Professor Ventura em: Um problema de tamanho

Escrito por Newton C Braga

Existe algum tipo de problema de hardware ou mesmo software em que a melhor solução seja cortar o pé da mesa do computador e também o pé da cadeira do operador? Se o leitor pensa que isso é algum tipo de brincadeira, certamente não conhece o Professor Ventura, e nem sabe dos interessantes acontecimentos que levaram a esta estória. Nela mostraremos que isso, não só é possível, como também, que pode ser a solução, não de um, mas dois de problemas.

 

Com a maleta de ferramentas numa mão e multímetro na outra, o professor caminhava apressadamente rumo à secretaria da Escola Técnica de Brederópolis, quando foi interceptado por Beto e Cleto.

 

- Algum problema professor? - Beto, sempre curioso em relação ao que professor fazia, era também muito cooperativo, e se o velho mestre precisasse de ajuda, certamente ele não a negaria.

 

- Sim! Parece que o computador do Argemiro está com problemas! "Apagou" pela terceira vez esta semana!

 

Argemiro era o funcionário da secretaria responsável pelo registro de notas e todo controle de frequência dos alunos, o que fazia num velho Pentium III, algo lento mas que ainda funcionava bem.

 

Todos gostavam do simpático funcionário, apesar dele apresentar um "defeito" físico: tinha apenas um metro e meio de altura, e por isso foi chamado, durante muito tempo, pelo apelido de "baixinho", até que a era da informática chegou e levou os alunos a uma mudança radical, também na maneira de chamá-lo. E esse novo apelido tinha uma estória especialmente interessante.

 

Repentinamente, os alunos do curso de informática, de uma maneira que parecia carinhosa, passaram a chamá-lo de "Arge". A maioria das pessoas, e o próprio Argemiro, pensavam que esse apelido era resultante da redução de seu nome às quatro primeiras letras.

 

- Melhor do que "baixinho"! - aprovava o funcionário.

 

No entanto, algum tempo depois, foi descoberto que tudo tinha sido inventado por alguns alunos maldosos do último ano, e nada tinha a ver com o verdadeiro nome do funcionário. O motivo do apelido era justificado por uma interessante estória, que passava de boca em boca:

 

"Quando ele foi gerado, o pai passou o "código genético" na forma "compactada". Daí, como ele nasceu prematuro, a mãe não teve tempo de "descompactar" o arquivo e ele não cresceu!"

 

Ocorre que naquela época, um dos programas mais conhecidos de compactação e descompactação de arquivos, por coincidência era chamado ARJ!... E, em sua função a estória continuava:

 

"Logo após o parto, a mãe, ainda enfraquecida, percebendo o problema que afetaria a criança, ainda chamou o marido Valdomiro (que ela chamava carinhosamente de "Miro"), tentando lhe alertar:

 

" - O ARJ, Miro!... O ARJ, Miro!..."

 

O marido não entendeu bem o que ela queria dizer mas... Depois de pensar um pouco exclamou vitorioso!

 

"- Já sei! - e correu ao cartório para registrar o recém-nascido: Argemiro!... E o Argemiro não cresceu!

 

- Ora! Então o problema é com o computador do Arge! Podemos ajudar?

 

- Venham comigo! - disse o professor.

 

O lugar em que o Argemiro trabalhava não era dos mais espaçosos. O computador ficava encostado junto a uma janela com uma cortina tipo painel e que podia ser deslizada para controlar a luz. O espaço, por trás do funcionário dava apenas para a sua cadeira, pois havia um enorme armário, onde pastas de arquivos e documentos eram empilhadas. Tudo aquilo era separado da sala principal por uma divisória de madeira. Com muito custo o professor e os dois alunos podiam entrar naquele cubículo.

 

Quando chegaram, notaram imediatamente algo interessante que nunca tinham comprovado pessoalmente, mas que era comentado na escola: o Argemiro quando trabalhava ficava com os pés no alto, balançando, pois sua altura não permitia que eles alcançassem o chão.

 

"- Devia faltar uns 10 cm!" - avaliou Beto cutucando Cleto, que logo percebeu.

 

O professor Ventura perguntou então ao funcionário o que estava acontecendo realmente com o computador.

 

- Na mesma hora, nos últimos três dias ele "apaga"! Nas duas primeiras vezes bastou desligá-lo por algum tempo, e depois ligar, que o problema desapareceu. No entanto, como corro o risco de perder arquivos importantes, hoje, logo que ele apagou achei que era preciso fazer alguma coisa.

 

- E hoje? Quanto tempo faz que ele apagou? - perguntou o professor Ventura, já tomando lugar do baixinho, que se espremeu com Beto e Cleto no pequeno espaço da saleta.

 

- Algo em torno de meia hora! O tempo suficiente para mandar chamá-lo.

O professor sentou-se diante do computador, ajeitou a cadeira e ligou a máquina. Para surpresa do Argemiro, o boot foi conseguido normalmente e o programa de trabalho foi carregado.

 

- É exatamente isso! Como das outras vezes! Quando o problema aparece, basta desligar a máquina e esperar. Na primeira vez, desliguei e liguei o computador diversas vezes em seguida, mas ele se negava a funcionar.

 

Olhando preocupado para o professor, ele explicou.

 

- Já havia desistido, e sai para procurar ajuda. Como não encontrei ninguém, depois de meia hora, pois o Senhor não estava no laboratório, voltei e resolvi tentar novamente! Para minha surpresa o funcionamento foi normal, como agora.

 

- Estranho! E, você diz que isso ocorre sempre na mesma hora? - perguntou o professor.

 

- Sim! Na segunda vez, o problema ocorreu na mesma hora. O computador apagou e, mesmo depois de desligar e ligar novamente a máquina, esperando uns 5 segundos entre estas operações, é claro, nada aconteceu. Lembrando o ocorrido no dia anterior, resolvi esperar meia hora. Quando liguei novamente, o PC funcionou normalmente.

 

O professor começou por examinar as conexões do cabo de força. Depois foi a saída de baixa tensão da fonte para verificar tensões, pois o fato dele apagar completamente seria indicativo de que algo vai mal com a fonte de alimentação. No entanto eles não revelaram nada de anormal. Com cuidado, o velho mestre, abriu a unidade de sistema e examinou se todas as placas verificando se estavam bem firmes e até os circuitos integrados que estavam em soquetes, já que o computador, algo antigo ainda usava essa tecnologia.

 

- Podem se soltar dos soquetes com o esquenta-esfria do dia a dia, quando ligamos e desligamos a máquina! - explicou o professor.

 

Olhando os cabos externos e até o posicionamento do computador junto à parede, ele verificou que a ventilação estava normal.

 

- Foi instalada alguma placa nova no computador ou feita alguma atualização? - O professor queria saber tudo.

 

- Sim! Acrescentamos um drive gravador de CD-ROM. Precisamos gravar os arquivos em CD para não perdê-los. É mais fácil de arquivar.

 

- E foi depois disso que o problema apareceu?

 

- Para dizer a verdade não acredito que exista alguma relação. O Drive foi instalado no começo de junho e o problema só está aparecendo agora que estamos no final de novembro?

 

Havia uma possibilidade de que os apertos de cabos e placas pudessem ter sanado o problema, já que nos testes nada tinha sido revelado. Mas, para saber se o conserto tinha dado certo seria preciso esperar o outro dia.

 

O professor não se sentia muito confortável. Um tipo de problema bastante desagradável  com qualquer equipamento eletrônico é o que se manifesta de maneira intermitente. Se o profissional não estiver diante do aparelho, exatamente no momento em que ele se manifesta, fica bastante difícil descobrir sua causa.

 

No dia seguinte, no laboratório, Beto e Cleto puderam ver quando o professor atendeu a chamada pelo interfone interno.

 

- Problemas! O PC do Argemiro "apagou" novamente!

 

Olhando relógio, Cleto informou:

 

- Três e quinze! Na mesma hora!

 

- E, lá vamos nós! Quem sabe "flagramos" o computador no defeito.

 

Pegando a maleta de ferramentas e o multímetro, o professor e os rapazes correram para a sala do Argemiro.

 

Quando o Professor Ventura, Beto e Cleto se espremeram com o Arge na saleta, puderam observar que a unidade de sistema estava apagada. O LED do monitor entretanto, estava aceso.

 

Pedindo para o funcionário sair, o professor ocupou seu lugar e começou a analisar o problema.

 

Observou se todos os cabos estavam bem conectados principalmente o de alimentação. Nada!

 

Desligando PC, o professor abriu a unidade de sistema.

 

Novamente, foi o tempo suficiente para o problema desaparecer. Quando o professor ligou a alimentação, já pronto para tirar medidas de tensão na saída da fonte, usando o multímetro, o boot foi normal e o programa de trabalho do Argemiro, chamado pelo AUTOEXEC carregou normalmente.

 

O professor ainda esperou pelo menos uma hora para ver se o computador "apagava" novamente, mas como isso não ocorreu ele fechou novamente a unidade de sistema.

 

Deixando o local ele avisou:

 

- Se travar novamente, me chame!

 

Mas, ele tinha outras idéias: seria interessante estar diante do PC exatamente no momento em que o defeito ocorresse. Mais que isso, ele anotaria todos os procedimentos do operador e tudo que ocorria na própria máquina até o momento do defeito para poder ter alguma pista!

 

Faria isso no dia seguinte, e se o problema ocorresse novamente a levaria para seu laboratório para uma análise melhor. Enquanto isso, reunindo a documentação técnica do computador, faria uma pequena análise tentando descobrir uma eventual "pista" para o estranho defeito.

 

O professor chegou ao escritório do Arge exatamente Às 2 e meia, acomodou-se numa cadeira no pequeno espaço disponível, e ocupou um "posto de observação", ao lado do funcionário.

 

Tudo ia bem, até que as três horas a saleta começou a ficar clara de demais. O professor observou então que o sol, naquele instante, incidia diretamente pela janela atrapalhando a visão do monitor. Instintivamente o funcionário puxou parcialmente o painel por trás da janela, tampando o foco direto de luz. Ele explicou:

 

- Nesta época do ano acontece isso, mas por pouco tempo. Daqui a meia hora, o sol se esconde por trás do telhado do prédio à nossa frente e posso abrir novamente a cortina.

 

O professor indicou que tinha entendido, mas não falou nada.

 

Depois de 15 minutos o problema apareceu. O computador "apagou" bem diante do professor. A tela do monitor apagou completamente, se bem que o LED indicador do painel continuasse aceso. Na unidade do sistema tudo apagado! A ventoinha da fonte de alimentação parou.

 

- Aconteceu! - exclamou vitorioso o funcionário, num misto de contente de ter o professor ao lado bem naquele momento, mas preocupado por estar novamente diante do problema.

 

O professor levantou-se, olhou o computador por trás, olhou sério para o Argemiro, olhou para a janela, até que finalmente sentou-se pensativo na cadeira depois de desligar a alimentação.

 

Sem fazer nada, para surpresa do Argemiro, o velho mestre simplesmente esperou...

 

Depois de meia hora, o sol desapareceu por trás do telhado do prédio e o Arge imediatamente abriu novamente o painel.

 

Sem dizer nada, o professor ainda esperou uns minutos e ligou novamente o computador. Para surpresa do funcionário, o boot foi normal e, novamente, o programa de trabalho foi carregado.

 

Argemiro estava novamente surpreso, principalmente pelo fato do professor não ter feito nada para descobrir sua causa, se bem que o professor não pensava assim.

 

- Como é professor, e agora?

 

- Descobri! - e saindo rapidamente do apertado local de trabalho professor, sem dar maiores explicações, foi até seu laboratório.

 

Beto e Cleto estavam no laboratório quando o professor entrou e saiu correndo, dizendo que tinha encontrado o problema do PC do Argemiro e que ía resolvê-lo facilmente.

 

- Na verdade, vou resolver dois problemas!

 

Mas, o que assustou os dois rapazes, que correram atrás do professor, foi o fato dele empunhar um enorme serrote!

 

De serrote na mão, o Professor Ventura entrou rapidamente na saleta do Argemiro e, se fechou por dentro.

 

Depois de ouvir barulhos de coisas sendo arrastadas, os rapazes, Argemiro e alguns funcionários da escola, algo assustados pela intempestividade do velho mestre ouviram claramente que alguma coisa estava sendo serrada.

 

- Vai serrar a unidade de sistema "ao meio" e isolar o problema! - comentou baixinho Cleto, procurando amenizar o problema.

 

- Que nada! Acho que sei o que ele está serrando!

 

Mas, o Argemiro era o mais preocupado:

 

- Espero que ele saiba o que está fazendo! Já vi muitas loucuras do professor Ventura...

 

Algum tempo depois, o professor abriu a porta com ar vitorioso:

 

- Pronto! Dois problemas resolvidos ao mesmo tempo!

 

E, apontando para o interior da saleta, com as mãos espalmadas, pediu para o Argemiro entrar. As outras pessoas, não cabendo folgadamente ali, apenas esticaram os pescoços procurando ver o que o professor tinha "aprontado".

 

No entanto, o que o Argemiro viu pareceu não lhe agradar nem um pouco... Muito pelo contrário! O baixinho "explodiu", partindo imediatamente para agredir o Professor Ventura, que se protegeu atrás de uma mesa. Não fosse seguro por Beto e Cleto ele teria "acertado" o velho mestre!

 

- Seu desgraçado! Tá querendo me "gozar"! Cortou o pé da mesa e da cadeira só para "adaptar" a altura do computador à minha altura, e vem dizer que o problema está resolvido!... Baixinho é...

 

- Calma! Calma que eu explico!...

 

- Como explicar! Cortou 10 centímetros dos pés da mesa do computador e da cadeira e tem explicação para um defeito de um computador que "apaga"!

 

A confusão aumentou, acabando por chamar a atenção do diretor que, presenciando as cenas finais, chamou o pessoal para "dar explicações" na sua sala. Evidentemente, o "pessoal" que deveria dar explicações era realmente uma pessoa só: o Professor Ventura.

 

- Lá vamos nós outra vez! - comentou Beto ao entrar na sala do diretor, já que haviam sido arrolados como "testemunhas".

 

-  Sim! Se em mais esta "aula" o professor não der explicações convincentes,

estará perdido!

 

- Mas culpado do quê? - perguntou o professor ao ser questionado de forma mais agressiva pelo funcionário ofendido, já diante do diretor.

 

O professor Salgado, diretor da escola, pediu calma a todos e exigiu explicações completas do professor. Aparentemente, muito seguro do que tenha feito ele explicou:

 

- Um dos problemas mais desagradáveis que os profissionais de eletrônica em geral, incluindo os de computadores, encontram é quando o defeito é intermitente. É preciso estar ao lado da máquina para fazer os testes, e nem sempre dá tempo! Mais de uma vez ocorre que na hora que vamos fazer medidas, ou tentar mexer em algum componente, suspeito o problema desaparece.

 

Beto e Cleto concordaram com um movimento de cabeça. O professor continuou:

 

- Pois bem, os computadores são equipamentos bastante sensíveis ao calor e sobrecargas e, para complicar, todos os componentes em seu interior, quando funcionam geram calor. Para livrá-los do calor gerado, os computadores se utilizam de diversos artifícios. Um deles consiste em montar estes componentes em radiadores de calor, enquanto que outro consiste em se "bombear" o ar interior do computador que se aquece para o meio exterior. O ar frio que entra para ocupar o lugar do ar quente que sai e, com isso, mantém os componentes na temperatura ideal. Isso é feito por um motor que gira uma hélice, a ventoinha barulhenta que fica junto à fonte de alimentação...

 

Tomando um pouco de fôlego, e verificando se o Argermiro estava mais calmo, o velho mestre continuou.

 

- Quando os componentes de um PC se aquecem demais, e isso pode ocorrer por diversos motivos como, por exemplo, uma falha de ventilação, diversos problemas de funcionamento se manifestam. Componentes podem queimar e levar com eles outros componentes, pois na queima a corrente aumenta sobrecarregando todo o sistema, partindo da fonte.

 

O professor estava chegando ao ponto importante:

 

- Mas é a fonte justamente que interessa no nosso caso. Quando a corrente se torna excessiva, por algum problema de ventilação, ou os próprios componentes da fonte se aquecem demais, e também se houver falta de ventilação ou por motivos de sobrecarga eles podem aquecer e com isso, dispositivos de proteção entram em ação. Um primeiro dispositivo importante que o computador usa para evitar "estragos", quando aumenta o consumo devido a problemas com os circuitos, é a proteção "crowbar". O que ela faz é colocar em ação um dispositivo que tem por finalidade produzir um curto-circuito na fonte. Na verdade, trata-se de um curto-circuito controlado. Este componente é ligado antes do circuito de entrada mas depois de um fusível. Assim, quando ele entra em curto, a fonte não queima, nem o que está depois, que é o próprio circuito do computador, mas somente o que está antes!...

 

- O fusível! - completou Beto baixinho, mas todos ouviram.

 

- Exatamente! O fusível queima, o computador tem sua alimentação desligada, mas não há perigo do problema "se propagar" pelos outros circuitos que, desligados, não sofrem danos maiores e podem então ser analisados para se verificar a causa de tudo.

 

- Mas no caso do Argemiro, o computador voltava a funcionar e isso não aconteceria se fosse o fusível, pois ele precisaria ser trocado. - a observação de Beto não pretendia comprometer as explicações do professor.

 

O professor levantou o dedo indicador e explicou:

 

- Aí é que entra o segundo meio de proteção. Algumas fontes de alimentação de computadores utilizam circuitos integrados que possuem o que se denomina de "thermal shut-down". Trata-se de um recurso que desliga o oscilador principal da fonte chaveada se houver um aquecimento excessivo desses componentes.

 

- Em outras palavras: a fonte simplesmente pára se estiver muito quente! - O Argemiro estava acompanhando com interesse as explicações..

 

- Isso mesmo! E o computador do Argemiro, segundo verifiquei na documentação, utilizava uma fonte com este recurso. O circuito integrado LM3524D da National Semiconductor.

 

Tomando fôlego o professor ¡a chegando ao final:

 

- O que acontecia é então simples de ser explicado: quando o PC se aquecia demais a fonte era paralisada e, com isso, a alimentação era imediatamente cortada. Somente esperando esfriar, depois de meia hora é que ele voltava ao normal...

 

O professor fez uma parada, dando tempo para o Argemiro intervir:

 

- Mas que diabo tem a ver a temperatura com os pés da mesa! Ainda acho que o senhor está querendo me "gozar"! Além disso por que o problema sempre ocorria no mesmo horário?

 

O professor bastante confiante tinha a resposta:

 

- Eu explico! Seu computador estava encostado na janela. A ventilação dos circuitos era normal até as três horas da tarde, quando você puxava o painel para tampar a luz do sol. Pois bem, quando fazia isso, o painel ficava exatamente diante da saída de ar da ventoinha do PC dificultando a ventilação... Bastava então aguardar mais uns 15 ou 20 minutos para que a temperatura interna subisse o suficiente para que o circuito de proteção entrasse em ação!...

 

- Ora, e por que depois de meia hora tudo voltava ao normal? - quis saber o funcionário.

 

- Porque depois de meia hora você abria novamente a cortina deixando de impedir a ventilação!... O sol já tinha se escondido atrás do prédio, e os circuitos já estavam frios novamente, pois o computador estava desligado, conforme você explicou e eu vi... Quando você ligava novamente a máquina estava tudo normal e a fonte "partia" e o defeito não voltava.

 

- Mas, a mesa! O senhor ainda não explicou que "diabo" tudo isso tem a ver com o corte dos pés da mesa!

 

Vinha então a solução final. O professor sorriu e completou:

 

- Observei que não era possível afastar a mesa da janela para dar mais espaço para a ventilação. Da mesma forma, não seria possível mudar a cortina e nem o sol. Assim, como havia uma folga de altura dos pés do Argemiro em relação ao chão, percebi que bastava reduzir a altura da mesa e da cadeira em 10 cm, para resolver dois problemas!

 

- Dois problemas?

 

- Sim, o Argemiro não ficaria mais com os pés balançando ao trabalhar e o computador, descendo 10 cm, ficaria com a saída de ar da ventoinha um pouco abaixo da extremidade do painel que impedia a ventilação...

 

Percebendo que todos estavam meio desconfiados, ele complementou com uma sugestão?

 

- Por que não aguardam até amanhã! Se o defeito voltar eu prometo comprar uma mesa e uma cadeira nova para o Argemiro.

 

- E consertar realmente o PC! - completou o Diretor, com ar sério.

 

Todos concordaram, mas o professor tinha razão! O problema não voltou. Mesmo assim, o "baixinho" continuou ainda por uns tempos olhando desconfiado para o Professor Ventura:

 

- Ainda acho que tem algum tipo de "gozação" por trás de tudo isso!

 

Beto e Cleto, entretanto, não estavam totalmente satisfeitos com as explicações do professor e, num momento em que o pegaram distraído, arriscaram uma pergunta:

 

- Mas, diga-me, professor: não haveria mesmo outra solução que não fosse cortar os pés da mesa do Arge?

 

O professor olhou os dois rapazes de uma forma "marota" e respondeu sério:

 

- Talvez! Mas seria tão interessante?

 

Os três riram!

 

 

Esta estória, que nunca foi publicada é da década de 80. Naquela época um software muito popular de compactação de dados era o ARJ. Hoje temos o ZIP, mas sempre que alguém queria reduzir o tamanho de arquivos usava o ARJ. Esse nome de programa é utilizado em um jogo de palavras que levam ao nome de um dos personagens, conforme vimos.