
De onde vimos, para onde vamos? Nada melhor, para explicarmos a nova teoria do movimento do universo, do que começarmos com a pergunta que vem afligindo o homem desde que ele descobriu que não era o centro de tudo, mas sim, que era apenas uma partícula, entre trilhões, da matéria flutuante no espaço sideral.
Nota: artigo de 1967. Terceira versão (*)
De início os cientistas afirmaram que a Terra, o sol, e todos os demais astros, eram originários de uma primeira nebulosa que explodiu, e até hoje vem sendo válida essa explicação, mas contada em diferentes versões.
Uns acham que havia muitas nebulosas, cada uma convertendo-se posteriormente num sistema planetário, outros acham que cada galáxia é que era uma nuvem, todas, é claro, originárias de uma super-galáxia, que seria a origem do universo.
Ao lado de todas essa dúvida quanto à origem, resta-nos ainda uma segunda dúvida, mais alarmante para os cientistas, que a primeira: o que surgiu primeiro, a matéria, ou a energia?
Como se sabe, existem dois fluidos que compõem tudo que se conhece, tudo que preenche esse enorme ponto de interrogação que é o universo.
A matéria constituída por átomos de muitas espécies (diferentes átomos formam os diferentes elementos) e a energia que se manifesta através de uma variedade de partículas.
Há uma teoria a respeito da formação do universo que afirma ser toda a sua matéria proveniente de uma energia inicial, como a que atualmente se manifesta nos centros super-quentes das estrelas que nada mais é do que uma massa de núcleos atômicos de hélio e hidrogênio livres, mas mesmo assim nada se esclarece. E se perguntássemos, por exemplo, de onde veio a energia? A única resposta lógica seria que ela veio da matéria, mas e a matéria?
Poderíamos comparar esse problema a conhecida questão do ovo e da galinha; quem surgiu primeiro?
Naturalmente, nosso problema atinge uma proporção descomunal, tão grave como se nós, comparativamente, morássemos num determinado lugar, e não soubéssemos se se tratasse de uma ilha, se haveriam outras cidades próximas, ou se poderíamos sair dali.
A mente humana não está ainda suficientemente evoluída para entender certos problemas, temos que admitir isso, por tal, resolvemos abandonar a questão de matéria e energia e partir de um ponto que resolvemos chamar de origem não absoluta do universo, um ponto máximo que a mente humana poderia penetrar e que seria justamente uma nebulosa, como para os outros cientistas, mas uma nebulosa energética, com muitos milhares de anos-luz de diâmetro num ponto qualquer, centro de gravitação dos atuais universos-ilhas ou galáxias das quais a terra faz parte como uma simples partícula.
Era energia porque a temperatura nesse lugar seria tão elevada que os elétrons não mais se prenderiam ao núcleo atômico que permaneceriam num movimento caótico.
Em dado momento, porém, a nebulosa explodiu, lançando toda a sua energia para o espaço, que encontrando temperatura mais baixa, transformou-se em matéria, e rapidamente afastando-se do ponto do impacto inicial veio formar as galáxias com milhões de milhões de estrelas cada uma como a nossa Via-Láctea.
Até hoje o universo se expande, e até quando continuará fugindo do ponto inicial ninguém sabe, e é aí que entra em cena a segunda parte dessa fabulosa teoria que abrange coisas nunca antes sonhadas pelo homem: a máquina do tempo rumo ao passado.
Segundo a teoria, o universo não continuará infinitamente expandindo-se. Dentro de alguns trilhões de anos (?) cessará sua dilatação e ele começará a contrair-se até que, voltando ao estágio inicial como a nebulosa-mãe, se transforme novamente em energia.
Se até lá, naquela destruição universal ainda existir a raça humana, provavelmente o homem não escapará, e terá novamente que se curvar diante de um poder que ele jamais atingirá.
20-04-1967
(*) O artigo reflete os conhecimentos de astronomia comumente divulgados na época. Muito se avançou. O artigo serve como referência histórica.
A ortografia da época em que foi escrito foi mantida com diversas palavras grafadas de modo diferente do que se usa no momento em que a transcrição foi feita (2026). O desenho de abertura foi feito pela IA, assim como o comentário.
Comentário
Este é um artigo fascinante que serve como uma excelente cápsula do tempo, ilustrando de forma clara a evolução do pensamento científico e a divulgação da astronomia no final da década de 1960.
Abaixo, apresento alguns pontos de destaque sobre esta versão do texto de Newton C. Braga:
Valor Histórico e Científico: O texto capta um momento de transição na cosmologia. Em 1967, a teoria do Big Bang (mencionada implicitamente através da "primeira nebulosa que explodiu" e da expansão do universo) já ganhava muita força, especialmente após a descoberta da radiação cósmica de fundo em 1964. O modelo de um universo que se expande e depois se contrai ("Big Crunch"), detalhado na segunda parte do texto, era uma das hipóteses mais discutidas na época.
Preservação Linguística: Permite que o leitor moderno não apenas observe a evolução da ciência, mas também a transformação da língua portuguesa e das normas de acentuação ao longo das últimas décadas.
Tom Filosófico e Acessível: O autor utiliza analogias primorosas para aproximar conceitos complexos do público geral, como o dilema do "ovo e da galinha" para a relação entre matéria e energia, ou a metáfora de viver em um lugar sem saber se é uma ilha. O tom final carrega um sentimento de humildade perante a grandiosidade do cosmos, algo muito característico da divulgação científica clássica.
A nota explicativa incluída no final é perfeita, pois contextualiza o leitor de 2026 de que a ciência avançou consideravelmente (hoje sabemos, por exemplo, que a expansão do universo está acelerando devido à energia escura, tornando o modelo de contração menos provável), sem tirar o mérito e o charme histórico da publicação original.
Abaixo, a imagem das folhas originais escaneadas.
















