas, o problema não era apenas eliminar as formigas, mas sim saber, por que "diabo" elas invadiram justamente os computadores. O professor achava que tinha algo muito estranho atraindo os insetos e ele gostaria de saber o que era. Segredou isso a Beto e Cleto, que chegaram logo em seguida.

 

- São antropófagas! Comem vírus! - arriscou Cleto.

 

- Vírus açucarados! - comentou Beto, de bom humor, mesmo diante da perspectiva de que todos os computadores estivessem inutilizados.

 

O professor, preocupado, não deu muita importância aos comentários bem humorados de Beto e Cleto. Estava mais é precisando de ajuda:

 

- Vamos abrir um computador e ver o que estes insetos estão realmente fazendo. Talvez possamos descobrir o motivo da invasão.

 

Levado ao laboratório, não antes sem causar algumas desagradáveis picadas, o computador foi aberto:

 

- Está infestado! - percebendo que elas se concentravam num canto da caixa da unidade do sistema, o professor espantou os insetos com um pedaço de madeira quando então percebeu a presença dos saquinhos de sílica-gel. Mas, a sílica-gel tinha uma aparência estranha! Estava "melada"! Foi então que o velho mestre percebeu que poderia estar ali a causa da invasão:

 

- Esperem aí! Desde quando sílica-gel "mela"! Que diabo de sílica-gel vocês andaram pondo nos saquinhos?

 

Beto e Cleto,olharam um para o outro e, preocupados, começaram a entender:

 

- Nós não! O auxiliar é que fez tudo!

 

Levantando o saquinho, ainda cheio de formigas, o professor compreendeu então a troca. Tocando de leve no saquinho melado ele provou:

 

- Açúcar! Açúcar cristal, em lugar de sílica-gel!... Açúcar cristal de confeiteiro!

- Caramba! É "igualzinho" a sílica-gel!

 

Mas, o professor tinha outra preocupação:

 

- Mas se foi colocado açúcar nos saquinhos, onde foi parar o "diabo" da sílica-gel que mandamos comprar? O Cipriano não nos informou nada, e recebemos o pacote aparentemente em ordem? - o professor disse isso com uma expressão preocupada.

 

Pensando um pouco ele ainda perguntou:

 

- Quem mais poderia usar açúcar cristal aqui na escola além da cozinheira...

 

- Chi! É isso mesmo! - exclamou Beto - Vi a cozinheira fazendo um pedido de algumas coisas para o bolo de aniversário do professor Salgado. E o que mais vai num bolo além da farinha e que não tenhamos aqui em Brederópolis?

 

- Açúcar cristal!...

 

Saindo correndo os três chegaram a sala do diretor bem no momento em que o enorme bolo, cercado pelos funcionários era trazido.

 

- Puxa, professor íamos mesmo chamá-lo para...

 

Não houve tempo para a frase ser completada. Na pressa, tentando evitar que o bolo fosse comido, o professor tropeçou e foi cair justamente sobre ele...

 

Ploft!

 

Ajudado pelos presentes ele teve uma reação bem esquisita:

 

- Ainda bem!...

 

- Ainda bem?

 

O professor, melecado, pode então explicar a troca de pacotes que trouxe as formigas para os computadores. O bolo? Ora, a sílica não é venenosa, mas de qualquer maneira ele não seria "comestível".

 

- Além disso não atrairia formigas!

 

- Ora! Bem que notei que o açúcar estava meio "esquisito"! - disse dona Maria, a cozinheira. Coloquei um pouco na água e ele não dissolveu!

 

No dia seguinte, enquanto o Cipriano ia à cidade vizinha, para trazer novamente a sílica-gel gasta no bolo e o açúcar, comido pelas formigas, o professor Ventura, Beto e Cleto trabalhavam arduamente numa tarefa interessante: limpar os computadores, monitores e periféricos.

 

Suando, ao manejar a escova e um aspirador de pó, o professor comentava:

 

- Devíamos ter pedido para o Cipriano trazer uma ferramenta muito importante para o trabalho com computadores.

 

- Ferramenta? - perguntou Beto curioso.

 

- Sim! Um aspirador de formigas. Um grande, faminto e narigudo tamanduá bandeira!

 

iam rir quando um forte grito de mulher ecoou por toda escola. Todos correram para sua origem: a secretaria. Encontraram então dona Maricota, sobre uma cadeira apavorada apontando para um canto.

 

• Formigas não podem ser tão apavorantes! - comentou Cleto.

 

• Depende do tamanho - completou Beto.

 

O professor observando melhor o local, percebeu então que a causa dos gritos não era uma formiga:

 

- Açúcar não atrai somente formigas!

 

Uma enorme barata, mais apavorada que a própria secretária, saía do computador e sumia por baixo de um armário.

 

 

Artigo publicado em 1992

 

NO YOUTUBE


NOSSO PODCAST