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Prof. Ventura em: Jupiter e o Cometa (NVENT014)

Para o mês de junho desse ano (1994), os cientistas prevêem uma gigantesca colisão cósmica, que pode até afetar de certo modo, que não sabemos como, a vida na terra: um cometa esfacelado deve se chocar contra o planeta Júpiter, a uma velocidade fantástica de 150 mil quilômetros por hora. Mesmo ocorrendo a algumas centenas de milhões de quilômetros da terra, esse evento tem um significado especial para nós e até para a eletrônica. Nesta estória o Prof. Ventura explica aos seus amigos Beto e Cleto o lado "eletrônico" desse fantástico impacto celeste.


 

 

 

 

Revisando esta estória, vemos que ela é mais atual do que nunca. Na internet muitos artigos, alguns exagerados e outros que demonstram total desconhecimento de astronomia por parte de seus autores fazem anúncios alarmantes sobre cometas, asteroides e meteoros que podem cair na terra causando enorme destruição. Este artigo pode ajudar a esclarecer dúvidas assim como nosso artigo AST017 em que tratamos dessas “ameaças” cósmicas.

 

Beto e Cleto estavam fascinados, e até mesmo um pouco assustados, com as notícias veiculadas pelos jornais naqueles “daquele dias”. Era o encontro do século, como noticiavam, quando um cometa de enormes dimensões se chocaria contra o planeta Júpiter. O encontro estava previsto para o meio do mês de junho de 1994, não muito longe portanto.

 

- É o fim do mundo! - afirmava meio assustado Beto.

 

- Que nada! Um simples cometa, e naquela distância, não nos pode causar mal algum...Talvez o choque nem sequer seja visto aqui da terra... - Cleto, mais calmo, e mais ponderado, procurava dar esclarecimentos, se bem que com certa insegurança, pois astronomia não era seu forte.

 

- Não acredito!

 

- Bem, se você tem dúvidas e neste caso eu também, pois astronomia não é eletrônica, só resta uma pessoa para consultar... - Cleto nem terminou pois, Beto completou a frase:

 

- ... O professor Ventura!

 

Para muitos alunos da escola técnica o professor Ventura era apenas um mestre fora do comum de eletrônica, informática e mecatrônica, mas para os que tinham a felicidade de compartilhar mais seus conhecimentos, era de comum acordo que o que ele sabia ia muito além da eletrônica! Era o caso da astronomia, que o professor cultivava com certo amor, mantendo em sua casa além de um potente telescópio refrator de 7,5 cm, potentes binóculos de 10 x 50, e toda uma série de artefatos para localização dos mais diversos objetos celestes "observáveis" em sua cidade, e até uma máquina fotográfica adaptável ao telescópio e permanentemente "carregada" com um filme muito sensível, especial para trabalhos astronômicos. Poucos sabiam que o professor já havia até colaborado com artigos e fotos em revistas especializadas...(*)

 

(*) Hoje temos telescópios computadorizados que além de acompanharem o movimento da terra em relação ao céu, mantendo fixa uma imagem, têm também câmeras sensíveis com conexão WiFi com computadores e celulares onde as imagens podem ser gravadas.(2019)

 

Beto e Cleto, entretanto, sabiam que o professor conhecia tão bem astronomia como eletrônica o que significava que ele era a pessoa indicada para tirar suas dúvidas.

 

O professor recebeu-os bem, e depois de ouvir as dúvidas dos dois, se acomodaram numa velha poltrona de seu laboratório. Os dois rapazes ocuparam banquetas a sua frente, prontos para ouvir as explicações.

 

- Sei que o assunto nada tem a ver com a eletrônica, mas como sabemos que o senhor pode nos explicar... - Beto não terminou sua frase. Foi interrompido pelo professor.

 

- Como não tem nada a ver com eletrônica? Quem disso isso? - O professor parecia zangado. Os rapazes não entendiam muito bem. Como pode um acontecimento cósmico tão distante, um choque de um cometa com um planeta, ter algo a ver com a nossa "querida e tão próxima" eletrônica!

 

O professor percebeu o ar de espanto dois.

 

- Calma que eu explico!...

 

Os dois se acomodaram melhor ainda. A possibilidade da eletrônica estar envolvida no "negócio", os deixou mais interessados ainda. Vagarosamente o professor começou suas explicações e, como sempre, de uma forma a permitir que todos entendessem tudo. Ele partiu realmente do princípio:

 

- Quando estudamos as ondas de rádio demos especial ênfase às ondas curtas, explicando de que modo, graças a ionosfera, elas podiam refletir-se de volta para a terra e depois de volta para cima alcançando enormes distâncias. Estudamos também, de que modo o movimento de rotação da terra criava um campo magnético. Vocês se lembram disso?

 

Cleto mostrou então que se lembrava perfeitamente das explicações:

 

- Sim, o Sr. explicou que o interior quente e líquido de metal da terra produzia um efeito de gerador quando ela girava. O movimento de rotação da terra, "carregando" esta enorme massa metálica líquida, fazia aparecer correntes elétricas intensas que por sua vez criavam um campo magnético.

 

O professor continuou:

 

- Sim, e este campo magnético é que faz com que tenhamos a orientação da bússola e, ao mesmo tempo, a produção das auroras boreais. Em torno da terra, este campo se manifesta "dirigindo" as partículas de carregadas de eletricidade, principalmente as que vêm do sol, que então se desviam segundo uma trajetória espiralada, em direção aos pólos. Ao entrarem na alta atmosfera estas partículas ionizam o ar, criando luzes coloridas que denominamos de "auroras boreais".

 

Os dois rapazes lembraram-se então de terem assistido a um filme rodado perto do Pólo Norte em que os nativos (esquimós) mostravam aos estrangeiros as maravilhas das franjas coloridas no céu, durante um fenômeno de aurora boreal que é espetacularmente mais intenso quando ocorrem fenêmenos de explosäes solares. Quando isso acontece, uma enorme quantidade de partículas carregadas de eletricidade é lançada em direção à terra.

 

O professor continuou:

 

- Tanto a ionosfera, como o campo magnético da terra têm então algo a ver com o fato de nosso planeta ter um interior metálico quente e líquido e girar rapidamente.

 

- Mas e os outros planetas não são assim também? - Beto, com pouco conhecimento de astronomia, tinha suas dúvidas.

 

O professor, sem se incomodar muito com isso, não parou com as explicações:

 

- Aí é que esta: a nossa Lua, ao que parece além de ser pequena e girar lentamente em torno de seu eixo (uma vez em cada 28 dias, pois a rotação coincide com a translação), não tem um núcleo líquido importante. Nosso satélite tem campo magnético desprezível, e por não ter atmosfera também não tem ionosfera. A ionosfera é justamente formada pelas partículas carregadas que vêm do espaço e penetram na alta atmosfera, retirando os elétrons do ar, ou seja, ionizando-os. O mesmo ocorre em relação ao planeta Marte.

 

Com aproximadamente metade do diâmetro da terra, ele não tem, aparentemente, um núcleo líquido volumoso (muito pouco sinal de vulcões ativos existe na sua superfície, o que indicaria a presença de um núcleo líquido). Se bem que seu período de rotação seja mais ou menos o mesmo da terra (24 horas), a falta de um núcleo, e de uma atmosfera fazem com que ele tenha um campo magnético muito fraco e talvez nenhuma ionosfera...

 

Cleto interrompeu por um instante:

 

- Estamos chegando a Júpiter, que é o próximo, e que nos interessa.

 

- Sim, é isso mesmo! - continuou ou professor - Com Júpiter as coisas são bem diferentes. Júpiter é o maior dos planetas. Ele pertence ao grupo dos planetas exteriores, ou gigantes, que tem como elementos também Saturno, Urano e Netuno. Todos eles são maiores que a terra, na realidade muito maiores que a nossa pequenina terra.

 

Beto gostava deste tipo de raciocínio e comentou:

 

- O que me fascina na astronomia é que quando a estudamos profundamente nossa terra se torna cada vez mais pequenina e miserável! As vezes eu me pergunto se a astronomia não deixa os astrônomos deprimidos: a cada a descoberta a terra se torna cada vez menor...

 

Talvez Beto tivesse razão, mas o interessante disso é que cada vez que isso acontece nos perguntamos por que justamente nós temos o dom de descobrir tudo isso? O professor continuou:

 

- Júpiter é um gigante, com um diâmetro 11 vezes maior que o da terra seu volume é mais de 1100 vezes o do nosso pequenino planeta. No entanto, o material de que ele é feito na sua totalidade é mais leve. Assim sua massa é apenas algumas centenas de vezes maior do que a da terra. Na verdade, ele é tão leve que, se existisse na nossa imaginação um planeta maior ainda, com um oceano capaz de conter Júpiter, ele flutuaria!

 

- Que diabo de material é esse, tão leve? - A pergunta de Beto mereceu uma resposta imediata:

 

- Na verdade, Júpiter tem todos os materiais que a terra tem, mas os mais leves estão em maior quantidade. Conhecer a natureza de um astro que está a mais de 600 milhões de quilômetros da terra é um trabalho difícil, mas graças aos instrumentos e as sondas espaciais enviadas a Júpiter, hoje temos uma imagem próxima da realidade do que deve ser aquele irmão grande da terra. Júpiter tem um núcleo metálico quente, talvez semelhante ao da terra, mas mais quente e maior, dizem até que ele talvez seja uma pré-estrela!

 

- Pré-estrela?

 

- Sim, um astro cujo interior seja tão quente que quase ocorram as reações nucleares que produzem luz e calor, como no Sol! Mas, voltando a constituição de Júpiter: em sua volta devem existir os mesmos materiais mais leves como o silício e o alumínio, formando uma capa ainda quente e depois já os elementos que não são comuns aqui na terra.

 

O professor fez uma pausa, e continuou:

 

- Nos planetas muito grandes, como Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, a forte gravidade consegue reter até mesmos os gases mais leves, como o Hélio e o Hidrogênio. A terra perdeu quase tudo que havia desses gases, deixando-os escapar para o espaço durante sua formação, e nos milhões de anos de sua idade, de modo que sua atmosfera é feita de gases mais pesados, como o Nitrogênio e o Oxigênio (que foi liberado pelas plantas). Em Júpiter não: grande quantidade de Hélio e Hidrogênio é a principal característica, e estes gases estão combinados como o Oxigênio, Nitrogênio e elementos como o Carbono, formando gases como o metano, amônia, formol, etc.

 

- Puxa uma atmosfera de amoníaco com formol! Eta lugarzinho desagradável! A observação de Cleto foi interessante. O professor aproveitou para tomar fôlego.

 

- Na verdade, existem muito mais coisas desagradáveis para um visitante terrestre que vá a Júpiter. Para começar, a própria gravidade que, à medida que descemos rumo a sua superfície, se torna maior. Uma pessoa, se encontrar uma superfície sólida em Júpiter, pesaria várias toneladas e morreria esmagada pelo próprio peso!

 

- Um planeta de regime obrigatório! - Beto disse isso batendo na algo avolumada barriga de Cleto.

 

- Continuando, a atmosfera de Júpiter é muito espessa. Na verdade, não temos idéia de onde ela termina, pois à medida que nos aprofundamos, a pressão é tanta que os gases se tornam líquidos, talvez existindo, a recobrir a superfície de Júpiter, um enorme oceano de amoníaco com formol. Indo mais fundo, a pressão de milhões atmosferas talvez cause a solidificação desses materiais, que então formariam uma espécie de "crosta".

 

- Espere um pouco aí! - interrompeu Cleto, e com razão - Mas, onde é que entra e eletrônica nisso tudo?

 

O professor fez um gesto para Cleto e acalmar e explicou:

 

- Entra exatamente agora: um planeta gigantesco, com núcleo metálico líquido, com violentos fenômenos, numa atmosfera espessa e ainda que gira rapidamente (Júpiter dá uma volta em seu próprio eixo a cada 6 horas, e como ele é muito maior que a terra, isso significa uma velocidade tangencial muito maior) tem de apresentar fenômenos elétricos muito importantes, que são justamente os que nos interessam.

 

- Agora sim! E quais seriam esses fenômenos? - Beto estava agora mais curioso.

 

- Conforme eu disse no começo, a terra apresenta uma ionosfera e um forte campo magnético, justamente por ter atmosfera algo espessa e por girar rapidamente. Multiplique isso algumas dezenas de vezes e vocês têm o que acontece em Júpiter. Além de uma gravidade que atrai tudo que passa por perto no espaço, Júpiter tem ainda um poderoso campo magnético e talvez uma ionosfera muito importante. Esse forte campo magnético, e a existência de uma ionosfera, fazem com que Júpiter se comporte como um gigantesco gerador de sinais espacial. Correntes intensas de elétrons, e outras partículas, circulam em torno do planeta gerando ondas de rádio. Júpiter é um gigantesco transmissor de rádio que concentra boa parte da sua energia na faixa de 18 a 30 MHz!

 

- Ondas Curtas! Dessa eu não sabia! - Cleto, sempre interessado em telecomunicações manifestava seu espanto.

 

- Na verdade, em determinados momentos, a emissão de sinais de Júpiter, nesta faixa, chega a ser mais forte do que a do próprio Sol, que é milhares de vezes maior e mais quente! Podemos dizer que, aqui na terra, os sinais que chegam mais fortes até nós em determinados momentos, são justamente os emitidos por Júpiter.

 

- É possível captar tais sinais? - A curiosidade de Beto aumentava, pois falava-se agora em ondas de rádio.

 

- Sim.! Com uma boa antena direcional e um receptor de comunicações, que tenha uma sensibilidade de pelo menos 1 microvolt ‚ possível "ouvir" Júpiter.

 

- A surpresa dos rapazes foi grande:

 

- Ora, então para captar os sinais de Júpiter não é preciso dispor daquelas grandes antenas parabólicas dos radiotelescópios?

 

Pegando um livro da estante, o professor Ventura trouxe mais algumas novidades:

 

- Veja! Esse é um livro de Radioastronomia para amadores, publicado nos Estados Unidos (Radio Astronomy For The Amateur - TAB BOOKS N. 714), e mostra como se pode adaptar um simples "receiver" que tenha a faixa de ondas curtas, e com um sistema de antenas, que cabe até no quintal, registrar os sinais de Júpiter. Muitos Radioastrônomos amadores usam técnicas simples para explorar ondas de mundos distantes, mostrando que Ciência pode ser feita com recursos simples!

 

Neste momento parece que os dois rapazes acordaram. A pergunta foi de Beto:

 

- Mas, e o tudo isso tem a ver com o cometa?

 

- Junte a ionosfera, o campo magnético, a atmosfera espessa, a gravidade poderosa, emissões de rádio potentes a um cometa que está passando, despreocupadamente por perto, e as coisas começam a acontecer!

 

Cleto fez mais uma observação:

 

- Puxa, já começo a perceber! O cometa é atraído, entra violentamente na atmosfera e, com isso, afeta campos magnéticos e a própria ionosfera de Júpiter causando fenômenos também elétricos, talvez enormes emissões de rádio, que facilmente serão captadas na terra, ou quem sabe até interfiram nos nossos sistemas de telecomunicações, certo?

 

Cleto raciocinava rápido, e isso lhe permitia chegar a conclusões facilmente. Ele estava mais uma vez certo, mas as explicações finais tinham de vir do professor Ventura.

 

- Vamos imaginar então a seqüência de fatos, como se filmada por uma câmara colocada numa astronave a uma distância segura. - O professor fez um gesto, como se estivesse empunhado uma câmara de vídeo e continuou:

 

- Um cometa nada mais é do que uma enorme rocha, com algumas dezenas de quilômetros de diâmetro e que é recoberta de certas "impurezas", como gelo comum, gelo sêco, partículas de poeira, etc. Como seu diâmetro é pequeno para ter uma gravidade importante, entre algumas centenas de metros a algumas centenas de quilômetros para os maiores, este material se mantém aglomerado, mais devido a baixa temperatura do que a qualquer outra coisa. Mas, de onde vem os cometas?

 

O professor foi brusco na mudança de assunto, incluindo uma pergunta, e olhando para os rapazes que prontamente responderam:

 

- Do espaço, é claro!

 

- Sim, mas de onde no espaço? - O professor insistiu, e como os dois não soubessem dizer, ele explicou:

 

- No espaço existe uma grande quantidade de corpos de pequenas dimensões que podem ter as mais diversas origens, segundo os astrofísicos, como por exemplo restos da formação de nosso sistema solar, restos de explosões de estrelas, etc. A maioria desses restos, que vaga próximo de estrelas ou planetas, acaba por perder sua parte "leve" ou seja, o gelo e a poeira e se tornam asteróides, caindo eventualmente nos planetas e nas estrelas, ou ainda vagando a sua volta como asteróides e planetóides e até satélites. Os grandes planetas, como Júpiter têm vários satélites que podem ter esta origem.

 

O professor levantou e foi até um quadro negro onde esboçou uma representação do sistema solar, com as estrelas mais próximas. O Sol ocupava, representado por uma bolinha, uma posição central e, a sua volta, giravam os planetas. As estrelas distantes eram também bolinhas, tendo algumas seus planetas. O professor Ventura tomou fôlego para continuar:

 

- No entanto, entre as estrelas, ou seja entre o Sol e as estrelas mais próximas, além dos confins de Plutão, a uma distãncia de várias dezenas de bilhões de quilômetros, existe uma região em que os corpos nela existentes ficam muito vagamente presos às gravidades dos astros maiores, uma espécie de "limbo" espacial. Um corpo nesta região estaria numa condição "indefinida", em que não se poderia dizer se ele pertence ao sistema solar, ou ao da estrela mais próxima (Alfa do Centauro), por exemplo. A temperatura neste local também é baixíssima, pois estaria muito longe do calor do sol ou de qualquer outra estrela. Em outras palavras, um cometa nesta região se manteria intacto ou "congelado" por bilhões de anos.

 

(Nuvem de Oort e Cinturão de Kuiper – Veja AST017)

 

- Uma chocadeira de cometas!... - brincou Beto.

 

- Sim, isso mesmo! Um astrônomo holandês, de nome Oort, foi que indicou pela primeira vez a possibilidade de nesta região do espaço existirem milhões de cometas "congelados", ou em processo de "incubação", esperando a vez para se manifestarem.

 

- Mas, como um cometa "acorda" dessa hibernação?

 

- Um pequeno distúrbio gravitacional na região de Oort e pronto: um cometa adormecido "despenca" em direção a estrela mais próxima, acelerando cada vez mais a medida que a gravidade se torna mais forte.

 

- Puxa! Vindo de tão longe a velocidade que pode adquirir é enorme! - A afirmação de Cleto tinha sua lógica. O professor não parou com a seqüência de explicações.

 

- É fácil calcular que a velocidade que o cometa chega ao Sol é a velocidade de escape do sistema. Na região de Júpiter essa velocidade está entre 80 000 e 200 000 quilômetros por hora!

 

- Nossa, é uma velocidade enorme!

 

- Se nenhum planeta "atrair" o cometa, tornando-o um satélite seu, o cometa tem duas possibilidade: cai sobre o Sol, sendo destruído, ou faz uma volta rápida nas suas proximidades para voltar ao espaço. Dependendo dessa volta, ele pode passar a girar periodicamente aproximando-se do Sol, como faz o Halley, ou ainda voltar para os confins do universo não mais retornando. O sol funciona como uma "catapulta" gravitacional, nesse caso.

 

O professor levantou então o dedo para um alerta interessante:

 

- Uma terceira possibilidade importante que ocorre nessa "visita" de um cometa é que se ele se aproximar muito de um planeta de grande gravidade, como nosso Júpiter, ele pode ser capturado ou destruído, ou seja, se partir em muitos pedaços. O cometa que vai agora cair em Júpiter, em sua órbita anterior já se despedaçou, e o que agora teremos na realidade será uma "chuva" de fragmentos e não propriamente um impacto direto!

 

Todos os cometas têm uma cauda, ou pelo menos devem ter, e este pormenor não foi esquecido por Beto, que estava impaciente, pois o professor não havia falado nada a respeito.

 

- Mas e a cauda?

 

- Sim, já chegamos lá: quando o cometa está congelado nada acontece, mas à medida que ele se aproxima do Sol, sua temperatura aumenta, e o material de sua superfície começa a se desprender, evaporando-se ou sendo pulverizado. Forma-se então a tradicional cauda.

 

- Realmente! Todo cometa deixa para trás uma cauda! - A afirmação de Beto levou o professor a uma censura:

 

- Para trás não! A luz solar exerce pressão, e o material desprendido e "empurrado” na direção contrária a do Sol. Quando o cometa se aproxima do Sol, a cauda realmente fica para trás, mas quando ele vai embora, a cauda vai na frente! Você nunca ouviu falar do "vento solar"?

 

Beto fez um sinal negativo com a cabeça. O professor continuou.

 

- No nosso caso interessa então o que vai acontecer com esse cometa que está indo em direção a Júpiter. Vamos filmar a cena!

 

O professor mudou de posição na poltrona:

 

- Atraído pelo Sol, nosso cometa deixou há alguns milhares ou até milhões de anos a região de Oort e já fez algumas órbitas em torno do Sol. No entanto, com uma força gravitacional descomunal, Júpiter acabou por mudar a "rota" desse cometa. A mudança foi tal, que numa primeira passagem muito perto de Júpiter e depois do Sol, ele se despedaçou e foi "capturado" pelo sistema solar. Uma fotografia recente tirada pelo Observatório Hubble, em órbita em torno da terra, mostrou que o cometa na realidade é formado por mais de 20 pedaços. Numa segunda órbita se constatou então a possibilidade de um choque! E, este choque está previsto para uma data entre o dia 18 e 21 de junho de 1994!

 

- É o fim do mundo! - brincou Beto...

 

Os rapazes imaginavam então a cena, talvez como num filme de George Lucas, com muitas explosões e fragmentos lançados no espaço. O professor continuou:

 

- Evidentemente, como o cometa vem dos confins do nosso sistema, seu choque em Júpiter deve ser "por trás" em relação à nós, pois Júpiter é um planeta externo.

 

- Não entendi! - Beto não conseguiu acompanhar o raciocínio. O professor resolveu explicar melhor:

 

- Júpiter está entre nós e o cometa. Isso significa que o cometa vindo de longe em direção ao sol vai atingí-lo, não na face que está voltada para nós e sim, do outro lado. –

 

Fazendo gestos e mostrando o desenho o professor conseguiu transmitir a idéia. Ele continuou:

 

- Quando o cometa se aproximar a algumas centenas de milhares de quilômetros de Júpiter as coisas já começam a acontecer. Nestas alturas ele já terá alguma cauda, resultante da evaporação dos gases mais leves, que também ajudam a expelir alguma poeira.

 

- O cometa, ou melhor dizendo seus pedaços, conforme mostraram as fotografias do Hubble tem ainda muitos gases e poeira restantes da última passagem. - Beto interferiu, pois tinha lido isso no jornal.

 

O professor continuou, sem se incomodar muito com a observação:

 

- Quando o cometa fragmentado atingir as camadas mais altas da atmosfera de Júpiter, o atrito vai aquecer e inflamar estes pedaços que tenderão até a explodir, fragmentando-se mais. Esse aquecimento ioniza os gases da atmosfera produzindo então um verdadeiro "curto-circuito" na ionosfera do planeta, pelas dimensões do fenômeno. Os sinais produzidos, pela sua intensidade, já poderão, quem sabe, ser detectados na terra, considerando-se o tempo que levam para chegar até aqui, de algumas dezenas de minutos.

 

- Por isso seria muito importante, não só observar visualmente fenômeno, como também ficar atento aos sinais eletromagnéticos da faixa de ondas curtas emitidos pelo planeta nesta hora.

 

- Sim, é isso mesmo Beto! Mas, o fenômeno não termina por aí. Penetrando profundamente na atmosfera de Júpiter, os pedaços do cometa provocam imensas ondas de choque e calor que podem ser comparadas a muitas bombas atômicas estourando simultaneamente e, sabe-se lá  de que forma, eles atingem a parte líquida e depois sólida do planeta. Uma marca ou mais, talvez semelhante a famosa "mancha vermelha" de Júpiter seja produzida.

 

- Mancha vermelha? O que é isso? - Beto, conhecendo pouco astronomia, nunca tinha ouvido falar do "acidente geográfico" mais famoso de Júpiter.

 

- Júpiter tem uma atmosfera espessa e nada se vê de sua superfície, que mal sabemos se tem regiões líquidas e sólidas, e a que profundidade. Assim, tudo o que vemos naquele planeta são faixas de nuvens que mudam constantemente. Não existe nenhum detalhe fixo em Júpiter como, por exemplo, os contornos de continentes, como na terra, montanhas e vales na luz, etc. No entanto, existe um único objeto que tem se mantido mais ou menos constante na superf¡cie de Júpiter durante muitos anos: uma mancha vermelho-alaranjada, algumas dezenas de vezes maior que a terra, e cuja origem não sabemos explicar totalmente.

 

- Uma enorme pedra? - era uma suposição de beto.

 

- Evidentemente não! Não se acredita que na superfície de Júpiter uma estrutura de tais dimensões possa se manter sólida e visível daquela forma. As suposições são de que se trata de uma "abertura" na atmosfera que permite ver o interior quente do planeta, ou turbulências das camadas inferiores da atmosfera, onde teria caído talvez a milhares de anos um cometa.

 

- E o fenômeno pode se repetir agora?

 

- Exatamente! Cleto tem razão, e isso justifica o interesse pelo impacto. Voltando então à queda do cometa, que interrompemos "na metade", o que pode ocorrer é que esta onda de choque "abra um buraco" na atmosfera, expondo o ponto de impacto a milhares de quilômetros abaixo, onde uma fantástica explosão vai ocorrer com a produção de muito calor.

 

- E nós não vamos ver isso! - O desapontamento de Beto tinha explicação. Novamente entrou em ação o professor:

 

- Sim, mas não neste momento. Conforme eu expliquei, os impactos ocorrem na face que não está voltada para o lado da terra. Mas os fantásticos resultados da explosão permanecerão por um bom tempo, e em menos de 3 horas, com a rotação rápida do planeta, o local dos impactos estará aparecendo para nós. Aí será possível ver o que ocorreu: provavelmente, uma enorme abertura na atmosfera, com uma emissão de luz devido ao calor remanescente, e os resultados da onda de choque que se propagam pelo planeta!

 

- E os fenômenos elétricos?

 

- Certamente serão fenomenais! - comentou o professor - Um enorme curto-circuito na ionosfera, e a turbulência das correntes atmosféricas, deverão gerar descargas elétricas monumentais, ou seja, raios. Estes serão acompanhados pela emissão de ondas em todo o espectro, é claro com uma concentração nas frequências mais baixas que chegarão até nós. Esta turbulência deverá durar dias, semanas ou até mesmo anos, com uma atividade elétrica intensa.

 

- Mas e a destruição de Júpiter? Existe alguma possibilidade?

 

- Evidentemente, a integridade do planeta não corre perigo algum. Mesmo chocando-se com a terra, um planeta muito menor, um cometa como este poderia no máximo abalar a vida, e é o que se julga ter ocorrido quando da destruição dos dinossauros. Júpiter, entretanto, não tem vida conhecida, e muito pouco de sólido permanente para ser destruído. teremos apenas a movimentação de grandes massas de matéria e muita energia, que certamente vai ter algum efeito sobre nós.

 

- Um tiro numa bola de gelatina! - O comentário de Beto servia muito bem para descrever o que provavelmente ocorreria em termos gerais.

 

A observação de tudo isso, na prática, entretanto, é o que mais mexia com a curiosidade de Beto e Cleto.

 

- E qual seria a chance de vermos tudo isso?

 

O professor deu algumas esperanças:

 

- Mesmo sendo um fenômeno de enormes dimensões, a distância de Júpiter até nós não pode ser considerada pequena. As seis centenas de milhões de quilômetros que temos até lá,  nas melhores condições, e agora ele está um pouco mais longe, não facilita muito as coisas para quem quer fazer uma observação.

 

- Que tipo de instrumentos precisamos ter?

 

- Com um telescópio pequeno, aumentando umas 30 vezes e com objetiva de 5 cm Galileu descobriu as 4 luas maiores de Júpiter! Um telescópio pequeno já permite ver Júpiter como uma ervilha ou até uma bolinha de gude, e em condições muito favoráveis poderemos, com um aumento de 100 a 200 vezes, e uma objetiva de pelo menos 7,5 cm ver algumas faixas de nuvens pois, é difícil prever exatamente o que pode acontecer. A observação de pormenores, entretanto, deve ser deixada para os grandes instrumentos dos observatórios.

 

- Isso significa que temos mais chances com o rádio? - Beto poderia estar com a razão.

 

- Para dizer a verdade, acho que teríamos mais chances de descobrir alguma coisa ligando um bom receptor de ondas curtas a uma boa antena e sintonizá-lo fora de estação, ligando-o a um registrador gráfico ou a um conversor A/D à entrada de um computador, com programa de aquisição de dados, do que ficar olhando para cima, mesmo que com um bom telescópio. (O artigo é 1994)

 

- Puxa!

 

As explicações do professor Ventura foram mais do que suficientes para dar uma visão real do que iria ocorrer. Se realmente foi assim, e que resultados teve a ciência com a observação do fenômeno, fica por conta do leitor que pode fazer a comprovação do que dissemos nesta estória escrita alguns meses antes do dia previsto para que tudo acontecesse.

 

 

Publicado originalmente em 1994

 

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