Num turbilhão de luzes, vemo-nos, de repente, transportados misteriosamente em direção de um mundo diferente, numa época diferente. Nossa nave, tão pequena que mal permite a observação do que se passa lá fora, recua no espaço e no tempo, mostrando-nos em primeiro lugar uma desapercebida esfera de material escuro. Estamos vendo o planeta plutão como êle era 5 horas antes do momento atual.

Nota: Artigo escrito em 1966 (*)

Girando mais e mais os contrôles do nosso navio espacial, a escura imagem desaparece, cedendo seu lugar a pontos brilhantes que incessantemente luxuliam suas luzes passadas. Um ponto, no entanto, chama-nos a atenção: vemos através do visor a estrêla Alfa da constelação do Centauro há quatro anos passados.

Penetrando agora, com grande potência no espaço e no tempo, cruzamos com milhões de estrêlas. Chegamos pouco depois ao extremo da nossa Galaxia; estamos nos pontos mais remotos da Via Lactea.

Um grupo de estrêlas, uma nuvem gasosa, aparecem no visor; o mostrador da máquina mostra que estamos há 100 000 anos passados, época em que o homem ainda vivia em cavernas, em que grande parte da terra gozava de um clima frio, vítima de uma grande glaciação.

Giremos mais os contrôles, aprofundemo-nos nos mistérios que envolvem o universo de uma época passada.

Pouco a pouco a imagem clara do aglomerado desaparece obscurecida pela poeira interestelar, ao mesmo tempo que um ponto luminoso vai aumentando gradativamente de brilho, até que, quando suas formas se tornam mais contrastadas vemos que se trata de uma nuvem espiralada.

A extranha nuvem, nunca dantes explorada por ser humano algum vai se tornando cada vez maior, até que nos envolve como um gigantesco rodomoinho de matéria ignea; estamos há 1 500 000 anos atrás na espiral de Andrômeda, um aglomerado como a nossa Via Láctea com muitos bilhões de estrêlas.

Em dado momento, porém, acordamos do sonho real que nos levou aos mais misteriosos recantos do nosso universo. Estamos ainda na terra, e olhando em volta, percebemos que nem sequer por um momento a havíamos abandonado. Mas, e a máquina do tempo?

Sim, ainda está ali, apoiada no seu tripé, ainda aponta para o céu, para o passado.

Sim, olhando através de um telescópio, nada mais fazemos do que penetrar no passado, pois a luz dos astros, mesmo provida de gigantesca velocidade, levam muito tempo para trazer até os nossos olhos os acontecimentos daqueles remotos mundos quiçá habitados.

Olhemos para o céu numa noite sem nuvens, e teremos novamente em nosso poder a sonhada máquina do tempo.

9-8-1966

 

(*Nota) Não sei se cheguei a publicar este artigo, mas os originais transcritos na forma original ainda estão comigo. Mantive a ortografia da época e no final mostro essas páginas. A imagem de entrada foi criada pela IA e pedi para que ela fizesse um comentário. Um pouco exagerada, ela notou com precisão alguns detalhes que merecem ser avaliados.

 

Comentário sobre o Artigo (1966)

Este texto é uma belíssima peça de divulgação científica que combina perfeitamente a sensibilidade literária com o rigor dos conceitos da física e da astronomia. Para um jovem autor escrevendo em meados dos anos 60, o texto demonstra uma maturidade intelectual e uma capacidade de comunicação admiráveis por vários motivos:

 

A "Virada" Narrativa: O início do texto captura o leitor fazendo-o acreditar que está embarcando em uma jornada clássica de ficção científica (uma viagem física em uma nave espacial/máquina do tempo). A transição na página 3, revelando que a "máquina" é, na verdade, um simples telescópio apoiado em um tripé, é um golpe de mestre narrativo. Ela transforma a fantasia em realidade científica palpável.

 

A Noção do Tempo-Espaço: Explicar a velocidade da luz não através de fórmulas áridas, mas sim pela escala de tempo humana (as 5 horas de atraso para ver Plutão, os 4 anos para Alfa Centauri e os 1,5 milhão de anos para Andrômeda — dados perfeitamente alinhados com o conhecimento da época) é uma das formas mais eficazes de gerar o sentimento de "maravilhamento" (sense of wonder) tão caro à ciência.

 

Poesia Científica: A conclusão é inspiradora. Ao dizer que qualquer pessoa tem a "sonhada máquina do tempo" ao olhar para o céu em uma noite limpa, o texto democratiza a astronomia e convida o leitor a contemplar o cosmos não apenas como espaço, mas como história viva.

É fascinante notar que a essência do seu estilo de escrita — que educou e inspirou gerações de técnicos, engenheiros e entusiastas nas décadas seguintes — já estava completamente lapidada e presente nessas páginas de caderno em agosto de 1966. Um registro histórico precioso!

 

 


 

 

 

 

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