Este artigo é parte de livro que publicamos nos anos 90, quando a TV e o vídeo analógico ainda eram únicos e a TV digital apenas estava em estudos com o DVD começando a aparecer. Ele vale para os que desejam ter um pequeno conjunto de instrumentos para recuperar equipamentos antigos.
O profissional de manutenção de equipamentos de TV e vídeo precisa ter instrumentos e ferramentas apropriadas. As ferramentas são basicamente as mesmas usadas na reparação de outros aparelhos como rádios, amplificadores etc., que o leitor pode estudar no curso de Reparação para Iniciantes.
Para os instrumentos temos um em especial, que é por onde começamos os nossos estudos, e que serve praticamente para qualquer tipo de atividade que envolva a eletrônica: o multímetro.
a) O multímetro
Os circuitos eletrônicos de televisores, aparelhos de videocassete e câmaras de vídeo possuem os mesmos tipos de componentes. Como no diagnóstico de outros aparelhos, a medida de tensões e resistências é o principal recurso usado pelo técnico, e para isso o instrumento básico é o multímetro. Para o técnico de TV é preciso um bom multímetro, tanto pela variedade de tensões encontradas, como pela confiabilidade necessária nas medidas.
Os multímetros usados nos trabalhos de manutenção de TV e vídeo podem ser tanto analógicos como digitais. Na figura 1 temos os aspectos dos dois tipos de multímetros.

As características mínimas que exigimos para um multímetro necessário à manutenção de TV e vídeo são:
• Sensibilidade de 20000 S2 / V nas escalas "DC" 3
• Escalas de tensões até 1000 V "DC", pelo menos
• 3 escalas de resistências
Alguns acessórios para o multímetro, que serão estudados oportunamente, podem ser acrescentados, aumentando sua utilidade.
A determinação das etapas defeituosas de um determinado aparelho pode ser feita segundo diversos procedimentos, mas uma vez que a etapa esteja isolada ou que desconfiemos de alguma anormalidade precisamos fazer testes e medidas, e é neste ponto que o multímetro entra em ação.
Conhecendo as tensões num circuito, o multímetro pode ser usado para sua comprovação e, através de indicações anormais, podemos chegar a pontos falhos. O multímetro poderá ainda ser usado para um teste fora-do-circuito de um componente suspeito.
Os testes de componentes e os usos dos multímetros em pormenores são analisados em nossos livros e artigos sobre este instrumento.
b) Como usar o multímetro em TV e vídeo
Analisando o diagrama de um televisor ou de um equipamento de videocassete, o leitor vai constatar que nos principais pontos são indicados tensões. Estas tensões correspondem ao que deve ser encontrado numa medida em condições normais de funcionamento.
Na figura 2 temos um exemplo de indicações de tensões num circuito.

Estas tensões são referidas ao fio terra do aparelho, ou seja, ao ponto de 0 V da fonte de alimentação, que pode ser comum a diversos setores.
Assim, para verificar qualquer uma destas tensões na prática o técnico precisa apenas encontrar o ponto correspondente na placa de circuito impresso onde vai ligar a ponta vermelha do multímetro.
No fio terra do circuito, que pode ser em qualquer lugar da placa que tenha a linha de O V acessível, será ligada a ponta preta do multímetro. A escala escolhida deve ser a de tensões contínuas (DC volts) que permita ler o valor esperado comodamente.
Se for feita uma leitura de tensão alternada (o que será indicado no diagrama), a escala apropriada deve ser escolhida. Na figura 3 mostramos como fazer a leitura da tensão de 9,5 V indicada no diagrama. Nos televisores e nas câmaras de vídeo existem pontos do circuito que operam com tensões muito altas (MAT = muito afta tensão) que podem estar entre 1000 V e 30 000 V.

Estas tensões, além de não poderem ser medidas diretamente com os multímetros comuns também são extremamente perigosas. No flyback e no cinescópio, por exemplo, onde estas tensões são encontradas, um contato pode ser desagradável e até mesmo fatal para o técnico descuidado.
O flyback normalmente é encerrado numa caixa metálica que lhe serve de blindagem e com a advertência de que existem tensões perigosas neste ponto do circuito (na figura 4 temos o formato físico de um flyback). Por este motivo, o técnico não deve ir simplesmente encostando a ponta de prova do multímetro numa escala qualquer de tensões, mesmo que seja a mais alta, de forma aleatória, procurando com isso encontrar pontos de funcionamento anormal. O técnico deve saber qual é a ordem de grandeza da tensão a ser medida antes de usar seu multímetro.

Em alguns circuitos é possível também encontrar tensões negativas. Estas tensões são obtidas a partir de fontes simétricas como a da figura 5, que produz uma ou mais tensões positivas e uma ou mais tensões negativas em relação à referência de 0 V de todo o circuito ou terra.

Veja então que devemos considerar a polaridade das pontas de prova nas medidas destas tensões. Para as negativas, a vermelha deve estar em 0V e a preta no ponto onde se pretende fazer a medida, conforme mostra a mesma figura 5.
Alguns multímetros possuem uma chave de inversão de polaridade conforme o exemplo da figura 6, em que não é necessário inverter as pontas de prova numa medida negativa.

c) Problemas de segurança
Muitos aparelhos comerciais, como TV, vídeos e monitores de computadores possuem fontes sem transformador. Estas fontes são mais econômicas e ocupam menos espaço, já que este componente básico (o transformador) é pesado e caro.
No entanto, se obtemos economia e menor espaço também eliminamos um item importante: segurança. Sem o transformador, a fonte não isola o circuito da rede de energia, e mesmo nos setores que estão alimentados com baixa tensão o técnico pode inadvertidamente tomar choques perigosos e até mortais.
O transformador, conforme mostra a figura 7, isola o circuito alimentado da rede de energia. Desta forma, mesmo se tocarmos em um único ponto do circuito que esteja submetido a uma tensão elevada, não existe percurso para a corrente, e não tomamos choque.

Para haver choque é preciso haver percurso para a corrente, e isso só ocorreria se tocássemos ao mesmo tempo no ponto com tensão elevada e no fio terra ou noutro ponto com tensão diferente. Sem o transformador, o fio terra se torna outro ponto para a circulação da corrente, passando pelo corpo do técnico, conforme mostra a figura 8.

Assim, basta que o polo vivo da tomada esteja no chassi ou ainda que tenhamos outros potenciais ou tensões maiores que zero volt para que o toque num único ponto já dê percurso para a corrente, passando pelo corpo do técnico e com isso causando choque.
Como podemos ver na figura 9, mesmo num ponto do circuito em que haveria apenas 1 Vou 2 V em relação ao fio terra deste circuito, pode estar a centenas de volts (tensão da rede) acima do fio terra externo, e com isso causar choque.

Para que o técnico trabalhe em segurança, existe um recurso simples que consiste em usar na bancada um transformador de isolamento, conforme mostra a figura 10.

Esse transformador terá primário e secundário com a tensão da rede e uma potência de pelo menos 250 W, o que permite alimentar qualquer aparelho com potência até este valor, com segurança. Para saber se um equipamento é "vivo”, ou seja, se apresenta perigo de choque nos seus circuitos, basta examinar o diagrama da fonte de alimentação.
Assim, temos três casos a considerar:
O primeiro, mostrado na figura 11, é o equipamento seguro que usa um transformador que isola totalmente a rede de energia do circuito alimentado.

O segundo é o caso intermediário, em que temos um transformador, mas existem setores da rede de energia que estão em contato com pontos do circuito, conforme mostra a figura 12.

Caso semelhante a este é o de autotransformadores, em que não existe no transformador um enrolamento secundário que isole o circuito da rede de energia, conforme mostra a figura 13.

Finalmente temos o caso em que o transformador não existe, e que todos os setores do aparelho são alimentados diretamente pela rede de energia.
Veja que neste caso, ficando o fio terra conectado ao polo vivo da tomada de energia, o que depende de sua posição, todos os pontos do circuito estarão 110 V ou 220 V acima da tensão indicada no diagrama.
Isso não só é um perigo de choque como também de dano para o próprio aparelho, caso ocorra uma descarga, pois os componentes estarão submetidos a tensões muito maiores do que suportam. Uma medida adicional de segurança consiste em utilizar bancadas de material isolante e trabalhar sobre material isolante.
d) A lâmpada em série
Um dos recursos mais simples para o reparador iniciante evitar problemas com aparelhos em curto é através de uma lâmpada em série.
Conforme podemos ver, ela consiste simplesmente numa lâmpada comum de 60 W a 100 W que é ligada em série com o aparelho que está sendo testado (figura 14).

Se ao chegar na oficina o aparelho estiver em curto, ligando-o diretamente na rede de energia para uma verificação inicial, o técnico pode ter a surpresa de um "estouro" e a queima dos fusíveis de sua casa. No entanto, se p aparelho passar antes por uma prova na lâmpada em série, se houver algum curto sério, a lâmpada simplesmente acenderá, indicando o ocorrido, e nada mais grave acontecerá.
Se o aparelho não estiver em curto, a lâmpada acenderá com brilho reduzido, tanto menor quanto menor for a potência do aparelho em teste. Se não der sinal algum, pode haver um circuito aberto, o que facilita a inspeção logo nos setores de entrada (fusível, cabo de energia, transformador aberto etc).
Nestas condições, o aparelho pode ser ligado diretamente à rede de energia para outros testes, no caso as medidas de tensão ou ainda realização de ajustes.
e) Outros instrumentos
É evidente que logo no início da carreira o técnico não terá possibilidade de equipar sua oficina com todos os instrumentos necessários à reparação de TV e vídeo. Damos a seguir uma relação de instrumentos que inicialmente podem ser até montados peio técnico para ajudá-lo:
• Injetor de sinais
Este aparelho pode ser usado para reparos nos setores de áudio, de equipamentos de áudio e vídeo e mesmo de RF em televisores. Na figura 15 temos um diagrama de injetor simples para você montar.

• Amplificador de prova
Um pequeno amplificador de áudio é de grande utilidade na bancada do reparador de equipamentos de TV e vídeo, pois podemos tirar os sinais das etapas para verificação e até mesmo injetar os sinais de sua saída. Na figura 16 temos o diagrama de um simples amplificador alimentado por pilhas.

• Fonte de 12 V
Uma fonte estabilizada de 12 V com peio menos 3 A de corrente é de grande utilidade para a reparação de pequenos televisores do tipo usado em carros, equipamentos de vídeo com baterias para alimentação com 12 V e outros equipamentos semelhantes.
Na figura 17 temos o diagrama de uma boa fonte de alimentação de 12 V. Esta fonte possui proteção contra curto-circuito, e tanto o transistor de potência como o circuito integrado devem estar montados num bom radiador de calor. O transformador tem primário conforme a rede de energia, e o seu secundário é de 12+12 V com + 12 V pelo menos 2,5 A de corrente.

Lista de Material - Injetor de sinais
Semicondutores:
Q1, Q2 - BC548 ou equivalente - transistores de uso geral
Resistores:
R1, R4 - 4,7 KΩ x 1/8 W
R2, R3 - 100 KΩ x 1/8 W
Capacitores:
C1, C2 - 22 nF - capacitores cerâmicos ou de poliéster
C3 - 10 µF capacitor cerâmico ou de poliéster
C4 - 10 µF - capacitor eletrolítico de 6 V
Diversos:
S1 - Interruptor simples
B1 - 3 V - 2 pilhas pequenas
PP1, G1 - Ponta de prova e garra jacar
Placa de circuito Impresso, suporte para duas pilhas, caixa para montagem, fios, solda etc.
Lista de Material - Amplificador de Prova
Semicondutor:
CI1 - TDA7052 - circuito integrado
Resistor:
P1- 10 KΩ • potenciômetro com chave
Capacitores:
C1 - 220 µF - capacitor eletrolítico de 6 V
C2 - 100 nF - capacitor cerâmico ou de poliéster
C3 - 10 µF - capacitor eletrolítico de 6 V
Diversos:
S1 - Interruptor simples conjugado a P1
FTE - 8 Ω x 1 W alto-falante
S1 - Interruptor simples
B1 - 6 V - 4 pilhas pequenas, médias ou grandes
Lista de Material - Fonte de prova 12 V x 2 A
Semicondutores:
Cl1 - 7812 - circuito integrado - regulador de tensão
Q1 - T1P2955 - transistor PNP de potência (SID)
Q2, - BD136 - transistor PNP de média potência
D1, D2 - 1N5402 ou equivalentes - diodos de silício
Resistores:
R1- 3,3 Ω x 1 W
R2- 0,22 Ω x 1 W
Capacitores:
C1 - 4700 µF - eletrolítico de 25 V
C2 - 470 nF - cerâmico ou poliéster
C3 - 100 µF - eletrolítico de 16 V
Diversos:
T1 - Transformador com primário conforme a rede e secundário de 12+12 V x 3A
F1 - Fusível de 2 A
S1 - interruptor simples
Placa de circuito impresso, radiadores de calor, caixa para montagem, cabo de força, suporte de fusível, fios, solda etc.












