
Muitas dúvidas têm aparecido, no que diz respeito à vida extraterrena, principalmente quanto ao tamanho dos seres que possam viver nessas biosferas. Uns dizem que planetas maiores teriam seres maiores, e que planetas menores teriam seres menores. Outros acham, por outro lado, que a forma e o tamanho dos seres dependeriam da gravidade dos planetas, o que é a quase a mesma coisa que os anteriores afirmam com a diferença que em Júpiter por exemplo, os seres seriam chatos, devido à grande atração, e pequenos no tamanho devido à dificuldade de locomoção, o que seria nesse ponto contrário aos anteriores.
Nota: Artigo de 1966 (*)
São dois grupos antagônicos, mas na minha opinião dois grupos errados, pois de maneira alguma, ao se examinar problema tão complexo, poder-se-ia levar em conta poucos fatores, ou um único, como naqueles casos. O ambiente rege totalmente as vidas que nele possam existir, assim deve-se levar em conta todos os fatores aí existentes.
Assim por exemplo, examinemos um planeta qualquer que tenha possibilidades de vida.
Deverá ter uma atmosfera, de gás que não seja quimicamente inerte.
Deverá ter temperatura média bem acima do zero absoluto, e abaixo do ponto de ebulição da água.
O fato de termos citado abaixo da ebulição da água, qualquer temperatura, pois poderia, em caso de temperaturas muito baixas existir vida latente. Quais seriam então as condições principais que regeriam o tamanho e a forma da vida aí existentes.
Se examinarmos a estrutura de um ser vivo, veremos que ela é mantida graças a forças de coesão molecular (ossos, músculos, etc) que se opõe à gravidade que tende a desmoroná-la.
Dessa maneira, um ser não poderá crescer indefinidamente, pois o seu peso cresce com o cubo de suas dimensões lineares, enquanto a resistência de seus ossos e músculos cresce com o quadrado dessas dimensões.
Chegará, pois um ponto em que o próprio peso do ser esmagará sua estrutura.
Isso, porém acontece na terra, onde os seres vivem imersos em um fluido de densidade muito baixa (o ar) e cujo empuxo pode ser desprezado. Se esse ser vivesse na água, o seu peso seria atenuado pelo empuxo, e ele poderia atingir tamanhos muito maiores, (a baleia por exemplo).
Conclui-se, pois que o tamanho de um ser depende da densidade do ambiente, e não da gravidade, ou do tamanho do planeta, que em alguns casos poderiam ter como consequência, a densidade dele.
Dessa maneira, a forma e o tamanho dos seres que habitassem um planeta, dependeriam da relação existente entre a densidade do ambiente, e a densidade do ser. Quanto menor fosse essa relação, maior tamanho poderá atingir o ser que aí viva, e mais esféricas serão suas formas.
É claro, que nesses lugares, a densidade dependeria da pressão, pois com maior pressão, torna-se maior a concentração do gás e, portanto, sua densidade. É uma ideia completamente absurda e sem fundamento, que os seres que eventualmente vivam sob regime de alta pressão, sejam chatos como que amassados pelo peso do ar.
Os que assim pensam, esquecem-se que a pressão interna, do corpo dos animais que vivem num determinado ambiente, é sempre igual à pressão externa do seu meio anulando assim, qualquer eventual amassamento.
Se assim não fosse; se os seres realmente fossem chatos num ambiente da alta-pressão, que formas teriam os peixes habitantes das grandes profundezas? Não, não são chatos, e isso é fato cientificamente comprovado.
O fato, é que numa atmosfera ou ambiente de alta densidade, os seres teriam facilidade em sustentar seus corpos, podendo assim, sem dificuldades, crescer em todos os sentidos adquirindo formas arredondadas.
É claro, que não é só da densidade que vai depender a forma dos seres que aí vivam. De muitos outros, dependem as formas, mas por enquanto, para nós, que ainda estamos presos no nosso mundo, tornam-se inacessíveis. Devemos esperar até o dia que possamos olhá-los de perto, o que ainda demorará um pouco.
11-2-1966
(*) Este é mais um dos muitos artigos sobre astronomia (astrobiologia) que escrevi em minha juventude e que provavelmente saiu em alguma mídia da época com que eu colaborava.
Mantive a grafia da época ao escanear e transcrever. Muitas palavras são hoje grafadas de modo diferente. A gravura foi feita pela IA assim como o comentário abaixo.
A data de confirmação registrada no documento é 11 de fevereiro de 1966
Comentário
. O artigo "Atmosfera e vida" é um exemplo fascinante de como a astrobiologia e a divulgação científica já eram tratadas com impressionante intuição e lógica física por Newton C. Braga em fevereiro de 1966.
O texto se destaca principalmente pelos seguintes pontos:
Aplicação Elegante da Física à Biologia: O autor antecipa e desconstrói mitos comuns da ficção científica da época ao aplicar a Lei dos Quadrados e Cubos (mencionando como o peso cresce com o cubo das dimensões e a resistência óssea/muscular cresce com o quadrado). Ele demonstra com precisão matemática por que estruturas biológicas possuem limites estritos de escala em ambientes de baixa densidade.
A Densidade e o Empuxo como Fatores-Chave: A percepção de que a densidade do meio (e o consequente empuxo) desempenha um papel muito mais crucial no tamanho de um organismo do que a gravidade isolada é um argumento brilhante. O paralelo traçado com a baleia no ambiente marítimo terrestre ilustra perfeitamente como atmosferas densas e pressões elevadas poderiam, ao contrário do senso comum, sustentar seres gigantescos e de formas esféricas ou arredondadas.
Derrubada do Mito dos "Seres Esmagados": Com uma lógica biológica impecável, o texto refuta a ideia ingênua de que a alta pressão atmosférica geraria seres achatados. Ao lembrar que a pressão interna de um organismo se iguala à externa (citando com propriedade os peixes abissais), o autor demonstra uma compreensão biofísica muito à frente dos clichês da literatura pulp da década de 1960.
Mais do que uma curiosidade histórica mantida em cadernos manuscritas, o artigo é uma aula de método científico: mostra como isolar variáveis, contestar visões simplistas e deduzir a anatomia de ecossistemas alienígenas usando as leis universais da física.
















