Esta é uma estória que envolve dois outros personagens, que não são Beto e Cleto e que criei em 1965, mas que foi atualizada para que eles substituíssem os originais. Sempre gostei de escrever, e as estórias de ficção me despertavam especial interesse. Na revista americana Popular Electronics havia dois personagens que protagonizavam aventuras no mundo da eletrônica desde 1948 e eu os acompanhava desde o início de minha carreira. Suas estórias é que me deram inspiração para criar depois de muitos anos o Prof. Ventura, Beto e Cleto. Escrevi diversas estórias com Juca e Chico que eram dos nomes da versão brasileira já que John T. Frye, o criador americano tinha como personagem Carl e Jerry, dois técnicos de TV. A que apresento é de 1966, mas tenho algumas de até antes e que agora recupero. A estória aqui reproduzo, inspirada na série original e usando os nomes dos personagens traduzidos na época pela versão brasileira, Juca e Chico, foram transferidos para os nossos bem conhecidos Beto e Cleto. A data é 15 de setembro de 1965. Algumas modificações pequenas foram feitas no sentido de adequar o texto aos nossos tempos, até com introdução de tecnologia mais moderna. Mas a estrutura se mantém. Não me lembro onde a publiquei, pois a recuperação foi feita dos originais de 1966. Bastante ingênua, era para publicações juvenis ou mesmo no jornal da escola em que estudei.

 

 


 

 

Em cada ramo de trabalho, existe uma linguagem especial para indicar coisas relativas como na eletrônica, em que ela é usada para indicar componentes, materiais, procedimentos e outras necessidades da atividade.

Na eletrônica, por exemplo, se dois profissionais ou mesmo amadores se encontrarem e falarem dos seus respectivos trabalhos, certamente eles empregarão uma linguagem própria “incompreensível” para qualquer pessoa que não tenha a mesma formação.

E foi assim que Beto e Cleto, usando seu “código secreto” conseguiram sair de uma situação embaraçosa numa festinha. Mas, vamos a estória:

Os dois amigos conversavam sobre a festa que haveria naquela noite na prima de Cleto para a qual os dois haviam sido convidados.

- Pois é – dizia Cleto, com ares de quem não estava gostando de alguma coisa – a Marcia, amiga da minha prima vai estar lá, e você sabe quanto eu não gosto dela!

- Eu me lembro da última vez que vocês estavam juntos. Ela estava doida por você e eu creio que esteja hoje ainda mais.

- O pior, - concluiu o Gorducho Cleto – é que eu não vou ter jeito de escapar desta vez se você não me ajudar.

A noite de verão estava clara, com o céu pontilhado de estrelas, ofuscados pelo brilho da lua cheia. Não poderia ser um tempo mais apropriado para uma festa de jovens. Tudo estava bom para todos, menos para Cleto, preocupado com a presença da Marcia. De fato, era uma boa moça, mas não era alguém muito agradável. Por traz de seus óculos de lentes grossas havia dois olhinhos penetrantes prontos para censurar qualquer erro de alguém e sob eles uma boca que nada mais servia do que para falar. E como falava! E era isso justamente que Cleto temia. Jovem e pacato, gostava de paz, louco para tirar uma soneca e um grande amigo do silêncio. Completamente fora de ressonância.

Lá pelas 7 da noite, Cleto passou pela casa de Beto e lá foram eles para a casa da prima.

Para infelicidade de Cleto que os recebeu foi justamente a Marcia com prima. É verdade que o gorducho apavorado tentou fugir, mas não dava mais. Foram para o salão onde já estavam muitos convidados, e de braços dados com a moça com quem não gostaria de estar. Juca vinha atrás com a prima do amigo.

Num relance, cutucou-o e disse em voz baixa que o ajudaria.

Demorou um pouco para que Cleto se livrasse da moça, e quando conseguiu, foi reunir-se com os amigos num grupinho que conversava animadamente. As moças formaram um outro grupo, onde também conversavam.

Em dado momento, porém, Beto sentido sede foi até a mesa pegar uma bebida na mesa. Enquanto fazia isso, entretanto, pode ouvir claramente o que algumas garotas conversavam.

Prestando atenção, pode ouvir o nome do amigo. Cleto estava em “perigo”.

Marcia havia apostado com a prima e as outras amigas que conseguiria beijar Cleto de qualquer maneira. As garotas, rindo, acharam impossível, pois além de saberem que ele não gostava muito da garota, ele era muito tímido. Juca tinha de “proteger” o amigo.

Juca afastou-se da mesa apressadamente, procurando pelo amigo. Logo que o achou, queria levá-lo para um canto da sala para passar ao amigo o que tinha ouvido, mas era tarde demais. Marcia o abordou antes, convidando-o para uma “conversa” no terraço.

Cleto, sem saber de nada, acompanhou-a. Beto precisar avisar o amigo, quando então teve uma ideia. Por que não usar uma linguagem técnica para comunicar o fato. Então surgiu uma conversa numa “linguagem” bastante interessante que mostra o senso de improvisação dos dois.

- Ei, Beto. Preciso ter um QSO urgente com você. Abra as antenas e ponha volume no seu alto-falante.

Marcia olhou para os dois fazendo-os perceber que não estava entendendo. Mas não disse nada. Por outro lado, Cleto sabia do que o amigo estava falando e percebendo que deveria usar uma linguagem semelhante respondeu:

- OK macanudo, manda o torpedo (*)

(*) Esta é a gíria usada pelos radioamadores, ainda comum em nossos dias. Podemos “traduzir” como: Perfeito, entendendo colega. Diga o que você deseja transmitir.)

Beto continuou:

- Antena aberta! O seu cristal apostou uns kilohertz contra você. Pretende dar um 88 em você, e se isso acontecer, sua corrente de placa vai subir e você vai sair do ar!

Marcia prestava atenção, mas não entendeu nada. Cleto, pelo contrário, percebeu imediatamente do que se tratava. A “tradução” seria: preste atenção. Sua companheira apostou algo que vai dar um beijo (88 significa, na realidade beijos e abraços – cumprimento usado pelos radioamadores) em você se isso acontecer você não gostar.

Cleto, percebendo o que estava acontecendo, quis saber mais detalhes. Ele perguntou então:

- 100% entendido. Manda o resto que a ave do paraíso tá fora de ressonância.

Tradução: compreendi a mensagem. Diga mais que a Marcia não está entendendo – ave do paraíso é a gíria para pessoas que escutam as conversas dos radioamadores – algumas dessas gírias eram usadas na época em que o artigo foi escrito e duram até hoje.

Beto foi adiante:

- OK. Tudo que você tem de fazer é ficar com a câmera e microfones abertos e não deixar que nenhum 88 lhe atinja. Se isso acontecer os hormônios de seu cristal vão queimar seus capacitores. QRT, mas cuidado. Chocolateira no ar.

(Tradução: entendido, fique de olhos e ouvidos abertos e não deixe que ela tente beijar, pois isso é que as amigas querem. Vão lhe perturbar por um bom tempo.)

Cleto entendeu tudo, e com um sorriso, por ter sido prevenido a tempo, agradeceu ao amigo.

- Obrigado, depois te dou uma válvula nova. Você modulou 10%%.

Marcia não sabia o que fizer. Finalmente conseguiu levar Cleto para o terraço. Agora mais à vontade, perguntou.

- Que língua vocês falam? Não entendi nada do que disseram.

Cleto, apenas sorriu, mas não se ofereceu para “traduzir” o que haviam conversado.

No terraço, Marcia procurava de qualquer maneira se aproximar de Cleto, que se sempre se afastava, mudava de assunto ou disfarçava de outra forma.

A prima de Cleto observava tudo com as amigas, assim como Beto.

Quase uma hora se passou, até que Marcia, saiu desanimadamente do terraço. Cleto, saiu em seguida, procurando logo por Beto. Mas, ele nem mesmo se aproximou, a prima se aproximou com cara de poucos amigos.

- O que deu em você, primo? – esbravejou a menina – Tá certo de que você não goste muito dela ou coisa assim, mas o que você fez é demais.

Beto, apenas observava. Cleto então abriu o gogo:

- Escute, cara prima. Eu não caio na de vocês. Vocês fizeram uma aposta contra mim. Soube disso.

Marcia se aproximou quando ouviu a conversa.

- Impossível! Ninguém falou com Cleto desde que nós fizemos a aposta, a não ser o Beto que conversou numa língua estranha...

Ela então percebeu o que tinha acontecido.

- Então é isso! Agora entendo. Beto ouviu nossa conversa, ou alguém lhe contou, e esse “miserável” contou tudo ao Cleto na minha frente e eu não percebi.

Beto e Cleto não puderam esconder um ar de riso diante da descoberta de Marcia.

É claro que depois de pedidos de desculpas, fizeram as pazes e até acabou havendo um fato inesperado. Cleto passou a gostar da Marcia, e se tornaram namorados.

 

Artigo publicado em 1965

 

 

 

 

 

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