O questionamento de que árvores poderiam brilhar e até queimar silenciosamente durante tempestades atravessou quase cem anos como uma teoria sem provas definitivas. Agora, esse cenário mudou com um registro na costa leste dos Estados Unidos, onde dezenas de flashes elétricos foram documentados no topo das florestas. 
Para resolver esse mistério, o pesquisador P. J. McFarland, da Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State), utilizou câmeras sensíveis à radiação ultravioleta (UV), revelando que a interação entre as nuvens e a vegetação é muito mais intensa do que se imaginava.
Esse fenômeno é denominado "descarga de corona" (**), mas para entender melhor, imagine que a árvore funciona como um fio de luz natural. Quando as nuvens de chuva ficam muito carregadas, a energia tenta pular para o chão e acaba saindo pelas pontas das folhas. 
Em um teste feito com uma árvore do tipo Sweetgum, os cientistas contaram 859 flashes de energia em apenas uma hora e meia. É como se a árvore estivesse conectada a uma tomada de altíssima tensão, parecida com as máquinas de laboratório que fazem o cabelo ficar em pé (efeito corona).
O coordenador dos estudos mais recentes, McFarland, destaca que a discussão não é apenas o raio que cai, mas a corrente que flui.  Ele explica que as árvores funcionam como condutores naturais, e que esses flashes são, na verdade, a eletricidade "vazando" das pontas das folhas e ramos para o ar. A questão central não é apenas a queda de raios, mas a circulação de corrente elétrica no ambiente. 
Apesar de visualmente discretos, esses fenômenos podem representar estresse para a vegetação. A passagem contínua de corrente elétrica pode gerar aquecimento localizado e afetar estruturas celulares, ainda que esse processo esteja em investigação. Os clarões indicam uma troca de energia que pode influenciar a saúde das plantas ao longo do tempo.
A poluição das cidades influencia todo esse fenômeno. As árvores acabam absorvendo restos de metais do ar sujo, o que faz com que a eletricidade passe por elas com ainda mais facilidade. O impacto exato desse fator ainda não é totalmente compreendido pela ciência.
A ciência agora quer entender como cada tipo de árvore reage a esses choques. A expectativa é que o uso de sensores UV e inteligência artificial permita mapear essas descargas em tempo real ao redor do mundo. Esse avanço também ajuda a explicar os skyquakes, que são aqueles barulhos misteriosos no céu que parecem cornetas ou trovões distantes (**). 
A descoberta é um passo para o homem começar a entender a linguagem elétrica da natureza. A dependência de respostas simples para fenômenos complexos ainda existe, mas a iniciativa mostra que há um esforço para transformar mistérios em dados úteis. O caminho agora é acompanhar como essa nova fase da ciência atmosférica vai mudar nossa relação com o que acontece no topo das árvores durante uma tempestade.


Sinais UV da corona observados sob uma tempestade em 27 de junho de 2024. (a) Localização aproximada de todos os 859 sinais UV corona observados durante o período de observação de ∼1,5 horas em uma árvore de Sweetgum. - Créditos: AGU

Artigo original:  https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2025GL119591 

(**) Leitura adicional: 
https://www.newtoncbraga.com.br/eletronica-paranormal/35989-gerador-de-alta-tens%C3%A3o-m%C3%A1quina-kirlian-i-pn058.html
https://www.newtoncbraga.com.br/meio-ambiente-e-saude/17621-barulhos-no-ceu-ma146.html

(*) Jornalista Luiza Campos

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