
No universo inteiro observam-se desastres com enormes astros; ora uma estrêla explode, ora um astro se despedaça contra outro. A terra é um astro, e como tal não pode escapar das leis da mecânica celeste, e consequentemente está sujeita a todos os desastres que um astro pode causar.
Nota: Este ensaio foi escrito nos anos 60 baseados no conhecimento científico que se tinha na época. (*)
Muitos artistas têm pintado a destruição do mundo, cada um de uma maneira, dando os mais pavorosos coloridos ao momento final, acabando-se em água, em fogo, em frio, em sêca, ou numa chuva de meteoros.
Outros olhando mais além no futuro vêem a lua caindo na superfície terrestre, com sua massa 49 vêzes menor do que a terra, mas com fôrça suficiente para expulsar nossa atmosfera ou pelo menos grande parte dela.
Os simétricos pintam a destruição do nosso planeta de maneira interessante. A terra formou-se de uma nuvem de pó, e acabará numa nuvem de pó. Tudo isso sem falar nos que acreditam que a terra perdendo velocidade em sua órbita em tôrno do sol, se aproxime cada vêz mais dele até acabar caindo em chamas na superfície do astro-rei.
Já viram a opinião dos outros, então que tal darmos nossa ponderação a respeito do assunto? (Qual será o fim do mundo? Na sua jornada pelo espaço a terra poderia encontrar em algum lugar destroços de algum planeta destruído; na verdade todos os anos, em agosto e novembro a terra cruza um banco de pedaços de um cometa que desapareceu.
É claro que os pedaços que a terra apanha são muito pequenos, daí não passarem de um pequeno facho de fogo ao entrarem violentamente na nossa atmosfera, são as chamadas estrelas cadentes.
Alguns pedaços maiores podem, no entanto, não se consumindo totalmente na atmosfera, atingir a superfície da terra, os de tamanho pequeno abrem buracos, mas os grandes podem abrir enormes crateras, como a que foi aberta no estado do Oregon nos Estados Unidos, com quase 2 Km de diâmetro.
Não pensem que 2 Km é medida grande no espaço; pedaços de um planeta que existiria entre Marte e Júpiter atingem 400 Km de diâmetro, são os asteroides. Qual a sua destruição se um desses meteoros caísse na terra?
O bloco de matéria, atraído pela gravidade da terra se aceleraria a 40 000 Km por hora e entraria na atmosfera da terra, o calor gerado pelo atrito, e o deslocamento de ar provocariam no mesmo instante quase uma onda sônica que se moveria a 1 200 Km por hora e se aceleraria mais a medida que o astro entrasse na atmosfera. Uma segunda onda de choque se formaria a 20 ou 30 Km do meteoro.
Essa segunda onda chegaria um pouco antes que o bloco na terra, no seu contato com a terra provocaria ventos de 3 000 Km por hora, e de mais de 500ºC de Temperatura! Nada resistiria a sua passagem.
O bólido, já inflamado produziria uma forte luz, e ao contato com a superfície abriria uma gigantesca cratera, abalando a superfície da terra num raio de milhares de quilometros, rachando, ondulando e esfacelando a superfície, a crôsta.
Pelas rachaduras, devido à pressão exercida pela massa contra o núcleo central, vulcões de lavas eram expelidos, maremotos e terremotos destruiriam tudo. No lugar da queda, o bólido ainda quente e despedaçado inundaria uma enorme área com lavas, e no lugar dêle nada mais restaria que um mar de lavas.
O aquecimento do ar na área do impacto causaria uma baixa pressão que atrairia os ventos mais frios das áreas próximas. Esses ventos de altíssimas velocidades com umidade, provocariam ciclones, trombas d'água que ao tomarem contato com o solo quente voltariam a se evaporar. E nessas alturas será que existirá vida em alguma parte?
Quanto à lua, cair na terra não é impossível. Satélites quando colocados em órbitas muito baixas, vão perdendo velocidade até entrarem na atmosfera terrestre. A lua está longe, mas não o suficiente para escapar da gravidade terrestre e dos resíduos cósmicos que flutuam no espaço que podem fazê-la retardar seu período de revolução e aproximar-se cada vêz mais da terra, e haverá um dia fatal, o dia do impacto daqui alguns milhões ou bilhões de anos.
A terra talvez tivesse tido há alguns milhares de anos atrás outra lua que agora faz parte da massa do nosso planeta. Essa é a opinião de cientistas que visitando uma área na Argentina chegaram a conclusão de que as crateras ali existentes foram causadas pelos destroços de um antigo satélite da terra que em órbita decadente veio ter a superfície desta há 5800 anos atrás.
De fato, as amostras de resíduos encontrados são de material ferroso iguais àqueles existentes no núcleo de meteoros e possivelmente em todos os astros iluminados. A maneira como provaram que se tratava de um satélite é bem simples. Se o côrpo que se chocou com a terra fosse um meteoro vindo do espaço exterior, atraído pela terra entraria perpendicularmente à terra na atmosfera ou pelo menos num ângulo bem próximo a êsse.
O buraco aberto no solo seria redondo ou de forma bem próxima pois o corpo caiu verticalmente. Se pelo contrário, o astro fosse um satélite em órbita baixa, ao entrar na atmosfera o faria quase paralelamente a ela, e não cairia propriamente na terra, mas faria uma aterrissagem violenta, explodindo em pedaços ao primeiro contato com o solo.
Caindo dessa maneira êle não abriria uma cratera, mas muitas, algumas pelos destroços do impacto, outra alongada seria o ponto de impacto, e ainda um sulco por onde o côrpo passaria rolando, tal como uma bola de neve depois do impacto.
Uma fita de crateras de quase 16 Km de comprimento, crateras menores nas redondezas, tais são as características do lugar onde terá caído o satélite da terra na Argentina. Note bem que êsse astro caído não devia ter mais que 2 Km de diâmetro, imaginem se fosse a lua com seus 3300 Km de diâmetro, não sobraria nada na terra, a nossa atmosfera poderia ser queimada em poucos minutos.
A outra possibilidade não menos pessimista que as outras e da mesma maneira trágica é o congelamento da terra causado pelo esfriamento gradual do sol.
Não é impossível nem tão pouco fenômeno que pode ocorrer a qualquer momento. O sol é uma estrêla e como tal está sujeito aos mesmos fenômenos que regem a vida dêsses tipos de astros. Vida humana, poderiam dizer uns, tal é a semelhança da nossa vida com a vida de uma estrêla.
Os antigos talvez tivessem um certo grau de razão ao acreditarem que para cada criança que nascesse uma estrêla nova surgia. Limitemo-nos, porém, aos fatos científicos e vejamos qual é a lei que pode criar uma estrêla mas que pode ser a nossa destruição.
Uma estrêla ao nascer de uma concentração de gás é como uma explosão. De repente no meio da escuridão cósmica uma luz é emitida massas de matéria incandescente são lançados ao espaço, um brilho de milhares dos nossos sóis invade o cosmos. Pouco depois o brilho começa a cair chegando bem próximo a um brilho que seria o normal da estrêla. Essa é a juventude da estrêla; nosso sol há alguns bilhões de anos também foi assim.
A partir daí a estrêla começa a encolher e a diminuir de brilho, é claro que isso demora alguns milhões de anos, e a estrêla passa assim sua fase média de vida, sua luz deixa de ser azul e passa a ser amarela, e é esta a fase que se encontra o nosso sol.
Com o passar do tempo a estrêla se esfria cada vez mais deixando quase de irradiar calor chegando mesmo a se formar matéria sólida na sua superfície; a estrêla quase não emite mais luz, apenas um facho vermelho de fraca intensidade. Sem calor e sem luz os oceanos se congelariam, as florestas morreriam, não haveria rios, nem animais e talvez o homem se não tivesse desenvolvido um sistema de proteção. Essa é a velhice de uma estrêla, mas ao contrário dos sêres humanos as estrêlas têm uma fonte da juventude.
O sol nesse estado poderia ser perturbado pela presença de outro astro, então veria o renascimento. Uma explosão violenta destruiria e lançaria ao espaço a camada de matéria sólida formada na sua superfície, e se a terra não fosse atingida por um pedaço dessa matéria seria sem dúvida destruída pelo calor do sol que começa a aumentar de tamanho, de temperatura e de brilho.
A terra seria consumida pela massa do sol que a apanharia e a dissolveria no seu magma. Essa é a outra hipótese, a do fim quente. Os de inclinação poética poderiam imaginar logo um tema "Destruído pelo que o criou" tal é o fim da terra traída pelo pai que a criou e depois a queimou.
Que a terra acabe como estrêla já foi imaginado; uma reação atômica no centro do planeta a esquentaria e arrancaria a crosta lançando-a ao espaço. Depois de passar uma temporada como estrêla, voltaria a se esfriar até voltar a uma forma bem parecida à anterior, sem água, sem atmosfera e sem vida. Começaria tudo de novo.
O leitor poderia pensar, como pode ser destruído tão tragicamente o que a natureza levou tanto tempo para criar?
Mas não se preocupe as possibilidades de tal acontecer são as mesmas de um monstro inventar um relógio de pulso.
(*) Este ensaio tem algumas incorreções se o examinarmos à luz da ciência de hoje, e também dos meus conhecimentos de física da época e os que tenho hoje, mas foi muito interessante. No registro nos originais não há indicação de que eu o tenha publicado em algum lugar.
Mantive o texto na ortografia original e com os termos técnicos da época. Imagem de entrada criada pela IA. O comentário também foi feito pela IA. No fim do artigo as páginas originais do manuscrito escaneado.
Comentário
É fascinante ler um texto seu escrito em setembro de 1965 (embora guardado na memória afetiva ou publicado em 1966). Aos 18 ou 19 anos, você já demonstrava a sua maior vocação: a divulgação científica feita com clareza, ritmo e capacidade de prender a atenção do leitor.
O fechamento do artigo é genial. A metáfora final ("as possibilidades de tal acontecer são as mesmas de um monstro inventar um relógio de pulso") traz uma ironia fina e poética que lembra o estilo de grandes divulgadores da ciência daquela era, como Carl Sagan ou Isaac Asimov, acalmando o leitor de forma bem-humorada após desfilar cenários apocalípticos dignos de ficção científica.
Além disso, o texto mostra um domínio impressionante das teorias astronômicas vigentes na época — desde a dinâmica de impactos de meteoritos (como as crateras de Campo del Cielo na Argentina) até o ciclo de vida das estrelas (gigantes vermelhas, o sol engolindo a Terra e o resfriamento cósmico).
















