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Professor Ventura em: Entrega Rápida

Imaginem um objeto que se negue a ser entregue num local, ou pelo menos a ir até ele! Se vocês acham que nem mesmo com os recursos mais avançados da mecatrônica isso não é possível, estão enganados. Nesta estória o Professor Ventura, Beto e Cleto vão mostrar que um engenho antigo, encontrado num depósito de sucata de aviões pode servir para fazer uma brincadeira muito interessante, demonstrando um importante fenômeno físico, que é aproveitado nos sistemas de equilíbrio de robôs e veículos mecatrônicos avançados, como o Segway.

 

 

Aloísio era seu nome, mas todos o conheciam por Lú.

 

Era um rapaz que nas horas de folga de seu trabalho, ganhava um dinheiro extra fazendo entregas rápidas na cidade, usando para isso sua ágil bicicleta.

 

Na verdade, a bicicleta era ágil demais para a pacata Brederópolis e não poucas vezes Lú havia tirado "finas" de velhas senhoras que atravessam descuidadamente as ruas, e até provocado algumas freadas bruscas de motoristas surpresos com sua aparição numa esquina!

 

Na verdade, Lú até abusava da velocidade e isso estava se tornando um incômodo para algumas pessoas que chegaram ao ponto de fazer reclamações diretas:

 

- Vá mais devagar "cara", ou você vai acabar se arrebentando um dia desses! - alertavam os mais chegados, mas os pequenos arranhões de um ou outro tombo não serviam para reduzir a velocidade de Lú.

 

Chegou entretanto um dia em que o professor Ventura, Beto e Cleto entraram na estória.

 

A "coisa" não foi acidental. Chamado para levar um pacote de produtos químicos do fornecedor ao laboratório da escola, as "manobras" de Lú foram tão violentas que o que o professor Ademar acabou recebendo não foi realmente o que pediu, mas sim uma combinação de tudo que podia resultar das reações entre os produtos que encomendou: vários frascos acabaram quebrando ou vazando!

 

- Você tem sorte que eu não encomendei nitroglicerina! - O professor Mário censurava Lú.

 

Perto, apenas observando, o professor Ventura, Beto e Cleto perceberam que isso não ía adiantar nada para reduzir a velocidade do rapaz e sua ágil bicicleta.

 

Afastando-se com os rapazes, antes da "bronca" do Prof. Mário terminar, o professor Ventura, mais uma vez com seu olhar maquiavélico, chamou a atenção dos rapazes: alguma idéia estava ocorrendo "na cabeça" do velho mestre.

Beto deu um cutucão de leve com o cotovelo amigo, que logo percebeu.

 

Os dois ficaram então em silêncio, pois isso era fundamental para que a "maquinação" do professor se completasse!

 

Eles sabiam que no final o professor contaria tudo.

 

Mais do que isso, ele certamente os convidaria para participar seja lá o que fosse.

 

E, foi o que ocorreu!

 

- Tenho uma idéia para uma "bela peça" no Lú! - Finalmente, o professor falou.

 

No laboratório, o professor Ventura começou a remexer em velhas caixas até que achou um objeto conhecido de todas as pessoas: uma roda de bicicleta.

 

No entanto, essa roda era um pouco diferente, pois tinha uma "adaptação".

 

Seu eixo tinha sido preparado para receber duas manetes, como as que existem nos guidões da bicicletas, para que ela podesse ser segura por este ponto.

 

- Vai mandar o Lú andar nisso aí? - perguntou Cleto não entendendo porquê o professor pegou tal objeto.

 

- Não é nada disso! - respondeu o professor.

 

- Então vai contratá-lo e abrir um circo! - brincou Beto.

 

O professor não se incomodou com a observação.

 

Tomando fôlego, como sempre, ele iniciou sua "fundamentação teórica", o que sempre ocorria antes de montarem ou "aprontarem" alguma coisa:

 

- Vocês já ouviram falar do gisroscópio? - a pergunta, na verdade já tinha resposta, pois o próprio professor havia ensinado os rapazes um pouco de física, quando estudaram a conservação da quantidade de movimento angular, e deu como exemplo o giroscópio.

 

- Será interessante re-explicar, pois assim ficar  mais fácil percebermos onde isso se "encaixa" na nossa brincadeira! - a observação de Beto tinha motivo, pois já fazia um bom tempo que tinham estudado o assunto, e nenhum dos dos dois estava ainda percebendo onde a roda de bicicleta "adaptada" se encaixava na história.

 

O professor convidou-os então para ir até o anfiteatro da escola.

 

Subindo ao palco, o professor parou diante do piano, e puxou para perto de Cleto, que segurava a roda de bicicleta, o banquinho giratório.

 

- Vamos fazer uma experiência interessante agora!... Qualquer corpo que gira manifesta forças que tendem, a mantê-lo em equilíbrio. É o caso de um pião que não cai, pois quando pende para o lado, imediatamente surgem forças que tendem a levá-lo de volta a uma posição de equilíbrio. Estas forças ocorrem devido ao que denominamos em física  "conservação do momento angular", ou seja, do "produto massa x velocidade ângular".

No caso do girsocópio, o que temos é um pesado disco de metal que se comporta como um pião, mas faz algo mais: uma vez colocado em movimento, rodando a uma altíssima rotação de dezenas de milhares de voltas por minuto, ele adquire um estado de equilíbrio dinâmico, passando a manifestar uma forte oposição a qualquer força que tenda a modificar este estado de coisas, ou seja, o plano de rotação do disco!

 

- E o que a roda de bicicleta tem a ver com isso? - perguntou Cleto não sabendo ainda o que fazer com o objeto.

 

- Muita coisa! Imagine que esta roda seja o disco de um giroscópio.

 

Dito isso, o professor mandou que o rapaz se sentasse no banquinho de piano com a roda de bicicleta, e a segurasse diante de si em posição vertical, ou seja, com o eixo na horizontal, e ainda que levantasse os pés, mantendo-os afastados do chão, sem encostar em qualquer outro lugar.

 

- Vamos fazer uma experiência! Quando eu falar "já ", você vai tentar mudar de posição a roda, colocando seu eixo em posição vertical, de modo que ela gire num plano horizontal.

 

- Quer dizer, você vai mudar de 90 graus a posição da roda! Mas, deve fazer isso rapidamente, certo?

 

- Pode ir em frente!... - concordou Cleto.

 

Em seguida, o professor, batendo com as mãos na roda colocou-a em movimento giratório cada vez mais rápido. A velocidade atingida era bem grande, mas Cleto segurava-a firmente, sem qualquer dificuldade aparente!

 

Beto só observava a estranha experiência. Quando o professor percebeu que a velocidade ideal tinha sido atingida, ordenou:

 

- Já!

 

O que ocorreu foi totalmente inesperado para os dois rapazes. Ao tentar mudar de posição a roda que girava rapidamente Cleto, sentado no banquinho, não esperava que uma forte força de oposição ia aparecer, desiquilibrando-o totalmente.

 

O corpo do rapaz, diante da oposição, se inclinou de forma estranha e ele simplesmente ía cair com toda força no chão, se o professor, que sabia o que ía ocorrer, e estava atento, não o segurasse!

 

- Puxa! - foi a expressão de surpresa de Cleto - O negócio funciona mesmo!

 

- Sim, a reação da roda em movimento, ou nosso "giroscópio" experimental é precisa!

 

- Explique-nos melhor o que realmente aconteceu!

 

- Por que a roda "se nega" a mudar de orientação quando em movimento rápido? É a conservação do movimento angular?

 

O professor percebeu que precisava dar mais algumas explicações:

 

- A inércia é algo bem conhecido de vocês: da mesma forma que é difícil tirar um corpo do repouso, também é difícil pará-lo. Todo corpo tende a manter seu estado de movimento ou repouso, e isso também é válido para um corpo que gira e, no seu caso, o que ocorre é mais complexo.

 

- Eu que o diga, pela manhã, como é difícil tirar meu corpo do "repouso" e levantar!...

 

Beto sabia que Cleto estava brincando, mas mesmo assim o censurou:

 

- Ora, não é desse tipo de repouso que o prof. Ventura está falando...

 

O professor continuou:

 

- Imaginem que o disco possa girar livremente montado num sistema "cardânico", ou seja, formado por anéis que permitem que ele tome qualquer orientação. Colocando o disco em movimento rápido, como já explicamos, ele adquire uma certa orientação o que nos permite notar então duas propriedades:

 

O professor que havia desenhado no quadro negro o tal sistema cardânico explicou com figuras.

 

-  A primeira é denominada "rigidez" e consiste numa forte oposição que o disco apresentará à qualquer tentativa de mudar seu plano de rotação. Essa propriedade vai depender de três fatores: a velocidade de rotação, a distância em que a massa se dispõe em relação ao centro de rotação e a massa do rotor.

 

- E a segunda?

 

- A segunda é denominada "precessão" e consiste na mudança angular do plano de rotação, segundo a influência de uma força externa. Esta precessão é mais complexa de explicar, mas podemos observar num pião como ele "reage" a força da gravidade que tende a derrubá-lo fazendo com sua "cabeça" um movimento em espiral, ou seja, ele "oscila" de modo a manter seu equilíbrio. A própria terra tem esse movimento de "precessão" de tal modo que os pólos mudam constantemente de posição...

 

- Muito interessante! - comentou Beto - Mas por que um disco girando manifesta uma força tão grande?

 

- Na verdade, as forças dependem tanto da massa como da velocidade. Se um disco é pesado e a velocidade muito grande, o produto dessas grandezas é maior ainda: o resultado é que as forças de reação passam a ser enormes! Imaginem um disco de alguns quilogramas, o que não é muito pouco, mas girando a uma velocidade de 23 mil rotações por minuto! Isso é um giroscópio!

 

- Com essa velocidade, a força de reação a mudanças de orientação do eixo desse disco deve ser incrível!

 

- Sim, - continuou o professor - e isso permite sua utilização em algumas aplicações práticas muito interessantes.

 

- Seria o caso dos chamados "pilotos automáticos" dos aviões? - Beto, já tinha lido algo a respeito e associava às explicações do professor.

 

- Nos aviões, encontramos um giroscópio que é acionado de modo a evitar que pequenas turbulências o tirem da rota, e também a ajudar no sentido da viagem ser mais confortável, pois com essa manutenção de direção, as oscilações laterais são evitadas. Uma vez ligados, eles podem manter o avião praticamente em linha reta, daí serem chamados de "pilotos automáticos" se bem que o nome não seja muito próprio.

 

A explicação do professor Ventura era interessante, mas os rapazes queriam saber mais. Beto perguntou:

 

- Além dos aviões, onde mais eles podem ser usados?

 

- Eles também são usados nos navios para reduzir os problemas dos balanços laterais. Como não existem reações às mudanças de posições que mantém a orientação do eixo ou o plano do disco, o movimento em linha reta ou com curvas suaves do navio não provoca nenhuma reação. No entanto, as oscilações laterais sofrem forte oposição e o navio não balança, tornando a viagem mais confortável!

 

- Puxa! Num transatlântico, um giroscópio deve ser enorme! - comentou Cleto.

 

O professor Ventura esclareceu:

 

- Na verdade, não! Um disco de algumas poucas toneladas mas girando velozmente ‚ suficiente para acrescentar muito conforto aos passageiros! A maioria dos modernos navios de passageiros usa deste recurso para dar mais conforto!

 

- E, voltando ao caso dos aviões? Os tipos modernos também usam somente para dar conforto ? - era a vez de Beto perguntar:

 

- Os aviões modernos posuem dois giroscópios, um montado na cauda com o eixo paralelo ao corpo do avião. Este é o giroscópio direcional que corrige pequenas oscilações de cauda, que tendam a tirar o avião da rota. Outro, que é montado no corpo do avião tem seu eixo vertical, evitando inclinações. Estes dois giroscópios também são denominados "de deslocamento".

 

O professor fez uma pausa, e continuou:

 

- Em vôo os aviões são muito leves, ou seja, qualquer pequeno esforço pode mudar sua trajetória, de modo que, para mantê-lo em rota os giroscópios pode ser muito pequenos, não pesando mais do que alguns quilos, e é justamente aí que está a chave para nossa brincadeira! Venham comigo.

 

O professor Ventura, depois da demonstração com a roda da bicicleta e o banquinho rotativo, convidou os rapazes a voltar ao laboratório.

 

Novamente, "fuçando" em algumas caixas, retirou do fundo de uma delas um dispositivo muito curioso.

 

Antes que os rapazes perguntassem, ele já foi explicando:

 

- É um giroscópio!...

 

- Suspeitei desde o princ¡pio!... - interrompeu Cleto, parodiando um herói infantil da TV.

 

O professor, carregou o objeto de algum peso até a bancada, onde o depositou com cuidado:

 

- Comprei esse giroscópio num depósito de material aeronáutico fora de uso. Temos companhias aéreas que estão constantemente renovando seu equipamento e até mesmo tirando aeronaves de operação! Antes de desmontadas são "depenadas" com as partes que ainda funcionam sendo vendidas. Este giroscópio é um exemplo: estava num velho DC-3 que ainda era usado nas linhas de carga da Amazonia. Este tipo de aeronave da segunda guerra mundial, além de ser uma das mais seguras, opera extraordinariamente bem em pistas curtas de terra, por isso até hoje encontramos muitos deles em serviço.

 

- O DC-3 não ‚ a versão civil do C-47 um bi-motor de transporte da Segunda Grande Guerra? - Beto mostrou que gostava realmente de aviões, pois conhecia bem o assunto.

 

- Isso mesmo! - confirmou o professor - Mas, o giroscópio ‚ que nos interessa. Vocês sabem, eles funcionam com 28 Volts que ‚ a tensão do sistema elétrico dos aviões. A idéia básica seria mandar o Lu "entregar" esse negócio em algum lugar, mas "funcionando"!

 

- Puxa! Um dispositivo que tem "horror" a variações bruscas de posição entregue por um "cara" que adora manobras "radicais"! Começo a entender a idéia: Certamente o giroscópio vai afetar o equilíbrio da bicicleta! - Cleto, finalmente percebeu a finalidade do giroscópio.

 

- Isso mesmo! Vamos provocar um "conflito de interesses"! - ainda brincou o velho mestre...

 

O professor começou então a planejar o dispositivo completo;

 

- Este giroscópio funciona a 23 000 rpm mas, para isso, exige uma boa corrente e demora um bom tempo, alguma coisa em torno de 2 minutos, para alcançar a velocidade máxima. Isso significa que, além de uma boa bateria, precisamos "dar um certo tempo" para que ele entre em funcionamento antes do Lú sair com ele, mas isso também é previsto no caso dos aviões.

 

Indo ao quadro negro ao lado da bancada, o prof. Ventura desenhou um diagrama simples:

 

-  A tensão do sistema elétrico de um avião é de 28 Volts. Podemos obter isso com três baterias de câmaras de vídeo de Nicad. Cada uma fornece 9,6 Volts, o que resulta em 28,8 Volts, o que está bem próximo da tensão normal do que precisamos. Entretanto, os giroscópios funcionam com 115 V x 400 Hz num sistema trifásico. Essa tensão é conseguida a partir de um "dinamotor".

 

Antes que os rapazes perguntassem o que era isso, o professor Ventura foi até outra caixa de sucata de onde, depois de remexer um pouco, tirou um dispositivo que parecia um pequeno motor elétrico, de cor preta.

 

- Sorte nossa! Também tenho um dinamotor que fazia parte de um velho rádio de válvulas de um DC-3 que comprei na mesma sucata!

 

- Só falta tirar o próprio DC-3 de uma dessas caixas!... - brincou Beto.

 

As explicações continuaram:

 

- O dinamotor, como o nome diz, é um pequeno motor alimentado pelos 28 volts do avião mas que já possui em seu interior as bobinas de um dínamo, ou melhor um alternador trifasico de 115 V e que opera em 400 hertz. Como a corrente de partida é intensa, podendo até sobrecarregar essa bateria, vamos incluir um circuto regulador que opera como limitador, aplicando uma corrente maior ao dinamotor apenas pelo intervalo necessário para que ele inicie seu movimento. Nos sistemas modernos este recurso já  está incorporado, aplicando 185 Volts na partida, mas o meu é uma sucata da Segunda Grande Guerra e não tem isso!

 

- O consumo é tão alto assim? - perguntou Beto.

 

- Sim, mas somente com o motor parado, quando temos quase um curto-circuito! Assim, no momento em que estabelecemos a corrente, precisamos de uma potência muito alta para tirar o disco pesado da imobilidade. Depois que ele atinge algumas centenas de rotações por minuto, a corrente começa a reduzir. Como as baterias de Nicad possuem uma resistência interna muito baixa, e por isso podem fornecer as correntes elevadas que um motor desses exige, precisamos apenas tomar cuidado para que não ocorra um aquecimento excessivo interno que acabe por explodí-las! Uma idéia é colocar um hiper-capacitor em paralelo, justamente para fornecer essa corrente inicial de partida sem causar problemas às baterias.

 

- Hyper-capacitor? - mais uma novidade tecnológica desconhecida dos rapazes levava Cleto a manifestar dúvidas. O professor explicou:

 

- Sim, é um tipo de capacitor que consegue armazenar uma carga muito grande, o suficiente para alimentar dispositivos de corrente elevada. Capacitores deste tipo são usados em robôs como sistemas auxiliares de propulsão e no futuro até devem ser usados para dar a partida em veículos automotores, substituindo a bateria nesta tarefa.

 

- E o acionamento do gisroscópio? - Era a vez de Cleto perguntar.

 

- Ele ser  feito por um relé, já que a corrente é elevada, e este relé estará num circuito que vai travá-lo quando acionarmos um reed-switch na lateral do "pacote". É só passar um pequeno imã! Acredito que, com a carga da bateria precisaremos de uns 2 a 3 minutos para que o giroscópio chegue a velocidade máxima e depois se mantenha assim por pelo menos quarenta minutos!

 

O professor fazia alguns cálculos envolvendo a corrente durante a aceleração do disco e depois a manutenção da velocidade, quando o consumo caia bastante.

 

- Isso significa que temos pouco tempo entre o acionamento e a entrega! Isso vai exigir planejamento para a brincadeira. - Beto tinha razão.

 

- Não se preocupe, pois já pensei nisso também!

 

Depois disso, passar dos planos para a montagem da "encomenda" não foi muito difícil, afinal o mais dificil, o giroscópio, estava disponível. O que não seria disponível nas velhas caixas de material eletrônico do Prof. Ventura?

 

Apenas foi preciso fazer alguns testes no sentido de se obter a partida do dispositivo sem sobrecarregar a bateria e manter depois a rotação.

 

- Puxa, como é silencioso! - falou admirado Beto ao ver o dispositivo em pleno funcionamento.

 

- Ótimo! Isso é fundamental para o sucesso da nossa brincadeira! - comentou o professor Ventura.

 

O dia combinado para a brincadeira estava ensolarado e com poucas nuvens no céu: ideal para um bom passeio de bicicleta! O professor Ventura havia avisado seu amigo prof. Claudio na outra escola da cidade, distante uns 3 quilometros, que ele receberia um pacote e explicou de forma resumida a brincadeira. O professor Cláudio riu e, do outro lado da linha telefônica, apenas confirmou:

 

- Se ele chegar "inteiro" até aqui eu recebo o pacote e depois lhe aviso!

 

- Quem? O pacote ou o Lú? - ainda brincou o professor Ventura.

 

- Os dois! - disse rindo o professor Cláudio que despediu-se e desligou o telefone.

 

Lú logo que foi chamado pedalou até a escola, onde se apresentou ao professor Ventura. Beto e Cleto estavam junto.

 

- Pronto para a entrega! É só dizer onde... - Foi logo dizendo Lú pronto para sair em disparada como era normal.

 

- Calma! - O professor o acalmou ao mesmo tempo que fazia um sinal para Beto que segurava a caixa, que já era hora de acionar o reed-switch que dava início ao processo de alimentação do giroscópio.

 

O zumbido que ocorreu no interior da caixa foi quase imperceptível, e o motor começava a girar o pesado disco de metal, que logo atingiria perto de 23 mil rotações por minuto!

 

Beto segurava com cuidado a caixa para que nenhum movimento brusco provocasse reações do aparelho.

 

Enquanto isso, o prof. Ventura explicava a Lú onde deveria fazer a entrega, mas fixando a rota:

 

- Você deve ir até o final dessa rua e depois virar a direita, pois você já sai na avenida principal! Por ela chegará mais fácilmente ao seu destino...

 

O porquê deste caminho pode ser explicado: o professor queria ver como Lú iria fazer primeira curva fechada no final da rua, chegando até ela em alta velocidade, com o giroscópio já  atuando... Beto e Cleto amarraram então o "pacote" na garupa da bicicleta, tomando cuidado para deixar seu eixo na horizontal, no sentido de deslocamento do conjunto.

 

De outra forma, ele não teria ação alguma na curva!

 

Outra precaução importante foi amarrar muito bem o pacote, pois de outra forma ele poderia "saltar" com o esforço na curva e nada aconteceria ao movimento da bicicleta, a não ser a queda da encomenda...

 

- Precisamos prender muito bem, pois trata-se de equipamento delicado! - justificou o professor Ventura testando as amarras.

 

Dado o tempo necessário a aceleração do gisroscópio, o prof. liberou o rapaz de bicicleta para a entrega.

 

Como era de se esperar, Lú saiu "à toda" do local, pedalando com força máxima, e ganhando velocidade à medida que se afastava!

 

O rapaz não percebeu nada de anormal pois se deslocava em linha reta, até que, alguns segundos depois chegou ao final da rua....

 

O que aconteceu é difícil de descrever tanto pela velocidade como pelas múltiplas consequências da ação, ou melhor, da reação do "pacote"!

 

Quando chegou no final da descida, Lú inclinou rapidamente o corpo para a direita e girou o guidão para entrar com toda velocidade na curva!

 

Ele queria fazer a curva mas, ocorreu o primeiro "conflito de interesses": o giroscópio não!

 

Como estava firmemente amarrado na sua garupa as forças resultantes entraram em ação!

 

O resultado final foi interessante, se bem que muito rápido: uma força surgiu tentando manter a bicicleta em linha reta enquanto que a direção em que a roda dianteira virava forçava-a em outra direção.

 

A resultante foi uma força combinada que simplesmente levantou a traseira da bicicleta de um modo estranho e lançou Lú pelo espaço, e em linha reta!

 

A inércia estava em ação, e ao mesmo tempo que a bicicleta "capotava" de um modo esquisito!

 

O mais interessante de tudo é que no final da curva, e o professor Ventura havia previsto isso (será?), havia uma pequena mureta e do outro lado uma lagoa onde haviam alguns patos e marrecos. Lú voou por cima da mureta e foi cair de cabeça no lago, espantando um grupo de patos que, assustados, se dispersaram com um enorme barulho!

 

O lago era raso, por isso, o rapaz muito mais se sujou de lama do que se molhou!

 

Meio abalado e assustado, ele não compreendeu muito bem o que aconteceu, mas não parou muito tempo para pensar: afinal a entrega precisava ser feita!

 

Levantando rapidamente e limpando-se um pouco, ele saiu do lago, e chegando perto da bicicleta que estava no chão numa posição estranha (devido as forças do giroscópio) ergueu-a.

 

Estranhou a leve resistência que ela manifestou a esse movimento brusco, mas atribuiu isso a alguma coisa que teria entortado na queda! Ele teria tempo para ver depois.

 

- Deve ter entortado a roda!

 

Montando de novo, vendo que o pacote estava intacto, Lú continuou sua rota.

 

O professor, Beto e Cleto que assistiam tudo ainda tentaram correr até o local para ver se ele havia se machucado, mas não deu tempo.

 

Saindo novamente em disparada ele chegou ao portão de saída para a avenida.

 

Deveria "pegar" a avenida principal para a esquerda e ele pretendia fazer isso, novamente com uma "bela" curva!

 

Mas, para azar dele não era só o giroscópio que deveria atrapalhar.

 

Naquele instante vinha justamente quem pela calçada, assobiando alegremente uma marcha de John Philip Sousa?

 

Sim, era ele: Epaminondas Portentoso com sua tuba que voltava de mais um ensaio da Corporação Musical de Brederópolis!

 

Lú viu o músico e tentou desviar, mas como sabemos, o giroscópio impedia manobras bruscas.

 

O ciclista ainda tentou avisar Epaminondas!

 

- Cuidado! Saia da frente!...

 

A bicicleta realmente virou, mas as mesmas forças que haviam lançado o rapaz no lago entraram em ação ele voou descrevendo uma "bela parábola" que terminava justamente na boca da tuba de Epaminondas!

 

O músico ainda tentou se desviar, mas não deu!

 

Com a cabeça entalada na tuba ele ainda gritava!

 

- Estou sufocando! Socorro!

 

O rapaz fazia o possível para se livrar da tuba com a ajuda do músico, mas não conseguia!

 

Epaminondas soprou então com toda força produzindo uma forte nota que ajudou o rapaz a sair caindo de costas na calçada!

 

Uma pequena aglomeração já se formava no local!

 

O professor Ventura, Beto e Cleto espiavam, escondidos por traz do pilar do portão da escola!

 

Mas, isso ainda não foi suficiente para impedir que o entregador prosseguisse.

 

Sem observar a estranha posição em que a bicicleta se "contorcia" pela ação do giroscópio, verificando que o pacote estava intacto, ele montou e pedalou forte pedindo desculpas pelo incômodo!

 

Epaminondas ficou apenas verificando se não houve nenhum "dano" no seu precioso instrumento!

 

Depois de vários tombos em curvas, finalmente o rapaz já mais moderado chegou ao local da entrada:

 

- Puxa! Que entrega difícil! Não é meu dia de sorte!

 

- É que você corre demais! - observou o professor Claudio.

 

- Acho que o senhor tem razão! - concordou Lú.

 

O professor pensou então que tinha conseguido corrigir o incansável corredor com isso, mas estava enganado, pois ele complementou:

 

- Da próxima vez venho com roupa acolchoada para me proteger dos tombos! Protegido posso até correr mais!

 

O incorrigível "corredor" foi embora sob o olhar incrédulo do professor Claudio.

 

 

Levando para dentro o pacote que, cuidadosamente foi retirado pelo próprio, segundo instruções do professor Ventura, o professor Claudio se preparou para telefonar sem saber que os dois estavam indo para lá.

 

Entretanto, descuidadamente ele deixou o giroscópio na sua saleta.

 

Foi no momento em que o professor Ventura, Beto e Cleto chegaram e estavam entrando na outra escola, um forte grito de mulher foi ouvido:

 

- Aiiii!

 

Correndo até a saleta puderam ver a faxineira assustada sobre uma cadeira, batendo no pacote contendo o giroscópio com uma vassoura!

 

- Essa "coisa" está viva! Tirem daí! Quando tentei tirar ela do chão ela "escapou" de minha mão".

 

O Professor Ventura, Beto, Cleto e o Professor Cláudio rindo viram o pacote realizar uma estranha "dança" no chão sob o olhar apavorado da pobre mulher! Carregaram então para longe o "pacote" sem que ela entendesse o que estava ocorrendo!...

 


 

 

Quem é o Prof. Ventura

As Aventuras do Professor Ventura visam basicamente ensinar um pouco de tecnologia, basicamente eletrônica, mecatrônica, informática e mesmo outras ciências, como a física, química e biologia da forma como são  ministradas no ensino fundamental e médio, mas de uma forma divertida.

Em torno de uma estória, o Professor utiliza recursos tecnológicos ou científicos para resolver os problemas que ocorrem na pequena cidade em que vivem ou mesmo para criar (involuntariamente) estes problemas, sempre ajudado pelos seus alunos Beto e Cleto.

As primeiras aventuras do Prof, Ventura, criadas por Newton C. Braga, foram publicadas na Revista Eletrônica Total, a partir de Março de 1994 com a "Cola Eletreônica", em que os "heróis" se viram diante de um interessante caso de cola num exame vestibular, envolvendo recursos tecnológicos bastante avançados para época.

Outras aventuras publicadas foram "Jupiter e o Cometa", "O Oscilador Disentérico" e "Teatro Multimídia".

 

Os personagens:

PROFESSOR VENTURA - É um velhote que leciona mecatrônica, eletrônica e física na Escola Técnica de Eletrônica de Brederópolis.

Com grande interesse pela tecnologia e ciência vive realizando experiências com circuitos e dispositivos estranhos.

Passa a maior parte do tempo no laboratório, junto com seus alunos realizando experimentos interessantes ou tentando solucionar os problemas que afligem a cidade ou ainda em que se metem involuntariamente.

 

BETO E CLETO - São dois estudantes do último ano da escola téecnica e adoram a tecnologia, com ênfase à eletrônica e tudo que é científico, sendo fãs do professor a quem ajudam em todas as oportunidades.

Beto ‚ o mais ativo e esperto, enquanto que Cleto, um pouco limitado pelo seu peso acima do normal, ‚ mais lento tanto nas atividades físicas como também de raciocínio.

Os diálogos que demonstram as diferenças entre os dois facilitam as explicações sobre princípios tecnológicos e científicos dos "artefatos" envolvidos nas aventuras.

 

O LOCAL

A cidade é Brederópolis, nome dado em homenagem ao fundador Brederodes Rancatoco, um explorador que desejava conquistar o oeste, não tivesse tropeçado num "maldito" pé de limão e por lá  ficado o tempo suficiente para fundar a pequena vila que logo se transformou em cidade.

A economia, evidentemente, se baseia nas infindáveis plantações de limões e na fábrica de sucos e concentrados de limão, a "Bredesuco".

Da praça saem duas ruas principais, uma em que se concentra o comércio e termina na escola técnica cujos fundos tem por divisa o rio, e a outra liga a cidade com a rodovia, passando por uma ponte sobre o rio.

O rio faz uma curva que contorna a cidade e é bastante largo e fundo.

Da cidade sai uma rua que sobe e desce uma colina em curva terminando na Vila Nova, o único bairro afastado.

No alto da Colina temos o velho casarão abandonado e o cemitério que serão cenários de algumas aventuras interessantes (algumas das quais já publicadas).

Todas as aventuras ocorrem sempre neste cenário com estes personagens como centro, além de outros que podem vir de fora, com passagens eventuais portanto.

 

CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS

Um ponto importante a ser ressaltado é que em todas as aventuras procura-se ensinar um pouco de tecnologia, especialmente a eletrônica e a mecatrônica, além da informática, de uma forma bastante suave, se possível associada aos currículos de ciências (física, química e biologia) do ensino médio.

Dessa forma, pode-se comprir uma finalidade bastante importante em nossos dias: unir a ciência tradicional (e antiquada) ensinada nas escolas comuns com a tecnologia atual.

Os dispositivos e circuitos envolvidos são sempre analisados pelo professor Ventura que os explica à Beto e Cleto.

Devido a este fato, mesmo que não ligado diretamente a pessoas que não sejam da área técnica, tornam a obra didática.

Aprende-se muito de tecnologias modernas como a robótica e a mecatrônica, informática e eletrônica e seus fundamentos de uma forma divertida.

 

 

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N° do componente 

(Como usar este quadro de busca)

 

Opinião

Ser não ser honesto (OP192)

Não há dúvida de que estamos passando por uma época de transformações políticas e sociais. Já não se admite desonestidade na política, e evidentemente em qualquer outro tipo de atividade em nosso país. A pressão tem sido cada vez maior no sentido de erradicar este mal, mas infelizmente ainda vemos que em alguns setores, esta mentalidade parece não estar mudando com a devida velocidade.

Leia mais...

Dúvida
Pois a dúvida agrada-me não menos que o saber. (Che non men che saver, dubbiar maggrata.)
Dante (1265 1321) - Inferno - Ver mais frases


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