
Antigamente as chamadas estrêlas cabeludas eram consideradas como maus presságios, hoje em dia, porém, à luz da moderna astronomia tais astros ambulantes antes traçadores dos destinos dos terrestres, agora são os portadores da resposta à pergunta que tem deixado perplexa a humanidade. Qual é a idade do Universo?
Nota - Artigo de 1965 (*)
Há pouco tempo, cerca de uma semana mais ou menos, a partir da data que escrevo, recebeu-se uma notícia que abalou o mundo. Um cometa provavelmente se chocaria contra a superfície do sol. Muitos leigos achavam que com tal encontro o sol poderia ser destruído e com o isso a terra também desapareceria, mas tal afirmativa não tem razão de ser.
Os cometas em geral são muito pouco volumosos, assim por exemplo um grande cometa teria no máximo sua cabeça com algumas dezenas de quilômetros constituídas por material pesado, ferro talvez, e uma cauda de alguns milhões de quilômetros. O volume total de um cometa é, no entanto, mais de 10 000 000 de vezes menor do que a terra, no máximo 100 000 vezes para os cometas gigantes; volume este que não poderia causar muito dano à nossa superfície, se caísse na terra.
Ora, no sol que a todo momento ocorrem explosões solares de mais 100 000 KM de altura atirando ao espaço nuvens de gases quentes mais volumosas que a terra, um simples cometa, nem sequer perturbaria as camadas mais altas da sua atmosfera.
É claro que muitos ouvindo falar numa cauda de milhões de quilômetros de comprimento, pensam logo numa coisa monumental, com um poder destrutivo gigantesco capaz de destruir qualquer nave espacial que eventualmente se aproxime. Tal não acontece; a cauda de um cometa tem quase a mesma densidade da matéria difusa no maior vácuo produzido em laboratório, com apenas alguns átomos por centímetro cúbico de tal maneira que se toda ela fosse concentrada sob condições normais, provavelmente pesaria alguns quilos.
Fica dessa maneira explicado que sua luminosidade não vem da sua massa, mas dos gases muito difusos que refletem a luz solar. Há muito boato sobre os quais a cauda do cometa é formada por gases venenosíssimos derivados de arsênio, e que sendo assim se a cauda de um deles esbarrasse na nossa atmosfera todos nós morreríamos envenenados em pouco tempo. Mais uma vez a imaginação popular cria monstruosidades sem basear-se em fatos científicos. A explicação científica é bem mais animadora para aqueles que já estavam com ideia de encomendar seus enterros.
Mesmo se um cometa perdesse toda a sua cauda na atmosfera terrestre, a quantidade de gases existentes será tão pequena comparada com a nossa atmosfera que não será sequer notada, a não ser com aparelhos muito sensíveis.
Por outro lado, no mundo científico o abalo causado pela notícia, não foi pela possibilidade da terra ser destruída, mas sim pela possibilidade da pergunta "Qual é a idade do Universo" ser respondida.
Como se sabe os cometas são astros que não pertencem realmente, nem permanentemente ao nosso sistema solar, nem a qualquer outro. São astros ambulantes que vagueiam de sistema em sistema, uns sendo presos pelos astros luminosos passando a fazer parte deles, outros sendo atraídos por planetas passando a ser satélites dos mesmos, ou ainda caindo na superfície de planetas ou estrelas como o caso desse.
Acredita-se também que tais cometas tenham origem no ponto em que as Galáxias ou universos - ilhas tivessem sido gerados, ou ainda do centro da nossa Galáxia, onde terá havido a explosão inicial que criou todo o cosmos, com toda sua matéria e energia.
Se um desses cometas explodisse perto do sol, uma análise pelo espectroscópio dessa luz poderia, através das informações vindas pelas linhas dos materiais radiativos, poderia nos dizer a idade da nossa Galáxia, ou mesmo do universo.
Mas porque não analisar a própria terra ou o sol para determinarmos a idade da Galáxia já que esses astros fazem parte dela?
Nem a terra nem o sol são tão velhos quanto o universo. Além de existir a possibilidade de a terra não ter sido gerada junto com o sol, mas com ele, existe também a possibilidade de o sol ter sofrido rejuvenescimento por algumas vezes. O sol pode ter nascido como uma estrela brilhante e depois ter esfriado novamente voltando a esquentar voltando a sua juventude. A terra provavelmente apareceu nessa época.
Sendo assim não poderíamos nos basear nas substâncias existentes, quer no sol, quer nos planetas para determinarmos a idade do astro, o ideal seria nos basearmos em algo que tenha vindo de fora do sistema solar. O cometa veio bem à propósito para felicidade dos pesquisadores.
Com a aproximação do cometa do sol, o extremo calor ali existente queimaria, ou pelo menos desintegraria o material existente no mesmo com uma explosão. Essa explosão era o fenômeno esperado, ela iria nos revelar todos os segredos que envolvem os astros ambulantes, e apesar de todos os preparativos, esperando o fenômeno, tal não aconteceu.
O cometa passou próximo do sol, sua enorme cauda foi vista por vários dias na terra, mesmo sem instrumentos óticos especiais; mas o calor não foi suficiente para desintegrá-lo e pouco depois o cometa desaparecia das vistas dos astrônomos.
Perdeu-se o cometa e com ele a possível resposta à pergunta máxima. Resta agora a humanidade esperar que outro fenômeno semelhante ocorra, daqui alguns milhares ou milhões de anos talvez, por isso tenhamos muita paciência, só nos resta esperar!
29-10-1965
(*Nota) Mais uma vez colocava em meus artigos o meu gosto e conhecimento de astronomia da época. Como já falei diversas vezes em meus textos, se não me dedicasse totalmente a eletrônica, tinha ido para a carreira de astronomia ou astrofísica.
Imagem de abertura criada pela IA. Foram mantidos os acentos diferenciais e circunflexos que caíram em desuso com as reformas ortográficas posteriores ".
Terminologia histórica ("Universos - ilhas"): O autor utiliza o termo "Universos-ilhas" (Island Universes), que era uma denominação muito comum até meados do século XX para se referir a outras galáxias fora da Via Láctea.
Curiosidade Astronômica da Época
A notícia que "abalou o mundo" descrita pelo autor em outubro de 1965 refere-se ao célebre Cometa Ikeya-Seki (C/1965 S1). Ele foi um cometa rasante (que passou extremamente perto do Sol) descoberto em setembro de 1965 e que atingiu o seu periélio (ponto mais próximo do Sol) justamente em 21 de outubro de 1965. Ele foi tão brilhante que podia ser visto a olho nu durante o dia, exatamente como descrito no artigo!















