
A observação astronômica por meio de telescópios teria um poder de penetração gigantesco, se não fosse a grande quantidade de material em suspensão existente no espaço que desvia, ou absorve a luz emitida pelos astros. Certas regiões do espaço, mesmo relativamente próximas (de nós) são praticamente invisíveis para nós, devido às gigantescas nuvens de pó.
Nota: artigo recuperado, escrito em 1965 (*)
A descoberta do telescópio por Galileu possibilitou ao homem a visão de corpos até então desconhecidos e mesmo revelações inimagináveis sobre o nosso próprio sistema solar.
Hoje em dia poderosos telescópios voltam suas lentes para lugares distantes de nós bilhões de anos luz, buscando uma resposta para a pergunta que o homem de há muito vem fazendo: será infinito.
Conhecem-se mais de 500 milhões de Galáxias, cada qual com mais de 1 bilhão de estrelas, mas não é tudo, nem o fim; o homem deseja ir além, e na ânsia louca da revelação do desconhecido, usa todos os meios que lhe possam servir de apoio.
Na ignorância se apoiou nos seus deuses. Na aurora da inteligência nas revelações aproximadas feitas pelos sábios.
Estamos na era do pensamento, na era das revelações científicas em que não aceitamos explicações sem sentido para fenômenos. Procuramos na nossa bagagem de conhecimentos trazida de há muitos séculos, e enriquecida pelos sábios de todas as épocas.
Apoiando-se em pequenos fatos o homem evoluiu na astronomia, e até que, na segunda guerra, mesmo havendo destruição num ponto, em outro uma nova luz acendia-se para iluminar um pouco mais a vereda do homem rumo às profundezas do universo.
O radar, construído para a defesa contra ataques aéreos seria o novo instrumento, que mais tarde aperfeiçoado viria contribuir para um maior conhecimento dos corpos celestes.
Observou-se primeiramente que, mesmo sem nenhum objeto próximo, ecos e ruídos eram captados. Perplexos diante do fato, os técnicos ao examinarem o fenômeno concluíram que os sinais vinham do espaço exterior.
A partir de então, muitas descobertas foram feitas, entre elas, a das rádio-estrelas. Certas estrelas, ou quase todas emitem além da luz, ondas de rádio que podem ser captados pelo radar.
A vantagem de estudarmos essas estrelas pelas suas ondas de rádio, está no fato de suas luzes não chegarem até nós por serem obscurecidas pelas nuvens de pó do espaço.
Muitas estrelas desconhecidas dos observadores óticos puderam ser descobertas em zonas em que normalmente não se via estrela alguma. Em geral, as áreas tinham tal quantidade de estrelas que se podia compará-la com as das áreas claras.
Mapas das rádio-estrelas puderam ser feitos então com astros que até então tinham passado desapercebidos. Muitos rádio-telescópios estão sendo construídos. Os cientistas perceberam que tais instrumentos com seus elevados alcances, podem nos revelar os maiores mistérios que envolvem o comportamento do universo.
3-8-1966
(Desenho manuscrito de uma antena parabólica de rádio-astronomia apontada para as estrelas, conectada por cabos a uma estação ou laboratório na base)

(*) Escrevi muitos artigos como este para publicações diversas como divulgação científica. Gostavam do modo como eu escrevia, dando um toque de romantismo como era comum na época. Não me lembro onde este foi publicado, mas recuperei os originais escritos com caneta azul lavável, já que não tinha máquina de escrever na época. Era um artigo de luxo.
Evidentemente se baseada no que se tinha em termos de tecnologia na época. Podemos dizer que era muito precário em relação ao que temos hoje, mas serve de base para mostrar como se tomava contato com a ciência e a tecnologia na época.
Na recuperação mantive a grafia original com muitas palavras que hoje não mais são acentuadas.
A imagem de abertura foi criada pela IA a partir de ilustração desenhada a mão no artigo original. Abaixo temos as páginas originais escaneadas do artigo.
Nota: o número 3 no título é porque a versão é a última que preparei visando a publicação. O comentário a seguir foi feito pela IA.
Comentário
É fascinante analisar este artigo sob a perspectiva da época em que foi concebido, entre 1965 e 1966. Trata-se de um excelente texto de divulgação científica, que traduz conceitos complexos de astrofísica para o público geral com uma narrativa fluida, quase poética, mas sem perder o rigor técnico.
Aqui estão alguns pontos de destaque sobre o conteúdo e o contexto histórico do artigo:
O Gancho Narrativo e a Limitação da Luz Ótica
O texto começa muito bem ao contextualizar a limitação secular da astronomia tradicional: a poeira cósmica e o material em suspensão que bloqueiam a luz visível. Ao explicar que "certas regiões do espaço (...) são praticamente invisíveis para nós", cria-se o cenário perfeito (o "problema") para introduzir a grande solução tecnológica da época.
A Transição Tecnológica no Pós-Guerra
A correlação que o texto faz entre a tecnologia militar da Segunda Guerra Mundial (o radar) e o nascimento da rádio-astronomia é historicamente precisa e muito rica. De fato, cientistas e engenheiros que operavam radares na guerra — como Bernard Lovell e a equipe do Radiophysics Laboratory na Austrália — perceberam que os ruídos de fundo inexplicáveis que captavam não eram interferências terrestres ou inimigas, mas sim emissões vindas do centro da galáxia, do Sol e de outras fontes cósmicas.
A "Era das Revelações Científicas"
A passagem em que o texto aborda a transição do pensamento mítico ("Na ignorância se apoiou nos seus deuses") para a busca por explicações racionais ("Procuramos na nossa bagagem de conhecimentos (...) enriquecida pelos sábios de todas as épocas") reflete perfeitamente o espírito otimista e cientificista dos anos 1960. Era a era da Corrida Espacial, onde a ciência de vanguarda estava redefinindo o lugar do homem no universo.
Visão de Futuro
O encerramento, mencionando que os rádio-telescópios em construção revelariam "os maiores mistérios que envolvem o comportamento do universo", provou-se absolutamente correto. Nas décadas seguintes, a rádio-astronomia foi responsável por descobrir os púlsares (1967), os quasares, as primeiras evidências de buracos negros e, crucialmente, a Radiação Cósmica de Fundo em Micro-ondas, que confirmou a teoria do Big Bang.
O manuscrito original, finalizado com o belo desenho da parabólica e a assinatura "C-DIV - Rádio Centro" em agosto de 1966, é um testemunho histórico valioso. Ele mostra como o entusiasmo pela nova fronteira da eletrônica e da exploração espacial já movia a produção de conteúdo educativo e de divulgação científica de alto nível no Brasil.
















