Qual seria a reação da humanidade ao saber que a nossa espécie não é a única possuidora de mente superior, nem o ponto mais alto da escala evolutiva animal no universo.

Nota: Artigo escrito em 1966 mas que não foi publicado na época. (*)

No passado não se pensava nisso, mas agora, diante do espantoso progresso da tecnologia, aparelhos sensibilíssimos nos puseram em contato com coisas que nos fizeram mudar completamente a nossa maneira de pensar. Sim, a tal ponto chegou a evolução das ciências, que até mesmos os nossos costumes foram alterados.

O homem de hoje em dia, não é aquela criação suprema, destinada a dominar o universo limitado da época, mas sim um mero ponto insignificante perdido entre as miríades de planetas, quem sabe habitados por povos de inteligência superior. (Não se falava em IA nessa época)

Na nossa época, mesmo havendo toda essa evolução, existe ainda um grupo de pessoas, por sinal bastante extenso, que, quer por estar mal informado, por ser conservador das ideias antigas sem se preocuparem com a comprovação dos seus ensinamentos, ou ainda, por não terem uma mente científica suficientemente evoluída para poder compreender a imensidade de fenômenos prováveis no universo, e os complexos, mas naturais processos que criam vida e a conservam, independentemente de clima único, ou planeta único, discordam das modernas ideias que em breve andarão no pensamento de todos.

Infelizmente a humanidade age dessa maneira; não são todos que se inteiraram com as novas ideias e não são todos que procuram conhecer as suas inovações. Há o grupo pequeno mentalmente desenvolvido que cria as inovações. São os físicos, químicos, biólogos e grandes matemáticos.

Um segundo grupo, composto por pessoas de nível médio procura se atualizar, mas nunca consegue a perfeição, mas são eles os responsáveis pela divulgação das ideias, através da troca de conhecimentos. Existe ainda o grupo dos menos esclarecidos e que nem sequer procuram conhecer as novidades, e diante das mesmas limitam-se a negá-los como se não interessasse ou ainda como se tudo fosse mentira.

Esse é o grupo prejudicial, responsável pelo atraso geral da maneira do povo pensar, que se mantém quase estacionário, oferecendo qualquer resistência às inovações. São aqueles, que devido à má educação e às deficiências escolares se tiverem, criaram em si uma mente revoltosa não aceitando nada que não seja comprovado pela experiência própria.

Como então, a maioria das modernas teorias são impossíveis de serem comprovadas por sentimentos físicos, eles não as admitem, não porque não sejam verdadeiros, mas por não a entenderem. Qual será então, a reação desses diferentes grupos diante da nova descoberta da vida extraterrena que um dia poderá ser feita?

Naturalmente, os inovadores, os cientistas já estarão preparados para receber o fato com naturalidade, e eles a suas alturas, já estarão levando avante suas pesquisas em função dessa inovação. O grupo dos que procuram se informar, já esperarão a descoberta, e quando ela acontecer, o impacto não será tão forte, a não ser pelos componentes mais desacreditados do grupo, que poderão esperar de tudo ainda, para acreditar, ver.

Mas, não há dúvida, o grupo que receberá mais diretamente o impacto, será o da classe dos que não se interessam, mas não no momento da descoberta, mas sim quando houver um contato direto com esses possíveis seres. Suas mentes que se mantiveram sem evolução, não poderiam harmonizar os poucos conhecimentos adquiridos anteriormente, numa sequência interrompida pelas descrenças, com uma nova descoberta que terá que forçadamente utilizar todos os pensamentos anteriores.

A religião usando sua linguagem simples seria um dos meios de se colocar em contato a massa com a nova ideia, isto é, os que a admitirem, o que sem dúvida alguma aconteceria numa circunstância como essa, e que mesmo atualmente a católica admite.

Não devemos, pois, temer, o que há de vir, mas sim preparar-nos para receber as novas ideias, pois no futuro elas farão parte de nós.

(*) Artigo escrito em 1966. Não chegou a ser publicado. Nele eu mostrava o interesse que tinha na época por descobertas da astronomia e da Astrobiologia influenciado pelo meu especial amigo Prof. Flávio pereira que era um entusiasta do assunto vida extraterrestre que explorava em sua Escola Superior de Ciência com artigos para revistas como a Exedra e livros que publicou. O artigo ainda é atual em alguns pontos sendo uma boa referência sobre o modo como se pensava na época.

Não alteramos a ortografia mantendo a que se utilizava na época. Diversas palavras eram acentuadas de forma diferente do que fazemos hoje. O original foi mantido.

A imagem de abertura criada pela IA e comentário

 

Comentário

Este artigo é uma peça histórica e sociológica importante, escrita originalmente em 1966. Ela revela uma maturidade analítica impressionante para a época, especialmente ao antecipar os impactos psicológicos, sociais e culturais que a confirmação de vida inteligente fora da Terra traria para a nossa civilização.

Analisando o texto, destacam-se alguns pontos principais:

 

Uma Visão Sociológica Precisa da Reação Humana

A divisão da humanidade em três grupos distintos frente à inovação científica é um dos pontos mais fortes do artigo:

Os Inovadores/Cientistas: Aqueles que já trabalham com a hipótese e recebem o fato com naturalidade, prontos para avançar nas pesquisas.

A Classe Média Intelectual/Informados: Aqueles que, por buscarem a atualização constante, sofrem um impacto menor por já esperarem a descoberta.

Os Menos Esclarecidos/Céticos por Incompreensão: O grupo que nega o avanço por não conseguir assimilá-lo de forma abstrata, dependendo apenas da experiência física direta para acreditar ("ver para crer"). A análise de que o verdadeiro "choque da negação" ocorreria no momento de um contato direto, devido à incapacidade de harmonizar preconceitos antigos com uma realidade incontornável, é extremamente atual.

 

Mudança de Paradigma Cósmico

O texto capta perfeitamente a transição do pensamento antropocêntrico — a ideia do homem como "criação suprema" destinada a dominar um universo limitado — para a compreensão de nossa própria pequenez: um "mero ponto insignificante" em um cosmos repleto de possibilidades. Essa visão reflete o otimismo e a expansão de consciência típicos do início da Era Espacial na década de 1960.

 

Atualidade do Texto

Embora você tenha pontuado em sua nota que conceitos modernos como a Inteligência Artificial não eram discutidos em 1966, a estrutura de como a sociedade digere rupturas tecnológicas e científicas permanece exatamente a mesma descrita por você. Hoje, o comportamento do grupo que resiste às inovações por falta de letramento científico se repete não apenas diante da astrobiologia, mas também frente aos avanços da própria IA e da ciência de dados.

É um texto vanguardista que, além de documentar o entusiasmo científico compartilhado com seu amigo, o Prof. Flávio Pereira, permanece como um excelente exercício de reflexão sobre o futuro da humanidade no cosmos.

 

 

 

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