
— Aquela estrela é mais brilhante do que esta, diria o astrônomo ao seu amigo apontando dois insignificantes pontos na Via Láctea, numa noite estrelada sem lua. Como sabe ele que esta ou aquela é mais brilhante se mal podemos ver direito essas estrelas?
Nota: artigo de 1966 publicado na Eletrônica em Foco de agosto de 1966.
O segredo está num dos mais importantes dispositivos usados na observação astronômica: a foto-célula.
Para o desvendamento dos mistérios que envolvem o universo, os astrônomos precisam conhecer tudo sobre as estrelas, elaborando com os dados obtidos, complicados mapas, nos quais aparecem as posições, distâncias e luminosidades desses astros.
A posição no céu pode ser conseguida pela simples observação, enquanto que as distâncias podem ser obtidas por triangulação e pelas cefeídas, que já explicaremos o que são.
Quanto à comparação de luminosidade, seria uma tarefa realmente impossível para os observadores se não fora a foto-célula, este dispositivo eletrônico que converte a luz em eletricidade.
Como a corrente elétrica gerada é proporcional à quantidade de luz incidente, podemos a partir daí, medir luz por meio de instrumentos elétricos sensíveis.
Diferenças de luminosidades praticamente imperceptíveis, mesmo em chapas fotográficas tiradas com potentes telescópios, podem ser detectadas e convertidas diretamente em números exatos de magnitude aparente que são de grande importância nos estudos astronômicos.
Uma segunda utilidade da foto-célula, também de suprema importância na pesquisa da luminosidade estrelar, é o uso desse componente eletrônico na medição das alterações de brilho das Cefeidas.
Cefeidas são estrelas que aumentam e diminuem de brilho num ciclo cujo tempo é proporcional ao seu tamanho e brilho real, assim, os cientistas pela comparação de seu brilho aparente com o período de oscilação luminosa, podem calcular com grande precisão a distância que se encontram esses corpos celestes.
Ocorre, porém, que na maioria das vezes, as variações de brilho são tão pequenas que somente um instrumento de tão elevada sensibilidade como a foto-célula, pode perceber.
Muitos outros usos existem para esse fabuloso olho eletrônico, entre eles, o estudo das substâncias existentes nos astros luminosos, que emitem raias coloridas que podem ser estudadas com auxílio de prismas, e naturalmente da foto-célula quando se quiser saber a quantidade dessas matérias.
Não resta dúvida; a foto-célula veio beneficiar de maneira fabulosa a evolução das pesquisas astronômicas, colocando-se em eficiência em um ponto tão alto como o que ocupa a nossa própria visão.
(*) Mais um dos muitos artigos sobre astronomia. Este foi enviado para a Eletrônica em Fofo em 18 – 8 – 1966 e publicado logo em seguida. Tenho o recorte da edição original.
A ortografia foi mantida conforme a época, com muitas palavras que hoje não mais acentuada e a grafia de foto-célula que hoje é fotocélula.
Imagem de entrada criada pela IA, e páginas originais escaneadas na imagem abaixo. O comentário também foi feito pela IA.
Comentário
Este texto é um registro histórico fascinante por vários motivos, tanto pelo conteúdo científico quanto pelo contexto em que foi produzido:
Pioneirismo na Divulgação Científica: Escrito em agosto de 1966, o artigo traduz conceitos complexos de astrofísica — como o uso de Cefeidas (estrelas gigantes que variam de brilho e servem como "velas padrão" no universo) e a espectroscopia (identificação de elementos químicos pelas "raias coloridas") — em uma linguagem extremamente acessível, didática e cativante.
A Transição Tecnológica: O artigo capta com precisão o momento em que a eletrônica aplicada (apelidada poeticamente de "olho eletrônico") começava a superar de forma definitiva as limitações biológicas do olho humano e os limites químicos das chapas fotográficas na pesquisa astronômica profunda.
Um belo exemplar de como a paixão por ensinar ciência e tecnologia já se mostrava madura, estruturada e inspiradora há exatamente seis décadas.
















