O Site do Hardware Livre - OSHW

Professor Ventura em: Controle Remoto

Quando o Professor Ventura resolve projetar um novo circuito de controle remoto, só podemos esperar resultados espetaculares, muito além das coisas comuns, como maior alcance ou maior número de recursos. Que tipo de complicações, ou interferências, um pequeno transmissor de controle remoto com características especiais pode causar é algo que vai surpreender o leitor nesta estória. Os leitores vão ver de que modo um simples brinquedo eletrônico pode causar muita confusão numa pacata vila da cidade de Brederópolis!

Quando Beto e Cleto entraram no laboratório do Professor Ventura, a reação não podia ser outra: dois grandes sorrisos e uma porção de exclamações e perguntas! De fato, na bancada havia um lindo aeromodelo e o Professor mexia na caixa aberta do transmissor de controle remoto!

- Puxa! Um drone com controle remoto! - exclamou Beto.

- Quando o senhor o comprou, não o vimos viajar nestes dias?... - perguntou Cleto.

- Quando vai experimentá-lo? - perguntou Beto sem deixar o Professor responder a primeira pergunta.

- Calma! Uma pergunta de cada vez! - o Professor parou por um instante de mexer no transmissor e, olhando para os dois, com a chave de fendas na mão, continuou - O transmissor e o receptor já os tenho há um bom tempo, pois desenvolvi com componentes comprados na Mouser Electronics , como sempre faço e tenho trabalhado nele todas às noites em minha casa. Ontem ele ficou pronto.

- Puxa! E não falou nada para nós! - reclamou Beto.

- Eu queria fazer uma surpresa! Na verdade, só queria mostrá-lo depois de fazer um teste e ter certeza de que funciona perfeitamente! - o Professor disse isso meio frustrado, por não ter conseguido esconder o drone até a hora do teste.

- Ora, Professor! - reclamou Cleto.

Procurando "reparar" as coisas, o Professor teve então uma idéia:

- Por que vocês não me ajudam a experimentá-lo?

- Mas, claro que sim! - responderam os dois.

Beto e Cleto já iam pegar o drone e a pequena caixa do transmissor, que o Professor acabou de fechar, para levá-lo para um lugar aberto, quando foram interrompidos:

- Esperem um pouco! Antes de irmos preciso lhes explicar alguns detalhes técnicos desse projeto, pois se trata de um controle um pouco diferente do convencional! Vocês não querem saber como funciona a "coisa"?

- Diferente? - estancou Beto com o transmissor na mão.

- Sim! Eu acrescentei algumas "sofisticações" tanto no transmissor como no receptor, e é bom que vocês as conheçam, para o caso de eu precisar de sua ajuda "técnica"!

- Vamos lá então! - Cleto disse isso já se acomodando numa cadeira, pois sabia que a explicação do Professor Ventura não ia ser muito curta, e ele certamente iria usar o quadro branco. Foi exatamente isso o que ele fez!

Pegando o pincel negro, o Professor começou desenhando um diagrama de blocos que correspondia ao transmissor. Ao mesmo tempo ele foi explicando:

- No transmissor, aumentei bem a potência em relação aos tipos convencionais, de modo a garantir que o drone não saia do raio de ação do aparelho, perdendo-se. Usei para esta finalidade uma placa Lora (Long Range) da Microchip comprada na Mouser de modo a garantir maior alcance possível para o sistema digital de controle.

- Que potência o Senhor conseguiu? - perguntou Beto, curioso.

- Neste tipo de comunicação não é a potência que importa, diferentemente dos controles remotos à moda antiga, com modulação em frequência, PWM ou amplitude. Trata-se de um sistema digital com tecnologia de espectro espalhado e salto de frequências. Estreita-se a banda, com certa perda na taxa de dados, e com isso aumenta-se a penetração do sinal. Com fração de watt se consegue quilômetros... Hoje existem sistema LoRa que, usando uma pequena bateria de 2,7 V podem alcançar mais de 5 km. Serão o futuro da Internet das coisas.

- IoT. Puxa! – Completou Beto

- Mas ‚ em relação ao sistema de codificação que temos algo mais interessante. Há algum tempo atrás comprei numa sucata algumas placas de controles remotos industriais usados em elevadores, esteiras e guindastes além de outras máquinas que devem ser controladas por operadores a distância, sem fio.

- Como as esteiras que carregam limões na Bredessuco? - Beto se referia à fábrica de bebidas à base de limão, que era a maior industria da cidade.

O Professor confirmou:

- Sim, isso mesmo! Nas placas desses aparelhos haviam circuitos integrados de codificação e decodificação muito interessantes, pois operando com códigos digitais eles continham tudo para um controle remoto multicanal eficiente e seguro! Não precisam de bobinas difíceis de calcular e enrolar, nem nada! basta ligá-los ao sistema de transmissão e recepção!

- Puxa! A placa Lora. Isso facilita o projeto! - comentou Beto.

- Principalmente do receptor, onde temos limitações de peso e tamanho, como no drone! - completou o Professor.

Indo ao drone, o Professor explicou como funcionavam os controles de vôo:

- Temos diversos servos que são acionados digitalmente pelos canais. Temos um para cada motor. Deixei ainda canais livres para outras funções que podemos acrescentar. O interessante é que os controles são proporcionais o que permite realizar manobras muito precisas!

Cleto não sabia bem o que era um controle remoto "proporcional". O Professor explicou:

- No sistema proporcional você não liga ou desliga alguma coisa à distância simplesmente, mas a movimenta de modo linear ou contínuo, de modo a colocá-la em qualquer posição escolhida entre dois pontos. Num carro, sem este recurso, ou ele vira todo para a direita ou todo para esquerda e não tem precisão de controle de seu movimento. Com este recurso você pode virar a direção pouco ou muito, fazendo uma curva mais ou menos fechada, e suavemente!

O Professor disse isso, desenhando no quadro negro curvas de diversos raios.

- Podemos ir então? - Beto estava impaciente.

- Claro que sim!

Munidos de um grande arsenal de coisas que, além do drone e do transmissor, incluía uma maleta de ferramentas, para o caso do drone precisar de alguma manutenção, um ótimo binóculo Zeiss de 10 x 50 e até uma garrafa de água com um pacote de biscoitos, lá  foram os três para o local escolhido.

O carro do Professor Ventura só pode chegar até o cemitério, no alto da colina que liga a cidade à Vila Nova. Dali tomaram uma trilha junto ao muro do cemitério e, passando pelo bosque, chegaram à uma encosta com vegetação baixa. Essa encosta terminava num enorme pasto abandonado, uma das poucas grandes áreas da cidade não tomada pelas plantações de limão. De fato, Brederópolis tinha sua economia toda baseada na plantação de limões e na fábrica de sucos!

- Aqui está bom! - estancou o Professor colocando a pesada carga no chão.

Os três estavam na encosta, e dali seria fácil controlar o drone, pela visão que tinham, e pela possibilidade de se fazer aterrissagens de emergência num terreno macio e de fácil acesso.

Acionaram o controle. Os quatro motores elétricos entraram em funcionamento e o drone levantou voo suavemente.

- Funciona! Olhem só como responde aos comandos! - O Professor Ventura, entusiasmado, com o transmissor na mão, se familiarizava com os controles, fazendo diversas manobras.

Os três estavam divertindo-se e muito com o pequeno aparelho voador, sem se preocupar com outras coisas que ocorriam naquele mesmo momento na pacata Brederópolis.

A colheita naquele ano superou as expectativas e os caminhões de limão entravam e saiam da Bredessuco, deixando sua preciosa carga nos silos de armazenamento. Os enormes caminhões basculantes especiais, carregando mais de 20 toneladas de limões vinham de todas as partes rumo à fábrica. Estes caminhões, entretanto, tinham um recurso interessante: o movimento da carroceria de carga e descarga dos limões era automatizado! Sim, isso mesmo!

Uma placa wireless colocada na cabine do operador do silo acionava a carroceria quando o caminhão se posicionava, e isso a fazia levantar e deixar cair todos os limões numa abertura de acesso. Era tudo automático! No final da operação o operador abaixava a carroceria, e dava sinal para o motorista sair do local! O controle era sofisticado, pois era possível fazer o acionamento com base no número do caminhão.

Mas havia um ponto tenebroso a ser considerado: os sistemas usados no controle remoto do Professor Ventura e nos caminhões da Bredessuco eram os mesmos e até a faixa frequência de operação era a mesma! O pior, a placa do professor era de longo alcance! E, foi por causa disso que as coisas começaram a tomar um rumo preocupante!

Naquele mesmo instante em que o Professor Ventura, Beto e Cleto testavam animadamente o drone, a menos de 1 quilometro dali e, portanto, dentro do alcance do transmissor, subia pesadamente a ladeira que saia da Vila Nova em direção a Brederópolis, mais um caminhão carregado de limões!

Pouco acima do meio da ladeira, eis que o caminhão cruza com um personagem muito conhecido na cidade, e também dos nossos leitores: Epaminondas Portentoso e sua tuba! Animadamente o músico da banda havia terminado sua apresentação da tarde no coreto voltando, como sempre, assobiando uma marcha de Sousa.

Acostumado com as idas e vindas dos caminhões, ele só se importava com isso quando os pesados veículos que passavam pela Vila Nova, balançando um pouco as coisas na sua casa. Por isso, ele nem sequer olhou para o pesado veículo. Na verdade, não gostava de limões!

- Limões! Bolas!

Epaminondas estava a menos de 50 metros do caminhão, quando as transmissões do controle remoto do Professor Ventura foram captadas pelo receptor do pesado veículo e o resultado foi interessante: a codificação que Professor havia usado para controlar uma das funções do drone era a mesmo que havia sido programado para acionar a carroceria basculante e fazer a descarga! E, foi justamente o que ocorreu em alguns segundos!

A carroceria rangeu e, mais de 20 toneladas de limões foram despejadas na rua formando uma estranha torrente, que começou a ganhar velocidade ladeira abaixo! O motorista só percebeu isso quando o caminhão "ficou mais leve", mas era tarde demais para interferir com o controle manual! Bem na frente da avalanche, um primeiro alvo deslocava-se despreocupadamente: o Epaminondas!

O baixinho, diante do barulho estranho dos limões, olhou para trás e o que viu o fez gritar apavorado:

- Uaiiii!.....

Dando um pulo, e segurando firme sua tuba, ele correu! E como correu!... Atrás, uma verdadeira parede verde de limões que ameaçava alcançá-lo! Epaminondas ainda pensou em sair da frente da torrente, deixando-a passar, mas naquele trecho não havia possibilidade: de um lado um muro longo e do outro uma cerca de arame farpado!

O interessante de tudo isso é que a topografia do local fazia com que a rua funcionasse como uma canaleta dirigindo, e muito bem, os limões atrás do Epaminondas, e em direção à Vila Nova.

Epaminondas, com o "enxame" de limões atrás, atravessou a ponte sobre o córrego e entrou na Vila Nova a toda! Muitos limões caíram no córrego, mas o que sobrou era mais do que suficiente para assustar qualquer um e fazer estragos!

- Minha casa! Finalmente!... - Exclamou, ofegante, o músico, ainda perseguido por milhares de limões que pareciam ter especial interesse em alcançá-lo.

Abrindo o portão, o músico praticamente arrombou a porta da frente, atravessou a sala e entrando no quarto, como sempre fazia quando estava assustado, mergulhou com a tuba e tudo debaixo de sua cama! Nesse trajeto ele ainda teve tempo de gritar para sua esposa:

- Pafúncia! Socorro!...

Como sempre ocorria quando Epaminondas entrava correndo em casa, Dona Pafúncia se munia de uma vassoura e esperava pelo pior, pois sabia que tinha "encrencas" pela frente. Mas, desta vez o problema não ia ser resolvido com uma ou duas vassouradas!

Indo para a porta da frente, que estava aberta, a mulher não teve sequer tempo de gritar! Derrubada e arrastada por uma torrente de limões, ela largou a vassoura! Os limões, como que dirigidos por uma mão invisível, invadiram o quarto onde estava Epaminondas, formando uma massa de pelo menos 2 metros de espessura, eles cobriram tudo, soterrando sob a cama o pobre músico com sua tuba!

O motorista do caminhão, desesperado, chegou logo em seguida estacionando o pesado veículo na porta da casa "inundada" e com ele os moradores da Vila Nova que, retirando os limões, da maneira como podiam, tentavam socorrer Dona Pafúncia e o Epaminondas. Dona Pafúncia ainda gritava:

- Salvem primeiro meu marido! Ele está "soterrado" no quarto! Pobre Epaminondas! Vai afogar, e logo nos limões que ele detesta!

Neste momento, o Professor Ventura, Beto e Cleto recolhiam o drone que havia feito uma aterrissagem forçada do outro lado do pasto!

- Acabou! A última bateria está quase descarregada! Vamos embora! Valeu o teste! - disse satisfeito o Professor.

- Vamos sair por aqui que é mais fácil! - comentou Beto apontando para a cerca de arame e uma trilha próxima junto ao bosque.

- É verdade! Saímos na Vila Nova e subimos a ladeira!

Foi o que fizeram, só que não esperavam encontrar na entrada da Vila Nova, uma cena de tanta confusão! Uma multidão na frente da casa do Epaminondas, um caminhão da Bredessuco vazio, a rua com limões por toda parte, e a casa invadida quase "até o teto" pelas pequenas frutas! O Professor parou com Beto e Cleto, bem a tempo de ver o Epaminondas com sua tuba ser carregado para fora meio zonzo!

- O que houve? - perguntou o Professor espantado diante dos "estragos".

- A carga do caminhão se soltou, justamente na subida, e a torrente de limões invadiu a casa! Felizmente ninguém se feriu! - explicou alguém.

- Ainda bem! - concordou o Professor.

Um amigo do Professor, que sabia que em 99,9% das confusões da cidade, ele estava envolvido e que estava, coincidentemente, ao lado ainda comentou:

- Ainda bem que desta vez o senhor não tem a nada a ver com isso! Não é verdade?

- É isso mesmo! E vocês estão vendo! - comentou o Professor, olhando sério para o inoportuno observador, mas ao mesmo tempo, aliviado, com o que Beto e Cleto concordaram acenando com a cabeça e dizendo.

- Ainda bem!

O Músico, que havia sido retirado "fisicamente intacto", com sua tuba, de baixo da cama ainda meio tonto tentou soprar o instrumento para ver se não tinha ocorrido algum estrago:

- Pfffffff!. - não saiu nenhum som!

- Está entupido! - e virando a tuba para baixo deixou cair pelo menos uma dúzia de limões!

Epaminondas então explodiu:

- Argh! Detesto limões! Detesto limonada! Agora minha casa, minha mulher e até minha preciosa tuba vão ficar com gosto dessa maldita fruta pelo resto da vida! Não podia haver desgraça maior!

Dona Pafúncia, que até então só observava os estragos, começou a chorar! Alguns vizinhos a consolaram! O motorista da Bredessuco procurou aliviar o problema dizendo que a empresa pagaria todos os prejuízos, inclusive comprando uma tuba nova...

O Professor já estava saindo do local, segurando o transmissor, quando, sem querer deu um leve toque no botão do controle remoto do drone. O restante da carga da bateria foi suficiente para alimentar do circuito e... ao lado, no caminhão estacionado ele percebeu então um leve zumbido e a carroceria se moveu! Parando, por um instante, ele deu um novo toque, agora com Beto e Cleto observando! A carroceria se moveu mais um pouco!

- Gulp! - O Professor engoliu em seco!

Beto que olhou para lados, para ver se ninguém tinha notado aquilo, falou baixinho para o Professor:

- Quem disse que não temos nada a ver com isso! É melhor cair fora daqui, e bem rápido antes que descubram! - e de fininho, tentando esconder o transmissor, e bem quietos para não despertar suspeitas os três saíram rapidamente da Vila!

Felizmente não foi descoberta a verdadeira causa do "desastre" para felicidade de nossos heróis, que imediatamente "desativaram" o perigoso drone, o Controle Remoto, e juraram não falar no assunto por um bom tempo!

BUSCAR DATASHEET

 


N° do componente 

(Como usar este quadro de busca)

 

Opinião

Mês de Muito Trabalho (OP197)

   Estamos em setembro de 2018 e continuamos com nosso trabalho, realizando palestras, viagens, escrevendo artigos, livros e muito mais. Em nossas duas últimas palestras, uma na Uninove e a outra na ETEC Albert Einstein, ambas de São Paulo, pudemos constatar de forma bastante acentuada um fato importante , que constantemente salientamos em nosso site desde seu início. 

Leia mais...

Sociedade
Se uma sociedade livre não pode ajudar os muitos pobres, não poderá salvar os poucos ricos. (If a free society cannot help the many who are poor, it cannot save the few who are rich.)
John Fitzgerald Kenneddy (1917 - 1963) - Discurso de posse em 1961 - Ver mais frases


Instituto Newton C Braga
Entre em contato - Como Anunciar - Políticas do Site

Apoio Social
Lions Clube de Guarulhos Sul SOS Mater Amabilis
Advertise in Brazil
If your business is Electronics, components or devices, this site is the correct place to insert your advertisement (see more)